terça-feira, 6 de abril de 2021

A morte de cada dia



De todas as mortes 
A pior é a que se morre todo dia um pouquinho
De um jeito onde não lhe é permitido opção de escolha
Entre ficar e lutar ou partir sem avisar
Simplesmente lhe é imputado duros fardos
Que o fazem sangrar sem te ferir
Onde os olhos não veem mas o coração lateja
A alma implora pela libertação e pela vida...

Não há nada mais desumano que a falsa acusação
Onde a sentença lhe rouba os dias, as alegrias, a esperança, 
Para satisfazer um mero desejo de vingança
De quem nunca teve nem recebeu amor
Mas, apesar da dor que assola a alma
A sobrevivência se faz necessária
Até o final de cada dia e de cada noite
Para enfim viver ou morrer numa única vez...

(02/03/2021)

Dia 100



O tempo me surra com longos dias
e intermináveis noites
Uma dor que dilacera o viver
e retira as forças 
Minha única oração
é para que Deus
acabe logo com isso
Ou me deixe partir

Ventos e chuvas
sol e frio
o silêncio me dói
o barulho me desestabiliza
vazio sem fim

Eu, 
que sempre busquei o caminho das compreensões
Do que era "bom e justo",
sou incompreendido e mal avaliado
por instituições que tem a obrigação
de serem justas e imparciais
péssimos profissionais
pessoas desumanas, 
desalmadas

Eu, 
que sempre mergulhei nas profundezas do pensamento
e emergia escrevendo sobre esperança e vidas,
porquês e talvez, fé e poesia,
sou desonrado por uma pessoa ardilosa
E que, não conseguindo ter o meu amor,
quis apagar a minha alma
e roubar a minha vida

Já nem sei se estou vivo, esperando a morte
Ou se morri e estou vendo um reprise
de minhas dores

Eu, 
que nunca gostei do descarte e do desperdício,
que enxergava algo novo
diante daquilo que estava jogado
reinventava, recriava, redecorava, 
dava cor e vida,
de repente, me sinto o próprio descarte
Não há dias claros...
Não há dias sem lágrimas...



Poder X Dever


Um dia eu li uma frase, por trás das linhas inimigas, tipo essas de efeito e o final dela era assim: "Se tem uma coisa que a 'pessoa' pode, é poder".

É até legal gerar esse efeito pseudo revolucionário e empoderado mas tá aí algo que fica a desejar.

Não é simplesmente falar do poder enquanto um substantivo, tampouco de suas variantes verbais. 

E mais, isso não se aplica a um gênero, nem a uma minoria. Ao contrário.

Todos podem "poder". Todos devem "poder". Todos merecem ter o privilégio de revolucionar sua vida e "poder". 

Mas, antes mesmo dessa coisa que "a pessoa pode, é poder", existe o dever.

Todos, sem exceção, devem por bem serem justas, honestas, idôneas. 

Não podem simplesmente "querer poder" ou "poder poder", atravessando por cima de princípios básicos de ética e moral, burlando a Justiça e deturpando a vida alheia em benefício próprio.

Porque se tem uma coisa que o poder não pode é comprar ou manipular a verdade.

E quem se apega na falsa ideia de conseguir tudo a qualquer custo, não expressa o seu "poder", mas a imoralidade e a má fé em suas intenções. 

Antes do poder como um troféu, existe o dever como responsabilidade.

Para toda mentira, existe a verdade que triunfará.

Para todo mal existe um bem maior que o derrubará.

Para toda treva existe a luz.

Para a morte, a vida que se eterniza.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Ecos




Entre as ruínas de meus mundos

Escombros de um pós-guerra

Cenário de devastação

Um palco de silêncio e solidão

Nas prateleiras, meus livros 

Que ainda visitam meus pensamentos

E a poeira que o tempo acumulou

Sobre as imagens danificadas

De um passado de suor e de sangue

Todo o esforço não fora em vão

E todo o sangue pulsante

Foi a tinta necessária 

Talvez insuficiente

Para compor cada verso

 

Os ecos do silêncio 

Que explodem peito adentro

Se quebram feito ondas 

Em muralhas reconstruídas

Entre olhares, mãos e ombros

De quem nunca duvidou 

Da verdade única

Que o inimigo tentou sucumbir

 

Os ecos do tempo 

Que causaram desfeitos

Forjados por mãos e mente ardilosas

Levou tempo, roubou o meu tempo

Tentou intimidar

Atentou contra a vida

E até poderia tira-la 

Mas jamais conseguiria 

Uma gota de amor

Porque o amor vem da alma

E minha alma é livre

E o meu amor nunca foi seu

 

Os ecos da alma

Escondidos, encontrados, escolhidos

Neles, entre lágrimas e feridas

Refaço meu caminho, 

Reconstruo minha morada

Restauro meu alicerce 

Bato asas pela vida

Me armo de amor

E deixo cada vez mais distante

Aquilo que nunca amei

Entre o desumano e a injustiça

Recrio meu jardim

De amigos, de família, de fé

E toda a injusta dor 

Que um dia me quebrou

Me deixou mais humano

Fortalecendo o meu compromisso

Para com os meus

Esse é o meu cenário, o meu palco

O meu legado, de honra, dignidade

E um amor que não se destrói...

 



Entre o rio e o sertão



Entre o rio e o sertão 

A distância e o tempo

Destinos e travessias

Contos e utopias

 

Meu rio que desce sem fim

Sonha em cortar seu sertão

Te encontrar, namorar, dar vida

Uma história prometida

 

Seu sertão que ecoa o silêncio

Anseia por declarações apaixonadas

Trazidas pelos raios da lua

De um rio de alma nua

 

Meu rio que de tempos em tempos

Se enche e transborda o amor

Ou quase seca na dor da saudade

Anseia teu cheiro de terra que invade

 

Minhas águas compreendem tua sede

Seu calor conforta o meu leito

Nesse conto real entre rio e sertão

A lua testemunha o nosso coração

 

Entre o rio e o sertão

A lua ilumina nossa história

Meu rio que atravessou cidades

No seu sertão encontrou amor de verdade

 

Você, meu sertão e calmaria

Companhia certa e silenciosa 

Minha fonte de inspiração 

Em toda e qualquer estação

 

Entre águas que invadem

E terras que se molham

Nem mesmo o tempo impede

Esse amor que não se mede