terça-feira, 10 de março de 2015

Anônimo


As formas me atraem
Mas o mundo me trai
Abstrato é o amor
Concreta é a dor
Deixo a imagem
Retorno à margem
E adentro o rio
Seja quente, seja frio
A entrada da estação
É caminho ao porão
A luz de todo dia
E as noites mais sombrias
Eis a minha insensatez
Doce beijo, só mais uma vez
Meu caminho é anônimo
O sonho, meu pseudônimo
Despojo minha alma
Até que a dor acalma
Na estrada sem fim
Eu sem razão e a razão sem mim

sábado, 7 de março de 2015

Fogo e paixão no olhar


Foi...
Foi seu olhar
Encontrado no frenético sobe-desce daquela rua
Foi assim, de uma intenção desprovida de argumentações
Que sucumbidos ao eloquente desejo da alma
Encontramos o caloroso abraço de um dia
Ao qual foi selado em segredo com um beijo
O som do silêncio dispensa palavras
Quando a química das peles se exalam
E extrapolam para além daquele olhar
Foi seu olhar
Que tateou as batidas do coração...

terça-feira, 3 de março de 2015

"Justiça: caminho seguro para a vida" - Pr. 11-15



A modernidade coloca a justiça numa condição de relatividade. Ser justo ultrapassa o critério legal que rege a sociedade. Como exemplo, o caso de outro brasileiro prestes a ser executado na Indonésia. O país está legalmente amparado para praticar a pena de morte, porém, como cristãos a consideramos uma falsa justiça que o homem inventou para assegurar o controle sobre os seus compatriotas. Neste caso há uma inversão de valores e práticas em que a morte é subitamente usada como castigo ao contraventor da lei e também para que sirva de lição à sociedade em geral. A vida perde o valor e é sucumbida frente ao valor dado à justiça dos homens.

Apesar de tantas leis, ainda assim, o ser humano tem a liberdade da escolha, que por sinal requer responsabilidade sobre as consequências que virão. Provérbios 15,32 alerta: "quem rejeita a disciplina despreza a si mesmo". É importante estar ciente das atitudes. Uma vez desprezada a razão que norteia uma caminhada segura, a morte, seja do corpo ou da alma, torna-se o prêmio estipulado e mais próximo.

Em contrapartida "a justiça leva à vida" (11, 19) e aqui essa justiça praticamente se define como um caminho seguro regado à dignidade, honestidade, retidão e prudência na conduta, pois "para o homem prudente o caminho da vida leva para o alto" (15,24). Escolher a justa medida, a verdade que dignifica a vida, requer disciplina, consciência e muita renúncia frente às facilidades comercializadas e até prostituídas pelo sistema, pela sociedade e pelo homem.

A justiça não só liberta da morte, mas principalmente previne o ser humano de entrar num caminho sem volta. E não se trata somente da morte corporal, porém de todo tipo de ação que gera opressão e fere a integridade do próximo direta ou indiretamente, física, psíquica ou espiritualmente. Usar a liberdade e fazer a escolha sensata e prudente é agir com justiça, ou melhor, caminhar seguramente rumo à vida eterna. 

Eimar Oliveira & Ailton Domingues de Oliveira 
IV Período Teologia - Trabalho de Bíblia V
Faculdade Católica de Uberlândia - Fev./15

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Tantos


Tantas histórias já vivi
Tantas vidas eu passei
Tantas vezes já morri
Por tão pouco eu chorei

Tantas dores cultivei
De tantos fins eu renasci
Em tantas lutas eu sangrei
De tantas quedas me reergui

Tantos mundos percorri
Em tantos sonhos viajei
Tanta gente que já vi
Tantos olhos eu fitei

Tantos caminhos eu andei
Tantas vezes já caí
Tantos braços me entreguei
Tantos amores eu senti

A fortaleza que eu perdi
No horizonte que eu sonhei
Vazio e medo que senti
Quando sozinho me encontrei

A solidão que eu carreguei
Nos mundos que corri
Fruto do medo que plantei
Ou das ausências que eu não quis

