terça-feira, 1 de maio de 2018

"Não concordo mas respeito"



"Eu não concordo mas respeito", essa frase já virou bordão na boca do povo que, ou não tem culhão para enfrentar um embate aberto ou está em cima do muro sobre o assunto em discussão ou de tão inocente não tem noção da gravidade da coisa ou pensa que está colaborando com a paz mundial ao selar sua fraca opinião com essa frase pronta ou ainda, na pior das hipóteses, conivente ou ignorante mesmo.

Dias atrás quando compartilhei uma notícia na minha página do facebook através de um link¹, aos poucos surgiram pessoas que teceram suas opiniões. O pano de fundo do texto era a religião e as opiniões, em sua maioria discordantes sobre determinadas práticas da seita, era o cerne da discussão. Religião é um assunto que sempre causa polêmica. As narrativas bíblicas mostram que esse fato acontece a mais de dois mil anos e hoje as redes sociais permitem que tais polêmicas tomem uma proporção bem maior tanto no que tange o tema quanto na quantidade de pessoas atingidas que se encorajam a manifestar seus pensamentos, mesmo que seja para aplicar o velho e conhecido jargão que não por acaso é o título desse escrito. 

O respeito é um dever de todos. Opinar e discordar, principalmente quando esse ato vai a favor do bem, ou melhor, da vida, também deve ser um dever. Creio que existem assuntos que nem merecem ser debatidos, pois todo ser humano deveria ser uníssono no que se refere à salvar uma vida mas, ainda existem "coisas" que se mantém na sociedade e que são capazes de fazer com que algumas pessoas hesitem a praticar um ato em prol de uma vida. Portanto, discordar de tais práticas absurdas e trazer essa discussão à luz do bom senso é o mínimo que podemos contribuir para uma sociedade livre de mordaças religiosas. 

A pauta do link compartilhado trata sobre uma criança que só não morreu porque os médicos, mesmo contra a vontade de seus pais que são Testemunhas de Jeová, recorreram judicialmente e realizaram a transfusão de sangue. Doar sangue é um ato proibido a todos os seguidores dessa seita e essa regra não tem exceção mesmo que seja para salvar seu pai, sua mãe ou seu filho no leito da morte. Como já disse, esse deveria ser um dos assuntos que não mereciam ser debatidos uma vez que, enquanto seres humanos, nossa consciência natural e obrigação seria apenas ter o único pensamento de que devemos utilizar todas as ferramentas disponíveis para salvar uma vida. 

"Tudo o que vai contra a 'vida' merece ser não apenas discordado mas principalmente denunciado. Religião que atenta contra esse princípio já deixou de cumprir o seu papel legítimo, se é que em algum momento de sua existência realmente tenha tido algum objetivo além da alienação ou da exploração ou de ambos". Essa foi uma das respostas dadas diante de algumas opiniões que surgiram controversas durante a discussão.


"Não concordo mas respeito" é uma saída estratégica pela tangente. "Não concordo mas fico quieto", "não concordo mas vou fingir que não vi nada", "não concordo mas não vou perder o amigo" creio que esses podem servir como sinônimos. Melhor mesmo é nem usar esse método como fuga de uma discussão acalorada e se não for pra contribuir com a mudança arcaica do cenário, que nem se manifeste. Denúncia faz parte, omissão não!


1 - https://g1.globo.com/sp/sao-jose-do-rio-preto-aracatuba/noticia/justica-autoriza-transfusao-de-sangue-a-crianca-de-familia-testemunha-de-jeova.ghtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=g1)

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Desatando antigos nós


Sim. Acredito em Deus. Acredito que deva ter existido um início 'mágico', 'celestial', 'inexplicável' para tudo isso. Acredito também que essa obra criacional pode ser entendida como fruto de um amor incomensurável, tal qual um pai por ser filho, ou como um pintor que se deleita de orgulho quando conclui sua pintura. 

Também não perdi minha fé com a conclusão do curso de Teologia. 'A verdade que liberta' deixou de me assombrar e passou a me encorajar. Sem medo de denunciar, de criticar (se for preciso), de expor e principalmente de questionar os modos operantes que assolam os bastidores institucionais. Discordar das regras morais que violam o bem estar e até mesmo a vida do ser humano é mais do que um mero fato, é obrigação! 

