O sertão é o sozinho, é dentro da gente, está em todo lugar. Deus e eu no sertão.
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Roupa de Missa
"Recordar é viver." Realmente, e como é bom recordar momentos especiais e pessoas importantes em nossa vida! E é com essa nostalgia que me pus a adocicar o dia com pitadas de boas lembranças regadas de muita saudade.
No tempo em que morava com meus avôs Joaquim e Iolanda, onde tinha o meu cantinho com todas as minhas roupas, violão, cadernos e uma caixa de brinquedos guardada debaixo da cama, trago muitos ensinamentos expressados de maneira simples mas com uma profundidade de sabedoria indescritível.
Parar e voltar o pensamento no tempo tem um significado enorme para mim. Não se basta em simplesmente lamentar e chorar pela ausência dos que amo. Vale também celebrar sua Páscoa, sua partida até o lugar que acredito que um dia nos reencontraremos.
Das frases guardadas no baú do coração tem uma que vem à mente cada vez que compro uma roupa nova. "Roupa nova é roupa de Missa!", dizia minha avó. E assim se procedia. As roupas recém compradas eram usadas primeiramente para ir à Igreja, na Missa no domingo de manhã. Era uma espera ansiosa mas valia a pena. Depois, já podia usá-las para outras ocasiões.
De certa forma sua fala reflete até os dias de hoje. Por mais que eu não cumpra esse preceito tal como me foi passado ainda assim coloco-me a pensar na importância que minha avó dava ao Sagrado, o carinho com que me educava nos conformes da religião e o respeito que tinha para com a Igreja.
Respeitar sem questionar. Assim que sua educação foi baseada. Sei que ela quebrou barreiras para poder dialogar com o meu tempo. Acompanhou até aonde pode. Depois trilhei meu próprio caminho.
Hoje, tanto tempo depois, eis que estou a interpretar o sentido das poucas palavras dessa frase que ouvi. A 25 ou 30 anos atrás não havia possibilidade de tantos questionamentos, nem tampouco a liberdade religiosa. Ou era de Deus ou era do diabo. Fazer o contrário do que a Igreja pregava era ruim. Era como ajuntar pontos negativos até o final de sua existência e no dia de sua passagem tudo lhe seria mostrado e pesado na balança: boas e más ações. Do resultado a sentença seria dada: céu ou inferno.
Vó Landa tinha um zelo enorme pela Igreja, um amor admirável. Legião de Maria, Apostolado da Oração, Grupo de Oração e principalmente a Missa, não media esforços para dedicar seu tempo. Dia de novena de Nossa Senhora Aparecida não perdia uma. As rezas da Campanha da Fraternidade, do Natal e outras também estava lá. Queria me ver tocando violão na igreja. E eu o fiz. Mesmo em dias que demorava a voltar do passeio do sábado, as 7:30 horas da manhã de domingo já estava a postos para a Missa. Ai se não fosse!
Seu entendimento era limitado, tanto quanto sua pouca leitura. Praticamente soletrava picotadamente cada palavra quando se dispunha a ler a Bíblia. E lia todos os dias. Sabedoria, fé, respeito, amor, é isso que se resume aquela frase. Talvez quem leia ache graça ou até mesmo um absurdo, em dias de tanta tecnologia e liberdade desmedida, alguém se prestar a encontrar sentido numa frase dita a um adolescente a 30 anos atrás. Não importa! Cada um carrega e guarda aquilo que lhe convém.
