domingo, 14 de março de 2021

Nossas raízes, histórias e memórias



Hoje fui surpreendido com algumas fotos enviadas pela esposa do meu primo Carmelino, a Otília. O pai dele, tio Carmo, falecido ano passado, é irmão do meu avô materno Joaquim, também já falecido em 1997. 

Essas fotos, por mais que eu não conheça o lugar, trouxeram-me lembranças e uma saudade da infância e dos meus avós. De forma inexplicável sinto-me parte desse lugar. Uma conexão que não cabe em palavras. 

A simplicidade, a casinha ainda em pé, que remete à infância do meu avô e seus irmãos, em Piranguçu, Minas Gerais. Tudo transcende o olhar. Tudo é de uma beleza ímpar, carregada de humildade, sabedoria, respeito, honra, orgulho e amor.

Nessa casinha habitaram meus bisavôs Sebastião Rosa e Anna Rita Vitalina. As poucas informações que tinha a respeito deles era o que minha avó Iolanda contava. Meu avô Joaquim, um homem muito reservado, quase não falava do tempo que morou ali. 

Em cada foto fico recriando imagens em meu pensamento, de rodas de conversa ao redor de uma mesa simples, brincadeiras num terreiro de terra cercada de muito verde. Tento ultrapassar os mundos, a distância, e observar de longe tudo o que de certa forma faz parte do meu universo.

Não há como descrever a sensação de felicidade ao ver paisagens tão lindas e tão puras. Ouvindo o relato desses meus primos, Carmelino e Otília, a emoção toma conta... É como se eu tivesse visitado ali também, esse lugar que para nós tornou-se um local sagrado da família Rosa.

Não almejo muita coisa mas ainda quero conhecer de perto essa casa, além da famosa roseira, com mais de cem anos, que foi plantada pelos meus bisavôs Sebastião e Anna, dentre outras plantas que resistiram ao tempo e estão lá fazendo parte da nossa história e da nossa memória. 

Isso pode não ter muita importância aos olhos de muitos, mas aqui dentro tem um sentido especial, um significado essencial: família, raízes, memórias, sabedoria, saudades...


 









 

No palco da vida, ensaios reais


No palco da vida, 

abrindo e fechando 

as cortinas diariamente

sigo encenando o dia da vitória

que será seguido 

de aplausos e lágrimas

estas que lavarão a honra, 

levarão a tristeza

e elevarão a alma

revigorando a vida,

curando as dores

revitalizando o amor...

 

No palco da vida

entre rios e montanhas

sigo na travessia

vivenciando cada passo

ora me sentindo sem forças

ora encontrando conforto

nos olhos alheios 

que refletem o amor

rumo à outra margem

rumo ao cume

apreciando as paisagens

suportando os quedas, 

as dores, as fraquezas

as feridas...

 

No palco da vida

por vezes o cansaço

se equipara à vontade de vencer

e noutras vezes me despeço

como se não fosse retornar

para a batalha que será última

entre o corpo e a alma

entre o medo e a coragem

a esperança é o que se sobrepõe

no entardecer de cada espetáculo

e quando a voz perde o tom

quando o único eco 

é ressoado no silêncio da dor

nesse momento olho ao redor

e me deparo com um mar de amigos

que num canto em coro

fazem o coração novamente

bater em compasso

 

No palco da vida

que não permite ensaios

cada ato é real

mesmo diante da surrealidade dos fatos

nada é imaginário

nem a dor

muito menos o amor

não há o que superar

a não ser o tempo e suas angústias

suas esperas e suas mortes

morrer deveria ser apenas

única e verdadeira vez

porque morrer todo dia um pouco

é desumano, é injusto

mas até o último suspiro

até a última gota de sangue

que correndo pelas veias

ou escorrendo para fora do corpo

enquanto houver vida

haverá luta, suor e lágrimas

porque o amor,

ah! o amor vale a pena


sexta-feira, 12 de março de 2021

Preso por dentro e por fora



Preso nesse loop quase interminável
Ora girando por dentro, ora por fora
Sigo sangrando em silêncio
Em minha morada última
Que talvez possa ser
Andando e construindo sonhos
Voando e reconstruindo meu alicerce
Navegando e refazendo a eterna travessia
Num horizonte em que meus olhos contemplam
O tempo que condena os dias

