quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Trapos e passos

Caminho por entre as cruzes no infinito de um silêncio sepulcral 
Um deserto eternizado na memória que foi de flores e de amores
Em cada passo me despeço da vida que um dia foi-se
A me encontrar em outros passos, outros braços talvez
E na desesperança que invade os dias sem sol, sem céu
Renasce no peito ardente uma chama irrigada pelo pranto
Na solidão, que em minh'alma grita, inquietante, delirante
Escalo o topo mais alto de meu ser transpondo medos e limites
A canção que agora ensaia em tons de emoção, sem razão
As notas reverberam na memória em um gesto de amor
O que se escreveu, eternizou-se em utopia, na travessia
Meu herói foi um vilão que aniquilou meus sonhos
Minhas feridas calaram-se no caminhar sob a ingênua lua, tão nua
E as chuvas lavaram minha honra na labuta com suor e dor
Na plenitude desses dias desfiz com dolo os meus trapos e refiz os passos
E do que me faltou na vida, na guerra ou no amor
Ela mesma deu-me a chance de plantar uma nova flor...

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Meu silêncio que se fez restrito

Clara lua incendeia
Meu silêncio que se fez restrito
Sob a descortinada essência
Destorpecida de amarras 
Entrelaçado em vaidosos devaneios
E protegido dos atos alheios

À meia luz eu danço, penso
Deixo no vácuo meu cansaço
Uma trilha irrigada de suor 
Dançante alma que balança
Entre ritmos desvairados
Entre loucos e alucinados

Abro a janela e vislumbro
É partida?
Ao som de um adeus...
É chegada?
Ao sorriso tão bonito
Meu silêncio que se fez restrito

Na paisagem que se disforma 
Ouço a marcha que se firma
Entre inéditos e imediatos
Minha alma se derrama em vermelho
Em tons de intensa paixão
Abro a janela e arremesso o coração...

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Retórica: "E pra que vale o nada?"

E pra que serve a labuta
Enquanto grande legado
Senão pra ensinar a quem chegar?
E pra que vale a luta
Senão pra superar o fardo
Com fé e sempre a sonhar?

E pra que serve o mundo
Palco de derrotas e vitórias
Senão pro corpo sobreviver e vencer?
E pra que vale mergulhar no profundo
A ressurgir das cinzas à glória
Senão pra alma amadurecer?

E pra que serve a vida
Tão intensa, tão menina
Senão pra viver o amor?
E pra que vale a partida
Tão eloquente e traquina
Carregando o sonho e deixando a dor?

E pra que serve tudo
Se nas maiores batalhas históricas
Foi do nada que a guerra trouxe a dor?
E pra que vale o nada
Senão pra mostrar a retórica
Que do nada tudo se faz com amor?

terça-feira, 16 de agosto de 2016

E de que vale tudo?

E de que vale a labuta
Pela insana sobrevivência
Se nada foi como contaram?
E pra que serve tanta luta
Pra manter as aparências
Se nada foi como escreveram?

E de que vale o mundo
Afundado em almas apodrecidas
Da espécie mais pobre de ser?
E pra que mergulhar no profundo
Se é a superficialidade da vida
Que impõe o matar ou morrer?

E de que vale a vida
Se é a morte quem espera
Pra saciar a divina vaidade?
E pra que tanta partida
Se viver é uma quimera
A sonhar com a eternidade?

E de que vale tudo
Se na real não somos nada
Pois morremos ao nascer?
E pra que tanto escudo
Que protege a hipocrisia velada
Enquanto a massa apenas luta pra sobreviver?

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Fuga para Lótina

Raptei-te de teu cárcere
E fugi contigo pelas sombras
Na calada noite sem lua
Perdi vidas pela tua
Mas devolvi-lhe a liberdade
De ti roubada sem ser vista
Atravessei mundos ao teu lado
Perdi guerras na penumbra
Lavei a honra com meu sangue
Batizei a terra com suor
Molhei-te a face com as lágrimas
Viajei contigo por mil reinos
Atravessei de peito aberto ao tempo
As paredes frias das minhas prisões
Elevei nossas almas em outra dimensão
E cheguei contigo no coração
Pelas entrelinhas da poesia
Que nos conduziram para a eternidade
Na sagrada terra da paixão
Lótina...