Estudarei eternamente tentando encontrar respostas para o sentido das coisas, frequentarei academias e me dedicarei a compreender ao menos um pouquinho sobre a fé que move montanhas mas tenho certeza: jamais alcançarei a sabedoria que eles tinham; jamais possuirei a fé que eles viviam. Levarei, então, por toda a minha existência tudo quanto eu puder carregar de seus ensinamentos, de suas sabedorias, de suas vidas.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
Eternamente travessia
Somente uma casa no meio do nada
Sem sombra de pedras
Sem as copas dos monumentos
Que vedam o deleite da lua
E ofuscam as estrelas da cortina escura
Quero o silêncio da terra
O choro dos rios
O canto encantado da passarada
As cores da vida verdadeira
O desfecho que, tão a mim, espera
Quero a menina dos olhos
Dos olhos, a menina, me fulminam
Quero cantar-lhe meus cantos
E quando o pôr do sol se achegar
Tombaremos no regaço do abraço
Hei de recostar na rede
Que jaz permanente na varanda
Chamarei cada qual pelo nome
Enquanto a memória se perfazer viva
E no apagar das velas rezarei novamente
Na mesa grandiosa
Ao redor comemoram cada meu
Histórias, memórias, glórias
Saudade, pensamentos, esperança
É o espaço de nós
Farei poesia a cada dia
Trarei pertinho meus poetas guerreiros
Entoarei hinos aos mártires
Saudarei minha terra com os meus
Minhas montanhas, meus sertões louvarei
Não guardarei mais passado
Trarei apenas lembranças de vida
Meus escritores para sempre do lado
Enquanto a luz ainda me guiar os olhos
E minha boca prosear sobre os tons
Tão duras estradas até aqui
Tão cruéis meus algozes
Tantos fantasmas que gerei e alimentei
Vão se desfazendo em cada estação que acheguei
E mais uma vez sigo o leito do peito
As cercas não têm porteiras
Bichos e gente vão se achegando
Meu altar é o chão com roseiras
O nascer de cada dia é o presente
Que a gente abre, abraça e sente
Minha história não terá fim
Meu nome ninguém saberá
Entre dores, amores e alegrias
Sei que vivi à frente de qualquer morte
Mas hei que um dia também serei travessia
Flores que rodeiam este sertão
Rios que cortam esta montanha
Fontes que o mundo não me deu
Altar que guerreei para encontrar
Silêncio, oração, esperança, amor: utopia
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Cartas do Calabouço - Parte VIII - final
Não quero falar do tempo
Nem do tal
amor...
Já não o sei que
bicho é este
O que será?
De onde vem?
Como que se
pega?
Dói e remedia,
sim
Mas, já não sei
como é que é
Se é ou não é
Se um dia eu
amei
Se ao menos amar
eu sei...
Na verdade não
quero falar de nada mais
Trago aqui o meu
despir
Despindo minhas
máscaras
E despedindo por
esta carta
Tenho um desejo,
sei
De carregar o
desejo livre
E isso é
despojar-se do mundo inteiro
Tudo ao redor
Nada ao dispor
No voo da
liberdade
A solidão é
companheira no céu
Aquele culpado e inocente
Assentado como
réu
Refém de seus
algozes
Paixões do
repente ferozes
Assim cá estou
Desmedido de meu
eu
Corpo e alma se
golpeiam
Razão e fé se
contradizem
Minha vida nesta
cela
De ossos, carne
e sangue
Anseia um
respiro mais puro
Sentir o enigma
da montanha
Além dos sonhos
e da esperança
Alimentar esta
criança
Com a bruteza da
doce natureza
Cá estamos num
diálogo eternal
Sem fim mas que
agora encerro
E um dia, quem
sabe retomaremos
Sei que estás em
mim
E eu em ti
Somos tal corpo
e tal alma
Somos tal emoção
e tal razão
Somos eu e meu
eu
Imagem da imagem
Côncavo e
convexo
Que em
determinados pontos se contrapõe
Que em momentos
vários se esquivam
Que em estações
afora embarcam separadamente
Que por inúmeras
vezes exigem a separação total
Mas não acontece
Porque somos
corpo e alma
Minha cela está
aberta
A tranca era de
dentro
Valeu-nos as
experiências trocadas
De maneira como
se separados fôssemos
Hoje o silêncio
foi possuidor de tudo
Esse mérito é
nosso
Despeço-me daqui
Mas não me
entristeço
Porque sei que
este silêncio inquietante
É o sinal de que
ainda fazemos valer a pena
Entre
consciência, alma e corpo...
Pássaro só é
livre quando voa
Bons céus para nós!
Bons céus para nós!
