quarta-feira, 15 de abril de 2015

Grande Sertão: Brasil - parte III - Versus



Realidade versus ficção
Natureza versus tecnologia
Riqueza versus pobreza
Sabedoria versus insensatez
Franqueza versus hipocrisia
O mundo é um jogo de opostos
O avesso dos avessos
Côncavo e convexo
E no limiar entre céus e terra
Jaz o sertão
Seja lá, acolá ou no coração
Já dizia o grande poeta dos sertões
Guimarães Rosa
"O sertão está em toda parte
É dentro da gente"
E nessa desventura desprovida de almejo
Na sábia insensatez e vontade do benfazejo
Sigo o instinto matuto do agrado imediato
É necessário abrir novas picadas
Seja no asfalto ou no mato
No primeiro contato o olhar inocente
São crianças, sorrisos e esperança
São gente que pouca gente vê
Um casal de irmãos me esperam atentos
Eu, de não sei de onde oriundo
Caminhando rumo ao seu mundo

Mostrei-me amigo e de boa vontade
A confiança então foi verdade
Conheci seus nomes
Logo num chão acinzentado
Pela queima de lixos e objetos
A menina, a mais nova, com sua meia vassoura varria
Um caixote era uma mesa
Uma cadeira com cordas de naylon descartada ali
E um balde que era a suposta lixeira
Identifiquei o cenário e perguntei
Estão brincando de escola?
Toda tímida me respondeu com a cabeça que sim
E então ganhei um santinho
A imagem de uma santa, a mãe de Jesus

Seu irmão sobre a bicicleta ziguezagueava
Davam-se bem
Toda delicada a garotinha, já vaidosa
Tinha marcas de esmaltes em suas unhas dos pés
Apenas algumas
Era rosa
Noutro canto outras três crianças brincando
Numa piscina desusada e descartada
Sem água sob o chão
Posterior, com alguns copos de água e terra

A bola sobre a cerca
Vi como um sonho pendurado
Escondido, deturpado, roubado
Por quem?
Por todos nós que nos calamos
E os mantemos à margem
Marginalmente aquém da margem

Um telefone de tecnologia no meio da terra
Bonecas e cd's abeirando a cerca
Um caminhãozinho parado sob a barraca inacabada
Todo tipo de descarte
Que a santa hipocrisia chama de caridade
Ali se encrusta os recebidos em cores e amores
Pra saciar o ego dos doutores
Dando um paliativo pra tantas dores

Ainda me deparo sob a ponte
Com o nome de Jesus pintado na lateral
Deus no céu que olha
Deus na terra que faz
E alguém pintando o nome de Jesus
Como se olhando estivesse para esses amarginalizados 
Imagino que quem isso fez
Sequer olhou pro lado uma vez
E visitou o Jesus no rosto sofrido de cada assentado

Na prosa poética de um estimado meu doutor
Tamanha simplicidade e humildade
Vou saindo margeando meu caminho novamente
E com uma tamanha inquietança
Mas com vontade de fazer mudança 
Então, compadre meu, senhor José
A festa ainda há de ser do tamanho de seu merecimento
 De tudo que vivi nesse tempo de hoje
Em meio a inocência da infância
"Como posso me calar?"



"O Sertão é o sozinho, 
É dentro da gente
Está em toda parte.
Deus e eu no Sertão."

(Guimarães Rosa)





segunda-feira, 6 de abril de 2015

Cartas para o calabouço - Parte V



Tudo é um risco
Viver é um risco
Mas quem não vive corre o risco de morrer sem ter vivido
Paz e bem, meu caro infiel ingrato
Apesar de sua reclusão
Ainda mantem-se inalterado
Inquieto e pelo medo frustrado
Tenta abrigar-se na escuridão de tua cela
Fingindo não haver portas nem janelas
Acreditando encontrar aí a paz
Frente ao silêncio que teimas fazer
Podando-se simplesmente de tua vida
E deixando este avesso do bem lhe imperar

Espinhosa a tua escolha
Eu preferi a coerência da realidade
Não tanto sonhadora ou utópica
Mas, certamente, palpável e passiva de ser vivida
Tu tens te arrastado
Para além da compreensão
Tuas fontes tens aniquilado
Tuas estruturas abaladas
Suas sementes estirpadas
Teus ramos podados
E as raízes cortadas

Confesso, não poucas vezes, a vontade em te deixar
Na prisão de tuas escolhas
Onde tens as chaves de todas as trancas
Ainda assim, teimas em manter-se inerte
Caro algoz de tu mesmo
Veloz é o tempo quando se vive
Ontem mesmo éramos meninos livres
Hoje cá estamos na discorrência filosófica da vida
Buscando razões para as emoções
E encontrando emoções pelas razões
Onde está tua fé?

