terça-feira, 5 de julho de 2016

No bater das asas


No caminho que me deram, desandei
Nas regras que me impuseram, burlei
Transgredi o desejo alheio
Em busca de meus anseios
Não me importo o que dizem agora
Sigo desatando o nó que me ancora
Triste lamentar das águas correntes
Que me lavam e me levam pra frente
Rebuscada dança do passarinho
Que ousou voar de seu ninho
Descobriu o mundo em seu recanto
Desbravou o céu e cantou seu canto
Encontrou assim a paz tão sonhada
No bater das asas em sua nova estrada

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O papel da eclésia


"O plano divino da salvação parece dar-se antes mesmo do evento epifânico no tocante à encarnação. Desse modo é evidente que tal fato revela o ponto fulcral para a continuação da "obra começada" na humanidade, feita pela desobediência dos primeiros pais. Entretanto, a encarnação do verbo inaugura um tempo novo que impulsiona o surgimento da eclésia enquanto continuadora do projeto divino por intermédio da graça que pressupõe a transformação do gênero humano."

À igreja de Cristo compete a missão de continuar o projeto divino de salvação. Ela deve possibilitar a transformação do gênero humano para que cada ser em si alcance a graça que lhe é devidamente merecida. Uma vez que a salvação deve estar ao alcance de todos, conforme o mérito por suas ações, a eclésia não deve ser empecilho nem impor pesados fardos ou rigor exagerado às pessoas com a intenção de mantê-las sob sua custódia através da doutrinação e do medo da condenação eterna. Se ela foi gestada para ser continuadora da obra nada mais justo que manter o rigor conforme a vida de Jesus que foi regada de amor e misericórdia.

A encarnação do verbo quebra paradigmas de um tempo estagnado pelas leis políticas, sociais, morais e, principalmente, religiosas. Ela é uma ruptura que ocorreu nesse entremeio, entre o velho e o novo. Essa mesma ruptura, esse rasgar de cortinas, foi acontecendo no íntimo das pessoas que, primeiramente estiveram próximas do Verbo, um seleto número que foi o pioneiro na continuidade do plano salvífico e responsável pela estruturação inicial da eclésia.

Entre a encarnação do Verbo e o surgimento da eclésia existe um tempo que foi o propulsor motivacional para a continuação da "obra começada". A atuação do Verbo encarnado no mundo enquanto filho amado de Deus, irmão dos homens e, principalmente, a voz que ressoa no deserto contra os algozes da vida, foi o fator fundamental para a conversão e adesão das pessoas ao projeto de salvação e sua continuação, a eclésia.

Com o passar do tempo, a continuidade da obra, tendo objetivo principal a salvação para todos, foi-se desconfigurando. A individualidade do ser humano não foi levada em conta, ao contrário, as normas nivelaram a todos e se engessaram desde o início da organização eclesial. A salvação virou produto que se adquire mediante os cumprimentos das regras estabelecidas. Regras essas que foram feitas para uma porção apenas, não para todos, uma vez que havia muitos excluídos que já estavam condenados por sua condição social. A fé propriamente dita não era levada em conta.

A partir do ponto fundamental, que é a encarnação do Verbo, o divisor dos tempos entre o velho e o novo, dá-se início a uma nova possibilidade de vida. A esperança na justiça divina que, pode atuar diretamente no gênero humano, passa a ser enxergada, sentida e trabalhada na individualidade e também na vida em comunidade. A eclésia se organiza e acerta mas também se perde e comete erros com a justificativa de que exerce o seu divino papel, a ela incumbida por Deus no projeto que deveria ser de salvação e não de condenação. A história nos revela capítulos de martírio e terror pintados com o sangue de inocentes. 

Na contramão da conveniência eclesial, ao longo dessa história de derrotas e vitórias, surgem grandes nomes que entendem o sentido real do plano de salvação e travam verdadeiras batalhas contra o poder institucionalizado, que em nossa atualidade essa luta ainda acontece nos bastidores e nas comunidades. 

Enfim, mais de dois mil anos se passaram e muitos apedrejamentos, chicotadas e crucificações são sentenciadas de forma velada, através de palavras, atos e omissões, aos considerados pecadores e subversivos pelos defensores da doutrina, esta que deveria trazer para perto ao invés de condenar. Sendo assim, considera-se muito que o atual detentor da cadeira de Pedro, papa Francisco, esteja fazendo um trabalho dignamente próximo e coerente com a missão verdadeira a qual a eclésia foi constituída: "a continuação do plano salvífico por intermédio da graça divina que transforma o gênero humano."


