sexta-feira, 24 de abril de 2015

Cartas para o calabouço - Parte VII




Liberdade...
Tanto tempo se faz no tempo
Tanto tempo se faz com tempo
Tanto tempo se perde no tempo
Tanto tempo se perde com tempo

Inimigo seu, caro meu amigo, és tu
O teu silêncio é supérfluo
Entrega-te ao vazio do não agir
E do não falar
Mas inquietante é o seu pensar
Barulhenta é o teu aquietar

A natureza na montanha
Lá, creio agora, talvez seja o seu destino
Quem sabe lá, não se perca em desatinos
Quem sabe no caminhar te encontres num menino
Aquele de alma pura e sonhador
Que tem de menos o medo e de mais o amor

Eis que a montanha é mística
Tem segredos que se revela a cada um
Tem encantos que se perfazem à pureza dos seus
Tem belezas que hipnotizam os mais brutos
Requer porém um tantinho de esforço
Sofrido e merecido esforço em lá se adentrar

A vitória, caro meu inimigo teu
Não é o topo alcançar
Talvez lá chegar seja a meta
Mas o que há de melhor e mais concreto
É a sua travessia
Com todas as estrepolias que nos geram alegrias

Sua insanidade ainda tem alguma razão
Realmente desconheço teu calabouço
Ou teu esconderijo de si mesmo
Concordo sobre seus piores algozes 
Pois estão aprisionados com você
Você os criou e os alimentou

Jamais nos perderemos
Mas, queira querer bem
Contemple a vida...




Cartas do calabouço - Parte VI



Meu inquisidor de nós dois
Quanto mais me entrego ao silêncio
Mais o barulho teima explodir em mim
E o estrago é grande

Não fiz escolha alguma
Ou, se fiz, não sei mais qual foi
Só sei que aqui estou
Resultado do que trilhei
Quando consigo, encontro a janela
E arrisco olhar por ela
Vejo verde, vejo azul
Ouço a água batendo na pedra
Ouço pássaro cantando
Então vislumbro a montanha distante
É lá que eu quero estar
Vejo então a esperança aproximar
É o passo ao horizonte
Um frescor de novos ares
Voltando a sonhar
Que eu não morra em utopia

Nunca pedi para ficar
Se queres partir
Que vá
Mas te peço
Não me esqueças
Ou mesmo que quisesse
Nossa história não permitiria
Corpo e alma
Razão e emoção
Foram feitos em conformidade
Tem horas que penso
Que o preso és tu
Desta vez, por fora

Tempo?!
O tempo é aniquilador
Fé?!
A fé é resposta pra desesperança
Ouses tu trocar de lugar
Viva o oposto de teus dias
Coloque-se onde estou
Hoje, simplesmente
Quero ousar não dizer nada

Em tempo ainda
Exijo respostas do tempo já vivido
E espero num tempo sofrido
Entender o futuro perseguido
Vivo numa fuga intensa da dor
Do tempo que ainda resta para entender
E livrar-me de meu algoz
É livrar-me deste calabouço
Aqui jazem e vigiam-me
Os meus piores inquisidores


