quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Acordes de um tempo


Foi numa esquina sem curva de um tempo da vida
Que o improvável encontro se impôs ao destino
Sonho anônimo que se tecia clandestino
Estrada trilhada com esperança florida

Antes do por-vir a sentença foi dada
Na escadaria do mundo a forte emoção
No elevador do desejo a grande paixão
Um abraço, um beijo, e uma história selada

Buscando os acordes do enlace sagrado
As notas ecoam da pele em calor
E a alma resvala na fronteira do amor

Instante do agora que já está eternizado
Pista sem placas que atravessa o coração
Amor sem medida que ultrapassa a razão

sábado, 26 de novembro de 2016

"Oh! Capitão, meu capitão!"

Uma vez você me disse, caro irmão, que o poeta é rebelde, indomável e inquieto. E é através desse seu olhar que aqui estou para falar um pouquinho sobre a sua obra. Mas, não tem como falar da obra sem reverenciar ao autor. Não tem como falar do Gelson se não tocarmos no sentimento através da poesia. Para quem é ou já foi aluno desse exímio professor, sabe muito bem o que suas aulas proporcionaram e contribuíram em nossas vidas. Para quem não teve esse privilégio ainda poderá sentir e compreender através de seu recente livro: “Bereshit”.

Bom, eu só sei que foi assim... Você caro amigo, sempre extraiu de seus "aluninhos" o que melhor eles trouxeram dentro de si. Habilidade ímpar, a sua, em reconhecer não só as limitações e trabalhá-las mas a de exaltar as qualidades individuais. Maestria e Sabedoria com louvor! Esse momento transpõe barreiras, saberes, ciência, fé, razões e emoções. Naveguemos então, deliberadamente, insanamente, descomprometidamente de rédeas e deveres, mas apenas com o que há de melhor e mais sensível em nós, nos sem limites da travessia poética.

Oh! Capitão, meu capitão!
É assim desde os primeiros momentos em sala, ou melhor ainda, desde as primeiras poesias que descortinavam suas aulas. Fala mansa e enérgica. Vida que brota de sua voz e segue em direção ao coração de seus alunos. (...) Que já deixaram de ser alunos a muito tempo. Nem discípulos também. Somos amigos, somos irmãos, bem assim, desse jeito, que você mesmo sempre nos acolheu.

Oh! Capitão, meu capitão!
Que em seu nobre prosear leva razões para a emoção de nossos corações. Mas também dialoga entre as emoções de cada razão. Correlaciona entre os pensares, os lugares, os altares, entre as profecias, as poesias, as utopias. Correlaciona-se num sentido mais que profundo da palavra entregando-se a cada dia, em cada aula, em cada ato.

Oh! Capitão, meu capitão! Ou, Professor, Educador, Mestre!
Mas, antes de qualquer título que ele mesmo faz questão de não salientá-los, para nós é apenas um menino que se esbanja com a formosura de um rio. Lança flores na correnteza das águas, lança saberes de encontro aos olhares de seus companheiros. Gelson é rio, apaixonado e irreverente. Gelson é ponte, deserto e travessia.

A obra deste irmão não se resume em seu livro. Na verdade sua maior obra é viva e está incutida em cada um que valseou entre os acordes improvisados do maestro. Ela é o seu legado, construído, cultivado e cativado pelas estradas do conhecimento junto aos seus amigos. "Bereshit" é enfim, como sua segunda publicação, a contemplação de toda a sua trajetória. Ela abarca mais do que beleza de palavras e ótimas reflexões, bem mais do que correlações entre os saberes e caminha para muito além do diálogo entre fé e razão. Suas escritas tem profundidade, clareza, reciprocidade, rompimento e convite. Para tanto, basta ousar e sentar-se para um dedo prosa.

Gelson, amigo e professor dedicado à arte de ensinar, um verdadeiro capitão que honra com seus alunos marinheiros e a esses propicia o navegar por dentre as inéditas águas do conhecimento que margeiam este mundão, ora seguindo a correnteza, ora rompendo com o fluxo e desbravando novos horizontes do pensamento. Um educador, de tão eloquente e apaixonado pela vida, se faz menino e aluno frente aos seus educandos.

"Irmão, senta-te aqui comigo!" - Esse é o convite que o nosso querido Gelson nos faz em seu livro.


E assim como escreveu Drummond no poema "Ceia na casa de Simião", o professor sempre fez questão de celebrar conosco esse verso: Deus seja louvado! 



Obrigado: "Oh! Capitão, nosso capitão!"