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Crer e pensar para não se alienar - por Gilson Rocha
É com satisfação que apresento e publico aqui, em "Escritos em Tempos", um texto de Gilson Rocha, amigo e também colega do curso de Teologia. É um pensamento intrigante, questionador, portanto nada convencional e que contrapõe muito do que nos foi ensinado, repassado ou imposto de forma não intencional. Vale a pena a leitura. Ailton Domingues de Oliveira
Vivemos
num mundo da lógica, cerceados pelo acaso. Ando pelas ruas, e percebo a
maravilha da criação. De uma pequenina flor que nasce na calçada ao complexo
funcionamento do cérebro humano, que processa simultaneamente uma quantidade
incrível de informações, que reconhece todas as cores e objetos que vê, que
assimila a temperatura a sua volta, que escuta os sons ao seu redor... Torna-se
evidente que crer na existência de um Ser Supremo - autor da ordem natural -
não é uma questão de lógica, é um fato. Sim! Deus existe!
Ao
mesmo tempo, observo as ações humanas - o descaso, a miséria, a sede por poder
e a ganância -, fechados em sua individualidade, e me pergunto se este Ser
Divino está conosco e nos acompanha em nossos atos. Nesse ponto, o
questionamento e a falta da razão me ensurdecem. Como pode Deus, que é
onipotente, onipresente e onisciente permitir que um filho venha a este mundo e
morra por falta de um pedaço de pão? Ou que aconteça uma catástrofe de qualquer
ordem que destrua a vida de centenas de famílias? Ou que exista tanta violência
contra indefesos e fragilizados na sociedade em que vivemos?
Existe
uma justificativa muito plausível que trata de um diálogo sobre a existência de
Deus numa barbearia. O personagem descrente aponta que existem pessoas com o
cabelo grande e barba mal tratada. Este fato, pela lógica, sustentaria a tese
de que não existe o profissional. O barbeiro rebate dizendo que são as pessoas
que não o procuram. A premissa é aplicada a Deus, que também existe; o problema
é que as pessoas não o procuram. Mas isso traz um problema crucial quando
inclui uma condição para o amor divino, e ao mesmo tempo não justifica que os
bons e fiéis aos ensinamentos divinos também sofram com injustiças
generalizadas.
Nesse
ponto, a tese do livro arbítrio me parece o conceito exato que embasa o meu
questionamento. Mas, ao mesmo tempo em que resolve algumas questões, levanta
outras piores e mais ameaçadoras para a estrutura hierárquica e espiritual. Uma
delas é: Se Deus não intervém em nossa realidade (pelo respeito ao livre
arbítrio), qual seria o sentido de rezar ou pedir a intercessão divina? E se a
razão de não intervir seja o fato de ele não poder fazê-lo? Mais complicado
ainda, pois teríamos a ação de um elemento limitador do divino, ou seja, um SPP
- Ser Supremo Superior.
Gosto
de uma alegoria que compara a vida da “consciência” – ou alma, se preferir – a
ciclos de passagem. Ela considera cada estágio como um percurso, e da mesma
forma que passamos pelo ciclo da maternidade durante os nove meses da vida
intrauterina, estamos também passando pela vida que conhecemos. Sempre me
recordo do final do filme “MIB – homens de preto”, onde toda a galáxia que
conhecemos não passa de uma bolinha de gude nas mãos de uma criança
extraterrestre. Então, cada estágio tem suas peculiaridades e sua finitude.
Mesmo que quiséssemos voltar à barriga materna, não sobreviveríamos àquelas
condições, fazendo dele um estágio já percorrido que não tem volta. Quando
nosso corpo já não mais aguentar, teremos iniciado uma nova jornada, e uma certeza
é válida: será totalmente diferente do que conhecemos e até imaginamos, mas
mesmo assim, será um novo estágio, e a premissa ainda é válida: não há retorno.
Pensando
agora a partir da estrutura eclesial, percebo que a justiça - pelo seu caráter
regulatório -, não consegue por si ser um instrumento de controle e motivação
populacional, e nesse ponto, a(s) igreja(s) intervém com maior sucesso por
estabelecer regras (mandamentos) de um Ser Supremo – inegável – e julgamento
(pecado) aos infratores. Para imputar o castigo, justifica-se a criação da
figura do Diabo, com um embasamento muito forte e até cativante. Isso responde
qual o sentido da igreja enquanto instituição. Mas é perigoso pensar assim, já
que a figura de Jesus Cristo enquanto divindade pode ser considerada como um
pivô de manipulação em massa com objetivos políticos, em despeito da ação
interventora do Ser Divino. E partindo do princípio em que o cristianismo se
baseia, prefiro estar redondamente enganado em minhas teses hereges. A história,
por sua vez, nos conta que isso é perfeitamente plausível, ainda mais sabendo
que o campo da teologia não envolve certezas absolutas. É uma questão de fé!