Não busco entender-te 
Apenas ouvir-te, e esperar-te
Que não tardes a sorrir aos céus
Pois, poderás chegar e encontrar um dia escuro
Ao som de marchas fúnebres
Vendo a morte alheia a lhe sorrir
Enterrando o que havia de melhor a lhe esperar
Lembre-se que para ter a tua tranquilidade da morte
Apaixone-se pela vida

Queres amar, não queres amar
Queres viver, queres se esconder
Queres e não queres a mesma coisa, sempre
E nesse sempre das coisas quistas 
Há de não tê-lo mais
Não quer pagar o preço
Exiges o quê de ti mesmo?
Hã?

Já ousou olhar o dia?
Quando foi este último encontro?
Já vislumbrou o encanto da lua?
Tentou brincar de contar estrelas?
Sob a luz do sol enxergou as cores?
Quando foi a última brisa sentida em tua face?
Escutou as notas cantadas pelos pássaros?
Eu mesmo lhe respondo: Não! 
E já faz muito tempo que jaz vivo em teu confinamento
Que tu chamas cela 
E eu digo que és um sepulcro

Amor, dor...
Então digas!
Realmente digas e sejas!
Sou mesmo teu amigo inquisidor
E assim prefiro por mais difícil seja 
Minhas palavras são verdades
Que rebatem tua atual incapacidade
De querer e não conseguir
Livrar-se das correntes que teimas carregar

Estancastes à toa a esperança
Não queres ousar a entrega
Preferes o sequestro de tua alma
O aprisionamento de teu coração
E a fuga de seus medos
A enfrentar a saga da vida
Com tudo o que há em seus compassos
Livra-te de teu algoz

Estarei por aqui, 
Ainda não sei quanto tempo mais

Teu amigo, inquisidor, porém amigo e fiel.

terça-feira, 31 de março de 2015

Cartas do calabouço - Parte IV




Jamais me entenderás amigo
O máximo que conseguirá
Uma leitura será
Dos meus devaneios escritos
Ainda assim, as entrelinhas
Não lhes serão reveladas

O tempo nos leva ao esquecimento
A memória se perdura na história
Ou vice-versa
Quero ao menos, permanecer na lembrança
Do amor que um dia tive
Ou que não soube tê-lo
Nem vivê-lo
Nem amá-lo
Nem esquecê-lo

Pergunto pro tempo: e agora?
Sinto sua resposta como vento
Pedindo para passar
Ou, sem pedir, vai passando
E já me perco nessa busca sem fim
Não sei se sou eu que corri do tempo
Ou o tempo que fugiu de mim

Quero mesmo é falar de amor
O tempo e o amor
Amar é sofrer, será?
Será mesmo que é esse o tal?
Da relação, o mistério norteador?
Amor e dor
Que relação desastrosa!
Talvez, menos penoso seja
Esquecer-se em si
Sem vivência, sem querência
Mas sem sofrência

A paga é alta meu amigo inquisidor
O tempo custa tempo
O amor custa tempo
O tempo custa ao amor
O amor custa ao amor
E cá perdido estou
No silêncio desta cela
Uma gota, uma quimera
Do que a mim se resta
É a dolorosa espera
De um tempo que há de curar
Ou de um amor que o venha sagrar-se
Pois já cansado estou
De assim ver jorrar o vermelho heroico
E o que passou, de mim levou
O que havia de melhor
Resta-me revirar o baú e a terra
Em busca de uma semente
De amor

Amigo das humanas razões
Voz das mais avessas emoções
Já faz mesmo, tanto tempo assim?
Creio que ouvira certas vozes
Aproximando-se deste recanto impiedoso meu
Não foi falta de vontade
Nem falta de forças
Apenas, não havia o que quisesse ouvir
Nem tampouco algo a responder-lhe

Despeço-me
No estanque da esperança
Ou no balanço de uma nota só
E que não cesse-lhe a alegria
Que já fora-me o esteio mas um dia 
Para mim virou pó
E agora, jaz o passado
De que não quero mais estar atrelado
E remexo a alma em busca de mudança
Aguardo-lhe, novamente, outra vez
Caro meu.

Quanto à letra,
Creio que firmei o golpe
E exigi-me uma à altura
Para que a sua leitura
Não se canse mais na decifração
Meu caro da razão

quarta-feira, 25 de março de 2015

Cartas para o calabouço - Parte III



Caro amigo, ainda infiel
Se respondestes pela vez primeira
É porque recebeste o meu sentimento escrito
Se o recebeste é porque não estais todo trancafiado
Seu calabouço não é à prova de tudo
Nossa conexão é prova disso
Existe, vez ou outra, uma abertura
Já havia tentado por vezes a comunicação
Porém, tudo em vão
Parecia que tu estavas enterrado
Vivo, porém enterrado

Meu querido infiel
O tempo urge
E tu o foges
São tantas coisas a lhe falar
Das menores às de maior importância
Não tenho noção do tamanho dessa distância
Em que tu se encontras da firme terra
Já se passaram dias, muitos dias
De sol, de calor, de brisa
De noites com chuva fria
Ou de seca e de dor
De escuridão e pavor

