segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Dia D milagre









Show-Missa no acampamento de domingo!
Segunda do reavivamento da graça!
Terça da quebra das correntes da falta de dinheiro!
Quarta-feira do milagre urgente!
Quinta-feira do desencapetamento!
Sexta-feira da promessa eterna!
Sábado dos pedidos e do agradecimento total!

E por aí vai!

Dias atrás recebi um folheto de propaganda, que apesar das discordâncias na escrita assim dizia: "Venha receber o seu milagre!". Como tornei-me um exímio colecionador de propagandas religiosas não hesitei e guardei mais este.

O engraçado nessas campanhas pseudo-religiosas é que tudo parece uma promoção do tipo "quarta-feira maluca, não deixe de comparecer e aproveitar nossas ofertas!" Engraçado e esquisito. Nesse aspecto, dá pra se contar nos dedos de uma mão quais religiões não enveredaram (ainda) pelo caminho das promoções semanais.

Depois de estocar uma boa quantidade de material de campanha promocional religiosa o que mais notei foi a ausência do nome "Jesus". A igreja, o templo, a religião, a fé em si, tem um pastor ou um dono e não é o Cristo mas sim aquele famoso dirigente que se auto-intitulou como servo-escolhido daquela determinada denominação.

"O bom pastor zela por suas ovelhas", eis uma frase que está no altar da igreja do pastor fazendeiro, aquele "apóstolo" que usa chapéu e vende lencinho milagreiro; aquele que o Ratinho (SBT) desceu o sarrafo e no dia seguinte foi obrigado a se retratar, ao vivo. Essa citação traz também, além do sentido bíblico, um outro que tem conotação mais forte atualmente: que o pastor, na verdade, é o dono da igreja. E, que quem estiver sob suas asas e domínio estará protegido.

A pretensão dos líderes e pregadores das religiões em ascensão causa a impressão de que foi tão e somente a partir "dessa" religião que o mundo passou a conhecer o "milagre". Parece que antes dessa febre de pastores milagreiros, apóstolos super dotados, de padres pop stars, e pregadores do além, não se existia Deus. Deus, Jesus, ainda viviam no anonimato.

Num determinado retiro, um pregador desses que berram "amém-aleluia-glória-amém" fazia ali sua devida "pregação". Como Católicos, aguardávamos a chegada do "Santíssimo". Seria a adoração, ao qual o padre faria a condução naquele momento. Pergunta se o homem da pregadura das palavras se importou em pausar sua falatória? Humildade?! Nem senso houve!!! Foi um desfecho inusitado. Resumindo: não houve adoração. O "Santíssimo" foi recolhido para a capela onde já estava sendo exposto. E os coordenadores do evento ficaram com cara de "ó" (...)!

Hoje qualquer um pode se intitular um pregador - título também em alta no mercado da fé. Basta berrar, gesticular, dramatizar, chorar, emocionar e o mais importante fazer as pessoas se emocionarem. Seja um bom vendedor e venda o seu peixe! Simples assim! 

Eu, ainda prefiro os profissionais das artes cênicas que estudaram para levar o humor, a dor, a verdade, a poesia, a vida através da arte. Ser famoso é uma questão de profissionalismo e competência, resultado adquirido com empenho e amor. Bem diferente dos profissionais da fé: péssimos artistas, pra não dizer falsos moralistas, que discursam em causas financeiramente próprias.

Améimmmmmm!!!





Profecia VS Especulação



Nos relatos bíblicos sempre se houve falar em profetas e profecias. Muitas histórias, sejam em livros ou filmes, trazem em seu enredo o profeta como um ser mágico que consegue, principalmente, prever o futuro.

No curso de Teologia, especificamente na disciplina de Bíblia, entendemos que o profeta é uma referência de personalidade de sua época. Ele é tido como a voz da sabedoria para o povo e seus dirigentes. É aquele que anuncia, mas acima de qualquer coisa, e principalmente, denuncia com veemência e sem temor.


O termo profeta tem sido bastante utilizado no marketing das religiões, principalmente essas neo-pentecostais que se proliferam desproporcionalmente. Essas tais, que estão mais para seitas que propriamente religiões, trabalham massivamente para se exporem de forma que possam angariar mais adeptos. Ter alguém com o título de profeta, ou apóstolo, ou missionário, ou pregador, ou bispo, ou tudo junto e misturado, é um quilate à mais que a coloca na frente das outras na corrida pelo ouro dos fieis.