Meu quarto, meu calabouço
Meu silêncio, esperança inquietante,
Santo inquisidor que fere minha alma
Sobrevivo pela necessidade 
De um novo e vitorioso amanhã
Em que o peso do ar seja leve
E então as páginas tristes sejam descartadas
Nesse mesmo tempo que agora jaz no passado
O momento é uma espessa corrente a ser quebrada
E a estrada se abrirá em flores e amor

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

"E qual é o seu tipo de família?"


"... E qual é o seu tipo de família?" Do tipo UNIDA!

Família é um negócio engraçado, uma coisa esquisita, repleto de gente que pensa diferente. Ora diverge no geral, ora nos detalhes. Discute, briga, mas no final, na hora H, diante de cada batalha, torna-se um verdadeiro forte, um arsenal de estímulos e pensamentos positivos, uma máquina de guerra pra defender a sua honra e o seu legado. 

Essa é apenas uma parte da família... da minha família. Fugimos do padrão montado pela sociedade, principalmente da sociedade religiosa. E mesmo infringindo tais regras, posso dizer que desse jeito, desse modo, encontramos a nossa forma de conviver em harmonia, e assim sermos felizes em nosso meio. 

 

Da direita para a esquerda: minha mãe Claudete, meu filho Felipe, eu, meu pai Derci, meu irmão Gabriel e sua mãe Sueli, a esposa do meu pai. Há quem conteste ou questione tal façanha. "Como podem?" Simplesmente podemos e vivemos. E é isso o que importa.


A outra parte da família que tem sido braços, pernas, olhos e ouvidos: minha irmã Cinthia, meu filho Felipe, minha mãe Claudete, Henrique meu sobrinho, eu, minhas sobrinhas Manuella e Lara e Lucas meu cunhado.

Nossa origem é simples. Meus avós paternos e maternos eram pessoas da roça que migraram para a cidade. Humildes, respeitosos, sempre zelaram pelo nome. Sabiam que a honra e a dignidade estavam acima de qualquer coisa. E isso sempre foi algo passado de pais para filhos. Da mesma forma, sempre encaminhei tais direcionamentos ao meu filho mais velho. Espero que, da mesma forma consiga fazer para com meu pequeno.

Essa viagem foi no mínimo libertadora. Por vezes carregamos fardos desnecessários em nossa jornada. Mágoas de situações que não caberiam palavras nem explicações. Situações que fugiram totalmente do controle e que só o tempo para apaziguar o coração, sem a exigência de uma explicação. A resposta sempre vem na ordem natural do tempo certo.

A maturidade nos permitiu entender e compreender que, numa família, entre altos e baixos, alegrias e decepções, a única coisa que não pode e não deve ser prejudicada é a união. E isso nós entendemos nesse processo do tempo. 

Ela, a maturidade, também nos permitiu quebrar protocolos de distanciamentos gerados ao longo desse mesmo tempo. Dentre todos os momentos que passamos juntos nesse final de semana, ressalto o do diálogo e o da despedida. Determinados assuntos nos tiram do chão, nos jogam para além de nossa capacidade de compreensão e nos largam em queda livre com a realidade. De repente, nos vemos sem horizontes, e até sem esperança... 

Mas, como eu disse, família é um negócio também estranho, porque é nela que recomeçamos a nos reerguer das quedas. Mesmo sem poder mudar o cenário à nossa volta, é ela que continua nos amparando na dura caminhada diária. Pois, se sua família não estiver em sintonia com a necessidade, ninguém mais estará. 

Ainda sobre a maturidade, que vem chegando para todos no tempo certo de cada um, que nos permite olhar o passado, reconhecer o exageros e desentendimentos e, assim nos possibilita orgulharmos do que nos tornamos e do que aprendemos a respeitar, hoje é uma realidade a ser celebrada. A despedida aconteceu nesse tom... É esse aprendizado que nos alicerça no presente. E nesse momento, mesmo diante dos obstáculos, celebramos a nossa vida em família, a união, a esperança, a confiança mútua refletida no olhar de cada um. Mesmo que ainda existam divergências de ideias e pensamentos em nosso meio, se tem algo que nos une e fortalece é a dificuldade. Somos fortes na transparência, na honestidade, no caráter e por isso honramos o nosso nome, a nossa história e nosso sangue.