Sou católico de berço, gosto dessa religião mas não concordo com muitas de suas páginas de regras ora absurdas, ora abusivas, ora descabidas. Conheço leigos, padres e freis, entre outros, que são verdadeiros meios de libertação junto à caminhada de sua comunidade e para uma vida plena e em abundância de seus fiéis. Conheço também, infelizmente, o oposto disso que está na prática deturpada daquilo que se encontra nas tais páginas: a hipocrisia, a falsidade, a alienação que se manifestam através dos falsos profetas. Não tenho medo do que penso, do que sinto e nem tampouco de partilhar tais sentimentos e convicções. Por outro lado não me considero menos cristão que aqueles que ostentam seus joelhos calejados de tanto frequentarem a igreja. As aparências também fazem parte do marketing religioso. 

Biblicamente discordo daquele deus citado, principalmente no Antigo Testamento, que castigava um povo em detrimento de outro, que era severo e vingativo, além de dar poderes para alguns seletos homens que, julgando-se escolhidos, usavam deus para atuar em causa própria. No que diz respeito a isso, encontramos versões atuais de como atuar em causa própria nas religiões contemporâneas. É algo que nunca deixou de existir, apenas se modernizou.

Seguindo à risca a expressão bíblica 'crescei-vos e multiplicai-vos', assim as religiões o fizeram. São muitas denominações que, em seus ambientes criam insatisfações entre seus membros e a partir daí os que discordam das regras e doutrinas aplicadas se insurgem e recriam sua própria igreja, desta vez readaptada aos seus moldes de entendimento, até que o ciclo se repita e a redivisão aconteça.

E não é apenas por isso que as ruas de cada cidade estão repletas de templos, ou melhor, uma nova gama de adaptações de templos. Há lugares em que são mais de cinco numa única ruela. Como disse 'não apenas por isso', mas o motivo principal ultrapassa as questões espirituais e a busca pela tão desejada salvação eterna, tornou-se um negócio. Não duvido da fé de quem procura mas quem manipula está ciente de seu oportunismo que visa apenas o lucro sobre a fé alheia. Impossível assistir a isso calado! 

Não mais acredito na religião que se impõe acima da vida, nem naquela que valoriza o institucional em detrimento do ser humano. Qualquer religião que tem em seu legado o amor e a luta pela vida é digna de ser um caminho para a salvação. O contrário disso é hipocrisia, alienação e caminho de escuridão.

Em termos de religião, a arte, a cultura e a educação tem sido religiosamente libertadoras e comprometidas com a vida. Já a religião, há muito perdeu-se de si e perdeu sua própria fé... Desatar um antigo nó, é desatar a nós mesmos. 

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Rascunhos e profecias: dessentidos


São tantos dessentidos que o coração repulsa
sensações, talvez necessárias, de dor e alegria
que percorrem tenuemente o deserto interior
margeando as tempestuosas águas sem fim
ora trocando de lado e de papel
ora banhando os pés com as próprias lágrimas
o vento gritando tons de uma melodia composta
na estrada infinita que leva a lugar algum
mundo indevido e de interesses obscuros
rascunho imediato de uma profecia inacabada
meu retrato rasgado, esquecido e empoeirado
vou encerrando meus ciclos, 
meus medos, 
meus escritos
...



quarta-feira, 18 de abril de 2018

Caderno sem fim



O peso de minhas escolhas
Que recai sobre a memória
Ora ostentando como troféu
Ora pesando feito sentença
Livro de lutas que a chuva não molha
Caderno vivo de infinitas histórias 
Sonhos de sangue ligados ao céu
Vida seguindo e fazendo presença

Linhas sem fim que percorrem minhas veias
Folhas avulsas, sem pautas, de cores
Que o tempo pintou com adestrada leveza
Ou marcou fundo na pele e na alma
Gravuras de um sonho em vida que anseia
O melhor do perfume que exala das flores 
Cultivando no jardim a maior das riquezas
De uma estrada sem fim que hoje me acalma



terça-feira, 10 de abril de 2018

Origens e Destinos

"Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou?"

Com o passar do vento que corta o meu tempo
E vai deixando minha pele sinalizada por essa estrada
Aguça-me, não menos que antes, a necessidade de saber
Aprender, compreender... esta minha passagem
O meu papel, aqui, neste mundo (...)
O caminho é para um fim único, eu sei
Uma volta para o eterno, eu imagino e quero acreditar
Mas, aqui e agora, é um estado também de eterno
Uma interpretação diária e sem direito a ensaios nem recortes
Caminhar solitário em terrenos ardilosos e desconhecidos
Dividindo o cenário com almas amordaçadas em sua existência
Gritos de silêncio, solidão a dois, a três, amor sem talvez
A ideia absurda de encontrar um sentido para tudo
Bem como as razões de se estar aqui,
Os motivos dessa insana existência
A origem e o destino
Se tais questões forem respondidas
Pela ciência ou pela religião
Entraremos num abismo de trevas
Ou, simplesmente, encontraremos a luz...