A profecia virou mais um sub-produto do capitalismo religioso. A religião já é mercado de longa data, e como tal, tem o seu lado prostituído. O que de fato deveria ser a profecia na religião acabou virando especulação. Uma inversão de valores. Enquanto se vivencia a especulação do capitalismo religioso nesse mercado da fé, a essência da religião é deixada de lado. A profecia, tal como exposta na bíblia, então fica banalizada. O que deveria ser o caminho de salvação é sim caminho de alienação, mercado opressor, balela de um-sete-um.


Os profissionais da fé são verdadeiros manipuladores de mente. Na verdade são artistas em suas dramatizações. O que Marx disse sobre a religião "ser o ópio do povo" tem infinita razão quando não é usada como fonte de libertação.

Entendo que o sagrado pode estar contido até mesmo nos aspectos e meios mais profanos da sociedade e também da religião, como por exemplo, a fé dos fieis, inerte à conduta e intenções de seus dirigentes. No entanto, o profano sem o sagrado não passa de um objeto sem sentido, corrompido e deturpado. Neste caso, os administradores religiosos. 


Hoje, assistimos a uma safra de especuladores do mercado religioso bancando de profeta. E o são, porém, do capitalismo incrustado e escancarado dos templos profanados. Lançar tudo o que tem no bolso e na carteira, no dia da pedida, pela cura e libertação dos males que atravancam a prosperidade financeira, ou, comprar o lencinho milagroso do bispo fazendeiro, se não for o de R$ 500,00 que dá direito a um milagre maior, pode ser o de cinquentão que também lhe garante um mais modesto, ou ainda, vender alguns objetos de valor de sua casa e levar a verba para a tal fogueira santa são apenas algumas das armas usadas nesse verdadeiro marketing, não de guerrilha nem de guerra santa, mas, de conspiração mercadológica. 


Espero, tão apenas, que os magos do poder financeiro-profético que detém a fé das pessoas deixem de vender terrenos no céu com seus shows milagreiros. Chega de falcatruas e covardias! Uma pitada de respeito, sem cobrar por isso, por favor!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O ministério carismático, o pastor, a quenga, o travesti e o pai-de-santo.


O relógio da catedral badalava as vinte e uma horas. A praça de frente a igreja estava deserta. Alguns moradores de rua ziguezagueavam pelos canteiros. Seus cachorros corriam e pulavam no lago para se refrescar do calor. As lojas ao redor, todas fechadas antes das dezenove horas para se evitar qualquer tipo assalto, deixavam aquele lugar mais deserto do que realmente era.

Faltavam alguns minutos para as vinte e duas horas quando um grupo de aproximadamente oito rapazes de moto pararam no estacionamento da praça e começaram a correr atrás dos moradores com pedaços de madeira e corrente. Na correria, dois que eram mais de idade caíram e não conseguiram escapar do linchamento. Um verdadeiro massacre. Covardia sem precedentes por motivo nenhum. 

Realizada a sessão de tortura saíram às gargalhadas em suas motos. Outros três mendigos retornaram e encontram seus colegas desmaiados e repletos de sangue. Ligaram para a polícia que nem sequer apareceu no local. 

Aflitos, foram até a catedral, aonde, no salão de reuniões, estava um grupo de pessoas que fazia parte de um ministério de música e oração. Os moradores da praça chamaram mas nenhuma das pessoas se ateve a atendê-los. Estavam ocupados demais com seus preparativos que seria impossível parar para ver o que estava acontecendo. E se tratando de desocupados que vivem de cachaça não haveria de dar tanta importância.

Enquanto isso, do outro lado da praça, um pastor despedia-se de alguns fieis na porta de seu templo. O culto de cura e libertação havia terminado. Iniciaria a sessão de descarrego em prol da prosperidade financeira. Outros dois moradores de rua foram até lá e pediram socorro mas o pastor com veemência repreendeu-os dizendo que ali era um lugar sagrado e de respeito e por eles estarem cheirando a cachaça Deus haveria de castigá-los.

Voltaram para junto dos dois feridos e com  garrafas pet's transportavam água para limpar os ferimentos. Neste momento, uma garota de programa que passava pela praça para chegar ao seu ponto notou algo estranho entre os moradores de rua e se aproximou. Ciente da gravidade do problema foi até uma farmácia 24 horas e comprou diversos remédios para fazer curativos. 