terça-feira, 21 de abril de 2015

Grande Sertão: Brasil - parte I - Inversos



Na contramão da rodovia
Sigo caminhando a um destino
É o trajeto das máquinas que se opõe
Fios e tecnologias que atravessam
Despontam não sei aonde
E desembocam na casa de quem tem
Lá por cima ou por baixo
É desviado da mazela
Os marginais que peregrinam de cela em cela
Quanto mais vagueio em pensamentos e passos
Sinto o cheiro do restante virgem mato
Se misturando com a borracha 
Dos pneus queimada no asfalto
Sou caminheiro errante
Em busca de um sentido irrestrito
Filosofia e teologia se introduzem na vida
Sentidos sentido a cada paisagem
Poesia viva que revigora a utopia
Meu destino, pelo menos por hoje, é certeiro
Talvez, nessa estrada eu seja o derradeiro
Os marginais desta terra de ninguém
Estão abaixo do que possa parecer 
Muito além do que eu ainda vá perceber
Ali, aqui, acolá, da linha que margeia estão aquém
Ao longe vislumbro a montagem
São cabanas, mosaicos coloridos. contorcidos
Desprovidos de qualquer proteção
Erguidos para qualquer direção
A poeira que se levanta no passar do caminhão
O chão de terra batida
Tem cheiro de gente sofrida
Esse povo caminheiro
Que margeia a rodovia
Tem mais vida e poesia
Do que as cadeiras que esquentei
O Deus que os mais velhos entoam
Dá-lhes a esperança em cada amanhecer
Dá-lhes a sustança em cada anoitecer
Revigora o brilho de seus olhos
E os enobrece com o suor de suas labutas
Entre a cerca e a estrada
Lã estão esses migrantes
Gente simples de palavra cumprida e forte
Do lado de lá da cerca o gado do rico engorda
Na marginal os carros cortam o vento em velocidade
E quebram o silêncio com seus potentes barulhos
Ninguém se vira para olhar os aquém da margem
Entremeio a cerca e a rodovia
Cá estão os desbravadores doutores
Da vida vivida e sofrida como ninguém já viveu
Diante de tanta incerta esperança que ouvi
No meu certeiro regresso marginalizador
Só me pus a cantar:
"Como posso me calar?"


"O Sertão é o sozinho, 
É dentro da gente
Está em toda parte.
Deus e eu no Sertão."
(Guimarães Rosa - Victor e Léo)



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Esplendorosa



Esplendorosa lua que arde e inflama                    
Meus sonhos, teu cheiro, a alma                                         
Aguça meus pensamentos                                                     
Me arrasta aos sórdidos tormentos                                                        
É o perigo do novo, o calor                                                             
É o sentido, o risco, o amor                                                          
Desnuda-te da casca cruel                                               
Se cubra da brisa sob o céu                             
Tão forte e encantadora             
Tão bela e sedutora        
Percorres a galope do teu abrigo        
Afugentas de si o risco do perigo             
Entrelaça nossas mãos sem medo                      
Sou réu confesso de tua beleza em segredo                                
Na estrela que desponta no horizonte                                         
És chegada a hora de percorrer cada monte                                         
É o doce encontro do teu encanto ao luar                                               
Formosa e bela que não me canso de te olhar                                                          


"Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando. Eu falei muitas vezes como palhaço mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria." Charles Chapelin


quarta-feira, 15 de abril de 2015

Grande Sertão: Brasil - parte II - Prosas


Pensamentos, prosas e provérbios
Na contramão da imaginação
Minha arrumação teve de ser reajeitada
Era uma a minha intenção
Saber quantas casas ali tinham
E quantas famílias, quantas pessoas
Perspectivas, e situações
O pra quê de tanta investigação
Só fui entender nas prosas que ali travei
Que nada tinha mais valor
Que o calor de cada vida
Um borná, caderno, caneta e celular
A água na garrafa de usar nem lembrei
Procuro por alguém já conhecido
Não lembro o nome e então proseando eu sigo

"Pra que tu tá aqui?"

Digo que é um levantamento
E já embalo no proseamento
Querendo saber o que mais se precisa
Além de tudo de que se necessita

"Água e luz meu sinhô"

Responde o primeiro José
Cearense arretado
Sem pregas na língua
Personalidade honrada
Tem palavra certa
E uma fé em Deus
Que a todos abençoa
Minha pesquisa vai ficando de lado
Em cada história
Que o valente combatente 
Vai trazendo da memória

"Ah, meu sinhô, aqui a polícia visitava direto
Roubavam nos cafundó
E os home parava aqui só
Eu, já me enfezado, 
Um dia esbravejei e bem alto falei
Aqui mora homem digno e honrado
Tanto ladrão engravatado
E os ceis vem aqui na minha porta?
Depois disso, meu sinhô
Essa folia se acabô
Graças a Deus"