O diálogo nos reaproxima de tal forma, numa intimidade única que dispensa palavras e rodeios e nos coloca cara a cara com o que há de mais íntegro em cada um de nós. E nesse momento de surpresas, superação, dor e fé, nossos olhos se cruzam marejados de indignação com o que é cruel e, infelizmente, só nos resta esperar lutando. Já a despedida, num tom de profunda falta de palavras, nos deixa apenas com a linguagem do corpo. E, corpo e alma, só pedem aquele abraço acalentador regado à lágrimas e saudades.

Foi assim, meu pai, que segurando suas mãos e suas mãos apertando as minhas, alternando com um forte e demorado abraço, entre lágrimas e soluços, que mais uma vez reencontrei-me como filho, como pai e como um homem orgulhoso de suas raízes. Apesar de toda angústia do momento, a energia positiva foi captada por nossos corações. Em orações silenciosas e olhares profundos, nos despedimos mais uma vez... A distância é apenas geográfica. E cada reencontro nos permite reconhecer o quanto somos imperfeitos, o quanto nos precisamos e o quanto aprendemos uns com os outros. 

Trouxe comigo todo o seu apoio. E, a sua confiança demonstrada no olhar, foi o que me preencheu de força e coragem. Deixo minha eterna gratidão, por ser tão aberto, compreensivo, amoroso e acolhedor, não apenas comigo, mas para com meus meninos, os seus netos, principalmente. E estendo meus agradecimentos à Sueli e ao Gabriel pela acolhida, pelo carinho e respeito. Em breve celebraremos a vitória e a vida renascida das cinzas. Esse deserto de lágrimas não é eterno. E são com essas lágrimas que lavaremos nossa alma... 









sábado, 23 de janeiro de 2021

Sob o tempo, tempestades e calmarias



Sobre o tempo que precedeu o olhar entre almas
Na trilha dos sentimentos permaneciam dessentidos 
Entre prosas e versos, canções e emoções, dia após dia
Um sólido e improvável alicerce de amor se erguia

Sobre o tempo que desnudou além do olhar
Seguia-se um ritmo próprio, eloquente e ousado
Entre a emoção e a razão, a esperança e a fé
Um abraço, um tato, um descompasso, um café

Sobre o tempo que brilhou em tantas cores
Em papéis, tecidos, suores e gemidos
As cem razões para acreditar e pintar
Nunca antes houve algo que valesse tanto a pena lutar

Sobre o tempo que ressoou em acordes de violão
Reverberou por entre a areia do tempo seguido
Se pudesse cantaria cada nota no mesmo tom
Sem aumentar nem diminuir a dança nem o som

Sobre o tempo o cheiro do entrelace dos corpos
Sobre a simplicidade das cores e das almas
Percorria seu rastro pela terra, pelo mar, pelo ar
Num sussurro, o céu era o limite a sonhar

Sobre o tempo viajamos porteira adentro
Sem regras, nem limites, nem porem 
O único ponto era o da saudade permanecida
O tempo para nós era a continuidade de outras vidas

Cada segundo do meu tempo, 
O relógio teima em correr contra
Inteiro, porém dividido entre nossos mundos
Me agarro no que há de mais puro e profundo

Cada nota que meu violão toca
Já não ressoa nem vibra, só chora
Espera ansiosa por seu abraço
Pra tirar a dor, a saudade e o cansaço

Razões para crer nunca faltaram
Cada olhar foi para além das palavras
A gota do perfume em prosas e versos
Cores, sabores, a magia do universo

Sob o tempo, estamos nós
Entre tempestades e calmarias
Sobre o tempo, sobre nós
Dor de saudade, prosas e alegrias

Sob o tempo, o caminho se faz
De um jeito que fingimos ser normal
Pode o tempo demorar a passar
Mas nunca será um ponto final...