Passava de carro por ali um travesti, amigo da garota de programa, que fez questão de parar e dar um apoio. Ainda sem recobrar a consciência, os feridos eram cuidados sobre a grama da praça. 

Já se passava da meia-noite quando três pessoas de branco cruzavam aquele que havia sido palco da brutal covardia. Era um pai-de-santo com mais dois amigos. Diante de toda aquela cena de guerra também foram solidários. Concluíram então, o travesti, a quenga e o pai-de-santo, que o melhor a se fazer era levar os feridos para uma UAI. E assim o fizeram. Acompanharam todo o procedimento e depois de liberados, por volta das 4 horas da manhã, foram todos para a casa do pai-de-santo.

Nessa noite, a rotina dessas pessoas foi quebrada. Dois deixaram de trabalhar e o terceiro deixou de passear com seus amigos. Porém, todos foram solidários e praticaram a verdadeira caridade com amor ao próximo. 

Talvez, essa história não esteja nos moldes bíblicos mas se lerem e relerem a passagem do "bom samaritano" compreenderão que foi apenas reescrita em nossa contemporaneidade. Tirem suas conclusões. 



Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando: Psicanálise, Coaching, Docência do Ensino Superior

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Tudo bem, kabeção!!!



Tudo bem que eu queria que você fosse um irmãozinho, pra jogar futebol comigo.  Tudo bem que você poderia ter nascido logo pra gente poder viver loucas aventuras. Tudo bem que se fosse homem a gente ia dividir roupas e perfumes e outras coisas mais. Tudo bem, tudo bem, tudo bem...
Sabe, deixa o futebol de lado, porque na verdade sempre gostei mais de vôlei e a gente brincou e jogou muito (rs). E não esquenta, se você fosse homem, ainda assim a gente não dividiria as roupas... nem os perfumes! 
Ah, "Kabeção"!!! Olhando pelo túnel desse tempo que nos trouxe até aqui, creio que hoje posso simplesmente respirar tranquilo com você aqui pertinho, ao meu lado. Praticamente no quintal de casa. rs
Eu não esperava muitas coisas do futuro mas queria ter o gostinho da gente morar na mesma cidade. E as coisas foram tão abençoadas que você mora ao lado da minha casa, com seu marido e filhas.
Te deixei criança e te reencontro mulher, mãe e esposa. Espero que outras datas, todas as datas possíveis, passemos não simplesmente juntos mas sempre unidos. Sabemos que só temos um ao outro e de você não abro mão, Kabeção!!!
Feliz aniversário minha irmã. Seja sempre o esteio de sua família, o alicerce de sua casa. Conte comigo!!! Amo você!!!

E pra nós, um trecho de uma música que define bem essa nossa amizade: 
"Que venham as lutas, a dor e a solidão
Os passos lentos do povo a caminhar
O nosso amor é fonte no jardim
Pra saciar a sede de quem vem
Pra perfumar a estrada de quem vai
Pra festejar o dia do amor" 
"Companheira"


sábado, 10 de janeiro de 2015

Máscaras Maquiadas V - Vês


Vês
A boca fala
A língua destila
O coração por vezes não condiz
Não aceita o que se externa
Em seu íntimo ferido
Guarda as mazelas
Guarda um saldo de esperança
Perde-se nos pensamentos
Tropeça-se nos sentimentos
Vês
Ouves nada mais
Nada importa-lhe saber
Acreditas nas conjunções
Fórmulas de sua cabeça
Verdades ou mentiras
É o que lhe vale como sentença
Deturpa-lhe a mente
Quando encontra a boca que mente
Não suporta a falta 
Nem a ausência de seu controle
Vês
É sol que desponta
Desperta e aquece
Liberta-te do cativeiro
Do coração de menino
Sensível maduro
Inconsequente e traquino
Não há muros
Nem cercas
Nem dispensas
Nem orgulho
Vês
É a chegada da noite
O escuro da morte
Ou o encanto dos versos
A proeza tão mágica
Que dá vida às asas
É o palco do encontro
O firmamento infinito
Eterno e bonito
Testemunha a história
Vês
Desnuda-te de tuas vestes
Arranca-te de tua carapaça
Enxerga-te em tua forma
Mostra-te a que veio
Não és armadura
Nem só maquiagem sobre máscaras
Sejas o que és...