Mas assim também é de mistério.
E
de repente, o que faz sentido é o contrário de tudo que me foi ensinado. E se o
mal é fruto de escolhas, isso faz da serpente do Éden o motivo da sabedoria que
temos hoje. E o mais interessante é perceber que a felicidade que tanto
buscamos se faz presente na ignorância, e muito raramente na sapiência!
Tudo
isso me leva para o lado de uma teologia de cunho realmente prático, que visa
socorrer a humanidade no estágio em que estamos. Mais pautado no “aqui agora”.
A humanidade precisa de socorro, e mais urgente que adoradores do invisível,
está o cunho social e vivencial. Tratar do humano enquanto humano, nas
necessidades básicas e ordinárias que a própria sociedade impõe. Esse modelo
libertário de teologia traz consigo os seus atos em favor de uma fé,
contrariamente às pautas, tratados e concílios, que antes de mais, parece-me
que complicam mais que simplificam. É mais do mesmo.
Gilson Rocha - aluno do 4º Período do Curso de Teologia - FCU
Classificação:
Catequese,
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Vida
terça-feira, 5 de maio de 2015
Vida virtual, morte real
O "já é hoje" se repete a todo momento de cada dia. É um tempo em que o tempo perpassa, descruza e enlaça a desmedida da vida, por vezes tão pouco vivida, que sem saber caminha insegura, infeliz, no sentido da morte que um dia certeiramente chegará. Viver é um dilema que requer a ingênua descompreensão das coisas. A recíproca deste viver que aflorada está em cada ser é que é o problema.
Os devaneios, cada vez mais loucos e ousados, além dos olhares de custódia da ordem dos politicamente sensatos, são caminhos não só de libertação mas de busca de sentido real. Sentido este que tem se confrontado com a virtualização das relações.
Estamos reféns da tecnologia. Já não sobrevivemos sem esse aparato. As relações se perfazem em meio a comunicações digitais. Não há limites para o alcance dessa era tecnológica. O próprio facebook, vitrine para as novelas diárias da vida alheia, perdeu um pouco para o famoso whatsapp, a mais nova menina dos olhos da população de todas as classes.
Sem muito mais explicações, nem tentativa de fazê-las, o que se percebe é um empobrecimento das relações nessa era de exagerada virtualização. Comunicar-se se faz por cliques. Pesquisas, estudos, reuniões, tudo está centralizado nesta dimensão virtual. Bibliotecas, já obsoletas para muitos e desconhecidas por grande parte das novas gerações, tendem a se transformar em museus.
Os comportamentos digitais, antes individualizados, tornaram-se coletivos e públicos. O tato, o olfato, a visão, o contato como um todo perdeu espaço para as mais novas figuras de comunicação disponíveis em cada nova invenção tecnológica. Essa necessidade de sintonia digital já impregnou no seio social. Poucos insurgentes, ou sobreviventes, de uma era mais real e palpável estão sentenciados a solidão ou então que se rendam à modernidade das comunicações em seus vários estilos.
Causa e efeito. Se, os efeitos desse excesso de tecnologia ou virtualização de tudo estão esfriando as formas de relação em sua essência, por outro lado, o caminho da desvirtualização tem causado o contrário: síndrome da abstinência. Abstinência virtual!
Vida cíclica. Se, o fim de tudo é voltar ao começo, pois o novo está em redescobrir o que deixou de se viver, aprender e conhecer, então que seja logo. Este emaranhado de fios, arranha-céus, estão nos fazendo tropeçar nos obstáculos tridimensionais já não mais invisíveis. As pessoas, amorfas, de tão conectadas em seus aparelhos modernos caminham feito zumbis para não perderem a conexão com o mundo. Para estes só falta conhecer a vida e vivê-la pelo menos um pouquinho antes que o tempo desvirtualize-se de sua vida. Há um grande grande risco para muitos dessa nova geração que o primeiro contato com uma flor seja apenas no dia de seu velório. Assim caminha a humanidade.
Já é hoje... mais uma vez, é hoje!
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