terça-feira, 6 de abril de 2021

Dia 100



O tempo me surra com longos dias
e intermináveis noites
Uma dor que dilacera o viver
e retira as forças 
Minha única oração
é para que Deus
acabe logo com isso
Ou me deixe partir

Ventos e chuvas
sol e frio
o silêncio me dói
o barulho me desestabiliza
vazio sem fim

Eu, 
que sempre busquei o caminho das compreensões
Do que era "bom e justo",
sou incompreendido e mal avaliado
por instituições que tem a obrigação
de serem justas e imparciais
péssimos profissionais
pessoas desumanas, 
desalmadas

Eu, 
que sempre mergulhei nas profundezas do pensamento
e emergia escrevendo sobre esperança e vidas,
porquês e talvez, fé e poesia,
sou desonrado por uma pessoa ardilosa
E que, não conseguindo ter o meu amor,
quis apagar a minha alma
e roubar a minha vida

Já nem sei se estou vivo, esperando a morte
Ou se morri e estou vendo um reprise
de minhas dores

Eu, 
que nunca gostei do descarte e do desperdício,
que enxergava algo novo
diante daquilo que estava jogado
reinventava, recriava, redecorava, 
dava cor e vida,
de repente, me sinto o próprio descarte
Não há dias claros...
Não há dias sem lágrimas...



Poder X Dever


Um dia eu li uma frase, por trás das linhas inimigas, tipo essas de efeito e o final dela era assim: "Se tem uma coisa que a 'pessoa' pode, é poder".

É até legal gerar esse efeito pseudo revolucionário e empoderado mas tá aí algo que fica a desejar.

Não é simplesmente falar do poder enquanto um substantivo, tampouco de suas variantes verbais. 

E mais, isso não se aplica a um gênero, nem a uma minoria. Ao contrário.

Todos podem "poder". Todos devem "poder". Todos merecem ter o privilégio de revolucionar sua vida e "poder". 

Mas, antes mesmo dessa coisa que "a pessoa pode, é poder", existe o dever.

Todos, sem exceção, devem por bem serem justas, honestas, idôneas. 

Não podem simplesmente "querer poder" ou "poder poder", atravessando por cima de princípios básicos de ética e moral, burlando a Justiça e deturpando a vida alheia em benefício próprio.

Porque se tem uma coisa que o poder não pode é comprar ou manipular a verdade.

E quem se apega na falsa ideia de conseguir tudo a qualquer custo, não expressa o seu "poder", mas a imoralidade e a má fé em suas intenções. 

Antes do poder como um troféu, existe o dever como responsabilidade.

Para toda mentira, existe a verdade que triunfará.

Para todo mal existe um bem maior que o derrubará.

Para toda treva existe a luz.

Para a morte, a vida que se eterniza.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Ecos




Entre as ruínas de meus mundos

Escombros de um pós-guerra

Cenário de devastação

Um palco de silêncio e solidão

Nas prateleiras, meus livros 

Que ainda visitam meus pensamentos

E a poeira que o tempo acumulou

Sobre as imagens danificadas

De um passado de suor e de sangue

Todo o esforço não fora em vão

E todo o sangue pulsante

Foi a tinta necessária 

Talvez insuficiente

Para compor cada verso

 

Os ecos do silêncio 

Que explodem peito adentro

Se quebram feito ondas 

Em muralhas reconstruídas

Entre olhares, mãos e ombros

De quem nunca duvidou 

Da verdade única

Que o inimigo tentou sucumbir

 

Os ecos do tempo 

Que causaram desfeitos

Forjados por mãos e mente ardilosas

Levou tempo, roubou o meu tempo

Tentou intimidar

Atentou contra a vida

E até poderia tira-la 

Mas jamais conseguiria 

Uma gota de amor

Porque o amor vem da alma

E minha alma é livre

E o meu amor nunca foi seu

 

Os ecos da alma

Escondidos, encontrados, escolhidos

Neles, entre lágrimas e feridas

Refaço meu caminho, 

Reconstruo minha morada

Restauro meu alicerce 

Bato asas pela vida

Me armo de amor

E deixo cada vez mais distante

Aquilo que nunca amei

Entre o desumano e a injustiça

Recrio meu jardim

De amigos, de família, de fé

E toda a injusta dor 

Que um dia me quebrou

Me deixou mais humano

Fortalecendo o meu compromisso

Para com os meus

Esse é o meu cenário, o meu palco

O meu legado, de honra, dignidade

E um amor que não se destrói...

 



Entre o rio e o sertão



Entre o rio e o sertão 

A distância e o tempo

Destinos e travessias

Contos e utopias

 

Meu rio que desce sem fim

Sonha em cortar seu sertão

Te encontrar, namorar, dar vida

Uma história prometida

 

Seu sertão que ecoa o silêncio

Anseia por declarações apaixonadas

Trazidas pelos raios da lua

De um rio de alma nua

 

Meu rio que de tempos em tempos

Se enche e transborda o amor

Ou quase seca na dor da saudade

Anseia teu cheiro de terra que invade

 

Minhas águas compreendem tua sede

Seu calor conforta o meu leito

Nesse conto real entre rio e sertão

A lua testemunha o nosso coração

 

Entre o rio e o sertão

A lua ilumina nossa história

Meu rio que atravessou cidades

No seu sertão encontrou amor de verdade

 

Você, meu sertão e calmaria

Companhia certa e silenciosa 

Minha fonte de inspiração 

Em toda e qualquer estação

 

Entre águas que invadem

E terras que se molham

Nem mesmo o tempo impede

Esse amor que não se mede

 


domingo, 21 de março de 2021

Preces sob o tempo, sobre o rio, a Deus



Quando penso no tempo

No que já foi e no que há de vir

Sinto-me como um rio

Que passa por entre margens

Redescobrindo paisagens

Contornando obstáculos

Seguindo seu destino

Mesmo sem visualizar o caminho

Mas sabendo do fim

Reencontrando com o mar

Voltando para casa

Se o mar é Deus

Que minha casa seja o céu

E que lá, quando me achegar

Eu possa misturar-me com outras águas,

Almas antigas e queridas

Fartando-me de saudosos abraços

E de água, de lágrimas...

 

Quando penso no tempo

Olho pelo caminho das águas

Toda a travessia

Em noites enluaradas

Manhãs de sol

Bem como os dias sombrios

E as noites escaldantes

Momentos em que o rio

Quase agoniza 

Sem forças para prosseguir

E em algum momento

Do céu vem o retorno

Vem água, a chuva, a esperança

E os leitos se enchem

E tornam a vida ao seu redor

Menos sofrida, mais alegre

Mais viva

 

Quando penso no tempo

Olho para o horizonte

E vislumbro novos sonhos

Sonhos repletos de sentimentos

Esses que não cabem no peito

No leito

E transbordam para além de si

Para além da terra, da alma

E o maior de todos os sonhos

É o de reencontrar-me

Com outras águas de minha própria fonte

Este que ainda corre pequeno

Inocente, sereno...

 

Quando penso no tempo

Nesse tempo de agora

Por vezes, sem forças 

Nem coragem de prosseguir

Sigo também empurrado

Por outras águas, outras almas

Rios irmãos que correm comigo em paralelo

Ora se cruzando na travessia

E dando força na correnteza

Ou apenas sendo minha única força e certeza

Ora sendo conduzido pela memória e esperança

Para fortalecer as águas

Que nasceram de minhas entranhas

E então seguirei em paz, pelo amor

Em todas as estações

Celebrando o reencontro

Reencantando-me com as águas dos meus...