AVALIAÇÃO DE TEMAS FUNDAMENTAIS
PROFº MARCIO FERNANDES
6º PERÍODO DE TEOLOGIA - FCU
24/06/16

As bruxas em Lótina


As anomalias terrenas ressurgem 
Para o além dos pensamentos
E brotam na realidade de cada dia 
Elas reaquecem antigos mitos e medos
E fortalecem a incontrolável dimensão espiritual
Ora para o bem, ora para o mal
Cada ser dessa terra de guerreiros e forasteiros
Damas e prostitutas, anjos e demônios
Culpados e inocentes, alienados e subversivos
Carrega em si o receio, o ócio
A inocência e a culpa
Por ter alimentado incessantemente seus monstros 
Seus fantasmas e as bruxas em Lótina
Estas que tomam formas humanas
Aparentemente perfeitas, insanamente reais
Popularmente bruxas
Que dominam as esferas sentimentais
Devassam o campo do coração
E o transforma em deserto árido
Terra de ninguém, habitada por zumbis
Depois das banidas bruxas da inquisição
Que foram culpadas sem comprovação
Eis que a atmosfera de Lótina
Se insurge contra todos e contra ninguém
Uma vez que elas estão em outra dimensão...

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Relatos da infância: dia de chuva



O dia está frio. Chuvoso. O toque final do sino avisa que é hora de ir embora. Material recolhido na mochila. Sigo rumo à saída principal. É preciso passar pelo pátio coberto para não se molhar. A chuva está forte. Coloco o capuz da jaqueta de nailon sobre a cabeça.

No último espaço coberto antes do portão aguardo amedrontado alguém me buscar. Deveria ser meu pai a me esperar. Todos os alunos se foram. Meu pai não estava. Minha única companhia era o medo incomensurável de ficar trancado ali.

Devagar sob a chuva fui me dirigindo até o portão. Olhei para todos os lados e nada via. Atravessei a rua. Nesse momento a chuva já lavava meu rosto das lágrimas. O resto do corpo se esfriava com as roupas encharcadas. Parei debaixo de uma árvore sem hesitar sobre os riscos de se abrigar ali naquela chuva. O medo de permanecer trancado na escola era maior do que o de raios num dia de temporal.

Um carro desconhecido para e um senhor vai até mim. Oferece-me ajuda para me levar em casa. Eu nem sabia onde morava ao certo. Aceitei o convite e entrei em seu carro. As lágrimas já haviam cessado. Ele busca seu filho na escola também. Tal como meu pai deveria ter feito. Desprotegido e abandonado, essa era a sensação. Aguardei-o.

Aquele senhor retorna com seu filho e para minha surpresa meu pai também o acompanha. Percebi que meu pai estava me procurando na escola. Eles devem ter se encontrado e conversado. Acompanhei meu pai até o carro dele. Meu tio também estava lá. O clima não estava dos melhores. Percebi pelas caras bravas. Fomos, enfim, para casa.

Relatar uma história do passado pode ser interessante. Tratar o fato e entendê-lo é melhor. É libertar-se. O medo do abandono na escola foi algo que persistiu durante muito tempo. Dissipou-se com o crescimento e a autonomia. Talvez o medo tenha se extinto ou se transformado, em insegurança, por exemplo. Com a maturidade conseguimos resolver certas questões, mas sempre outras novas surgirão.

Não me lembro de como foi a recepção em casa ao ver minha mãe. Com flashs desse desfecho, parece que consigo ver meu pai fazendo o relatório do ocorrido à ela, que certamente, já devia saber do meu medo...

Desembarque em Lótina


No irrestrito mito que precede o tempo
No perturbador imaginário que antecipa o ato
No esperado sonho que antecede o fato
No sonhado plano que aprimora o real
No sagrado solo que se deita ao léo
No profano mundo que desnuda o véu
Na estúpida vida que precede a morte

Eis o desembarque em Lótina
Onde a estrela foi brilhar à espera
De outros tempos
Outras vidas
Quimeras

O selo preciso em cada escrita
Vai deixando rastros por onde pisa
Enobrecido em suas escolhas
Exaltando rimas e colhendo flores
Deixando para trás o seu tormento
Vivendo o agora em seu momento
Desposando a vida em legítimo dolo
Revirando a mesa e quebrando protocolo
Segue rasgando as roupas e caminhando
Vai se despindo do mundo e se entregando
Colorindo o cinzento passado 
E reavivando seu coração gelado

Eis a distante terra de Lótina
O eterno lar
Sepulcro de silêncio
Pensamento 
Poesia