Tanto tempo
Tanto silêncio
Entre tantos momentos
Entretanto Uma vida (...)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Concertos de Mestres - Parte II



"Bença, vô!". "Bençôe", respondia de forma simples o meu saudoso Vô Dito. "O que o senhor tá fazendo?"  Ele mexia na torneira sobre a pia da cozinha com algumas ferramentas. Tirou-a e colocou um pano para que a água não inundasse a cozinha. Em seguida foi retirando o pano e encaixando um tampão. Rosqueou-o com firmeza para que a pressão da água não arremessasse para longe tampão e pano. "Pronto! Precisava di trocá a borrachinha da tornera. Ela tava passando. Tava pingano água. E num pódi disperdiçá água. E despois a conta vem cara no final do mêis."

Vô Dito não tinha muita leitura. Se virava como podia para ler e escrever palavras. Tropeçava nas letras para completar a frase. Foi comerciante e sempre tinha suas contas sobre controle, bem como uma boa economia guardada para ocasiões especiais. Talvez, fosse um costume antigo, ele sempre carregara consigo uma certa quantia de dinheiro no bolso. Perigoso para os dias atuais. 

Sem formação acadêmica foi um bom administrador de seus bens, conquistados com muito suor. Não fez nenhum cursinho básico de eletricista, pedreiro, encanador, carpinteiro mas sempre fez de tudo um pouquinho. Só em casos que superavam seu entendimento aí recorria a profissionais, do contrário, não tinha preguiça e botava a mão na massa. 

Noutra vez, chego em sua casa e o encontro com uma marreta numa mão e uma talhadeira na outra. Estava batendo na parede por sobre umas trincas que se formaram na parte superior da porta. Perguntei-lhe o que fazia. Ele parou suas marretadas e mostrando as trincas disse que era necessário fazer uma amarração com pedaços de aço para que elas não se tornassem maiores. Era preciso abri-las de forma que coubessem os metais, todos já cortados. Uma engenharia da sabedoria bruta. 

E quantas e quantas vezes o vi no quintal fazendo massa de cimento para tapar alguns buraquinhos na parede ou algum concreto mais pesado? Não foram poucas. Ele nunca me ensinou como se fazia as coisas mas eu vi. Cada cena ficou bem guardada e por consequência hoje também me viro nos trinta. A engenharia do improviso é algo em que gosto de utilizar o meu tempo. Reinventando.

Desde que ele passou a utilizar medicamentos para o controle da pressão arterial e outras coisas mais, eu já trabalhava em farmácia. Todas as vezes que retirava seus remédios no Posto de Saúde Municipal pedia para que eu separasse cada qual no seu lugar, sempre mantendo a ordem por vencimento. Fazia questão de comentar sobre outras enfermidades como o ácido úrico e o diabetes que vez ou outra alteravam. Contava-me dos remédios e seus efeitos. 

Lembro-me de uma noite que eu meu primo Kleber chegamos de última hora em sua casa para passar a noite. A Vó Cida, sua esposa, estava internada. Jogamos dois colchões de solteiro no chão da sala e nos arrumamos pra deitar. De repente, escutamos um grito seguido de um choro descontrolado. Vô Dito imaginou que o motivo de estarmos ali era porque a Vó estaria muito mal no hospital e por outro lado ninguém lhe contara a verdade. Custamos a fazê-lo entender que realmente só queríamos fazer-lhe companhia e que logo mais a vó Cida voltaria pra casa.

Enfim, estes são mais alguns consertos que aprendi sem ter frequentado escola alguma. O mestre passava a lição botando a mão na massa, desprovido de qualquer intenção de ensinar. A arte de ensinar simplesmente acontecia pelo exemplo. Eis o conserto que virou concerto para a vida. A você meu Vô Dito, obrigado por seu exemplo e por suas lições aprendidas e repassadas na faculdade da vida.

Benedito José de Oliveira - in memórian
* 30/12/1935
+21/10/2008