Infiel amigo meu
Das muitas coisas que gostaria
De te dizer pessoalmente um dia
Vou tentar aqui expor
De tudo que por essa terra passou
Há coisas que não devemos jamais desistir
Daqueles que a muito gostamos, é uma
Acreditamos, consideramos e juntos lutamos
Eis-me aqui, entre o ir e vir
A te levar um pouquinho seja
Do novo ar, dos bons tempos que tu mesmo almeja

Ah, meu caro e danado infiel
Sobre o tempo quero chamar-te, amigo
Vejo que apesar de tanto tempo neste seu abrigo
O calabouço que tu mesmo o considera assim
Ainda não perdeste de fato a razão
Nem tampouco a profundeza de sua emoção
E sua retórica traz a tona o reflexo a mim
Tempos e mais tempos
E quando estamos cansado do tempo
Tiramos um tempo pro descanso

Amigo infiel
Nossa prosa é séria
O nosso tempo aqui é finito
E com tantos pesares, e falta de humanas essências
Ainda nos prostramos à infinita beleza
Tu perdes tempo
E o perdendo de si
Não construirá seus alicerces
Há um destino que podemos chamar de eternidade
Aqui, o tempo é corriqueiro, passageiro
É o tempo de se plantar, cultivar,
E cativar

Amigo infiel,
Seu abandono sofrido
Tu o repetes para si
Ao abandonar-se nesta cela
Sem querer participar do tempo de hoje
Incomoda-me tanto sua ausência
Sua falta de sentido
A vida ainda é bela
E por ela vale a pena
Tanto pelos que ainda te esperam
Sem saber que tu aí estás
Lembre-se: "A morte é tão íntima com a vida. Esteja preparado."
Só não deixe de viver

Meu caro amigo
Tu já sabes de sua infidelidade
Não comigo, mas consigo mesmo
E é este o maior perigo
Pois já perdeste a noção
Será insanidade?
Sei que ainda tu carregas um coração
Se de razão ou de emoção
De nada importa mais não
Só se dê a devida atenção
Despeço-me aqui
Com o calor te todo o tempo
Com a brisa do momento
E com o frescor do vento
E para a próxima desde já espero
Que tu mesmo queira de algo falar.


PS: Ah, melhore sua letra.

Cartas do calabouço - Parte II


Caro amigo meu
Se infiel eu fui, foi comigo mesmo, espero
Suas palavras batem forte
Me traz a vida
E a dor de morte
Nem sei mais quem eu fui
Da onde vim
Ou pra onde vou
Indiferente é onde estou
Seja aqui, seja aí,
Em vão sinto que lutei

Realmente, vez ou outra sinto essa brisa
Como se um sopro fosse
Em dias que o silêncio me permito
Talvez, tenha confundido os ópios
E ao invés de omeprazol para queimação
Tomei foi dois prozac's com Platão
Sarcasmo meu caro amigo
Ainda não tenho essa ferramenta última
Mas a brisa, o sopro
Que me sussurra ao pé do ouvido
Quando cessa, 
A minha instantânea alegria
Sem eu perceber leva consigo

Procuro o buraco
O canal por onde adentra o vento
Nada, vazio, fechado
E no meio desse oco aqui estou-me
Destoando entre notas sustenidas
Menores, de tristeza, empedernidas
Lamentando-me o lamento mais lamentável
Canso-me de ouvir-me
E não consigo escutar-me
Estou só?
Cá estou-me
Cá e só

Não é o cíclico da vida que me angustia
Por mais que eu já tenha observado essa espiral
A monotonia envolto da matéria
A cegueira alheia é pior que a minha
Ninguém enxerga nada além do que se vê?
Estou aprisionado a este ócio
Melhor mesmo, para viver dentre os imortais
Estivesse envenenado pelo ópio

Amigo meu, por que me escreves?
Já não tenho mais palavras
Nem de vida nem de graça
Bons tempos aqueles idos
No quintal de terra batida
Entre couves e hortelãs
A ameixeira era o meu divã
Mocinhos e bandidos
No final da brincadeira, todos amigos
Inventar a história,
Começo, meio e fim
Era a melhor das puras redações
E a alegria vivia em mim

Amigo meu, gostaria de visualizar tua presença
Suas cartas me reavivam
E pra vida me reativam
Mas elas cessam no meu calar
Ouço, não ouço 
Tudo se consome
Tudo se corrompe
Tudo se escoa pelo tempo
E tempo, nem sei quanto tempo ainda o tenho
Ou se é ele que me consome 
Me corrompe e me escoa em si

Meu caro amigo
Que inflama este infiel de si
Tanto quanto quero reencontrá-lo
Mas antes, devo me reencontrar primeiro
Antes que eu me torne o derradeiro
A ousar a escapada desta tormenta
Do vazio incrustado que tanto lamento
Quero, tão somente, não morrer em vão
Nem passar a vida em busca de um sentido
Quero dar sentido ao que me resta
No aguardo de tuas novas batidas
Que me surram e me acalentam
Despeço-me com, pelo menos, um novo ar
O ar de tua anônima e ausente presença.