E as horas se passaram mas o tempo eu não vi
Seu José me dispensou
Quando logo se alembrou 
Que tinha um barraco a construir
Uma foto, seu José, pra eu guardar dessa visita
De braços abertos e sorridente
Braços fortes e honradez
Em meio a timidez sorriu contente
Meio sem rumo fui caminhando
Pra de volta da direção do meu mundo
Entre a via marginal e marginalizados
Encontrei a pessoa que procurava
Três crianças com febre
Mais ela e seu marido
Aguardando as roupas quarando no varal
Pra depois correr com os meninos pro hospital

"Não tem muita roupa
Tem que esperar secar"

Fui tocando mais adiante
E vi outro rosto conhecido
De outra missa que lá teve
Dona Francisca e seu marido, José
O segundo José, e três crianças
Que espreitavam numa piscina vazia
Fui tirando foto, com a licença devida
De tudo quanto é coisa que eu via
Na primeira tentativa seu José se recusou


"Pra quê tirar foto de um bicho feio feito eu?"

Deu alguns passos, colocou boné na cabeça
Pensou e se virou

"Então tira meu mestre
Se tu quer tirar, então tira essa foto"


Ficou um pouco distante de sua esposa
Mas sorriu e agradeceu 
Seu barraco precisando de telhas
Madeiras, tudo quanto é coisa de se imaginar
Fui sabendo de sua vida
Em cada provérbio que ele contava
E se esperançava quando se alembrava


"Quem sofreu foi nosso Senhor Jesus Cristo
Para salvar dos nossos pecados
Aqui o cabra tem que se avivê com o que tem
Tenho fé que logo mais
Noutra vez o mestre vai ter um lugar pra se assentá
Voltei pra Juazeiro e não tive ajuda lá
Vim pra cá porque aqui as pessoas ajudam
Nada me há de faltá
Tenho filhos de outro casamento
Que não querem saber de mim
Tive casas e tudo perdi
Pra bebida e a jogatina
Nessa vida só tive duas mulheres
Aos meus setenta e seis anos
Não sou um cabra mulherengo
Lá no trecho eu era conhecido 
Era o José Fogueteiro
Aqui, minha mulher não gosta mas eu falo
Sou o José Fodeteiro
Estou todo fudido meu mestre
Mas tenho fé que vou vencer"

Fui logo me despedindo 
Apertando aquela mão calejada
E percebendo aquela pele surrada
Aquele olhar que não se perde jamais
Quatro telhas era o necessário para seu José
Resguardar a família 
Pois seu barraco de agora
Quando chove, dentro molha


E nos passos de retorno pelo lado de baixo
Ao longe avisto uma mulher 
Suas roupas lavando agachada na marginal
Cadeiras amarelas e vermelhas ao seu redor
Era pros motoristas perceberem o sinal
Ali, naquele espaço tinha gente ocupada
Que desviem os doutores da estrada
Fui andando de volta
Com os provérbios dos meus mais novos teólogos
Fermentando em minha mente
Não dava pra continuar igual
Dali em diante, haveria de ser e fazer diferente
Meu almoço já em casa
Parecia descer quadrado
Eu precisava dar um jeito e lá voltar
Eu precisava com aquele seu José Fogueteiro
Mais uma vez prosear
E assim, mais tarde eu voltei
Lá estava ele deitado sobre um compensado de madeira
Sua cabeça recostada sobre um tijolo forrado 
Com um pano, o seu travesseiro
O barraco continuava o mesmo
As mesmas telhas estavam faltando
Não pude socorrê-lo naquele pedido
Dia de feriado, tudo fechado
Minha boca nada prometeu
Mas meu coração se comprometeu
E se eu não mais voltar
As prosas se perderão no ar
Mas minha alma nunca mais se aquietará
Diante de tudo isso
"Como posso me calar?"



"O Sertão é o sozinho, 
É dentro da gente
Está em toda parte.
Deus e eu no Sertão."
(Guimarães Rosa - Victor e Léo)