Lançamento do livro do professor Gelson Neri: "Bereshit, poemas e fragmentos teológicos e filosóficos" - 25/11/16 - Faculdade Católica de Uberlândia
Por: Ailton Domingues de Oliveira

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Meus inimigos, meus fantasmas


E por fim, o fim se achega de mansinho
Devagarinho ou de solado mal intencionado
Pelo cunho de meus inimigos
Ou pela insistência de meus fantasmas

O inferno que se materializa nos flancos
Não é o que se pinta nas telas
Tampouco o que se prega nos púlpitos sagrados
Talvez, seja uma guerra entre meus eu's: demônios e deuses

A morte que fora santa, tornou-se prostituta, mocinha e bandida
E não mais assusta que as trevas escondidas pelos dias
Os homens ditos santos, de seus antros profetizam
Mas ela é insensata e desobedece a hipocrisia

Das entrelinhas subscritas em noites tortuosas
O silêncio destemido guarda versos proibidos
Meus passos eternizados entre as lutas do destino
Afugentam meus fantasmas e dispersam os inimigos

Sem preguiça e sem cobiça, sempre avante e sem pressa
Dou razão à emoção quando me perco na travessia
Escrevo torto o meu sentimento e disfarço sob o tempo
Faço porque quero, a razão desobedeço, dando voz e poesia

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Partilhando metáforas


Se no acaso está a graça da oportunidade,
São os olhos da alma que a enxergam com sensibilidade.

Na travessia de um rio, de um dia de calor ou de frio,
Um período ou um ano, uma noite, um céu e um sertão,
A certeza única dessa estrada são os momentos que saudades deixarão.

Diante das circunstâncias que a vida nos apresenta
É com o poder da oração, legado dos pais, que Deus nos orienta.

E nesse mundo repleto de complexidade
A soma simples de "si mesmo + Deus"
É o resultado que se me apresenta em "unidade".

Interessar-se pelo outro é despojar-se de si, papel do cristão
Enxergar o humano, além das diferenças e dificuldades
É transpor limites e barreiras e abraçar um irmão.

Mas o mundo também nos mostra a beleza da Criação
o que permanece para os outros? é aquilo que plantamos no recanto do coração.

Nada vale mais que um dedo de boa prosa e sabedoria, afinal
Pois na vida o emocional é anterior ao intelectual.

E o quão o mundo poderia experimentar a vida com mais alegria
Se houvesse um cantinho que fosse, no coração, para se semear poesia?

O tempo passa e muitos momentos se eternizam na consciência
Pois em tudo e em todas as coisas existe a sacralidade: transcendência.

Com os olhos se faz poesia, no silêncio se faz oração, a qualquer tempo
Mas há quem, em sagrada plasmação, em sua sabedoria se tornou o nosso exemplo.

E se a vida é uma dádiva, vivê-la é uma sacra arte
Há quem morra sem ter vivido e quem jamais deixará de nos fazer parte.

Em meio há tantas relações deturpadas de um mundo imprevisto
Há quem viva e testemunhe a união: eu, tu e Cristo.

Mas então, o que nos une? Nesse lugar descontrolado
Somente a Paz, Crucificado e Ressuscitado.

Deus nos deixou uma missão, do corpo e da alma:
Respeitar a inviolabilidade da pessoa humana.

Com cada próximo, empatia e cuidado pra viver
Em cada ato, alteridade que ultrapassa o próprio ser.

No ciclo desse tempo, desses anos em travessia
O que se eterniza em cada um é o Diálogo e Teologia.

"Tá caindo fulô! Ta caindo flor!"
Vai chover saudade, vai chover amor.

De nada nos valeria todo tempo e toda a oração
Se no fim não percebêssemos o bem no outro, compreensão.

Mas, e agora José?
E agora Gelson?
Compadre meu Quelemém!
Momentos que o tempo não leva, não apaga
São pinturas coloridas, eternizadas.
Muita gente partiu antes
Muita gente nem embarcou
Mas muitas almas aqui se tornaram grandes
E deixará saudade nas estações que passou.
Tropeçamos mas aprendemos.
Desentendemos mas também superamos...
Tá chegando a hora, é a nossa deixa, a nossa estação
E o trem haverá de ser noutra direção.
Cada um na sua, talvez
Seguindo a escolha que o coração fez...

E agora, Capitão, meu Capitão?!
O tempo se tornará grande em nossas noites
Que mesmo diante do cansaço dos dias
Estar aqui, alimenta-nos a alma e nos enche de alegria.
Nesse espaço de travessias
Onde tem fé e utopias
O simples se torna belo,
E do belo se sente o sagrado
A caminhada nos cria elos
E o caminhar, perfumado.
Mas, nos dias solitários, 
Nas noites estreladas
Segurando o rosário,
Voltaremos os olhos aos céus
E nos acolheremos com os olhos marejados
Pois, "a gente está no coração de Deus".



Ao Profº Gelson e alunos do 5º e do 7º Período de Teologia, aula de Temas Especiais: Hermenêutica: Zé Cezário, Bruno, Luciano, Edmar, Pedro, Valéria, Marcelo, Firmino, Luciane, Divoene, Jaqueline, Roseny, Regismar, Ricardo, Eimar, Elissandre, Ailton, Mersônia, Denise, Frei Carlos, Juscelino, Aline.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

"Senta-te aqui comigo"


"O real não está na saída nem na chegada: ele
se dispõe para a gente é no meio da travessia."
João Guimarães Rosa - Grande Sertão Veredas

Ruptura, desapego, inquietude, dentre outras tantas ousadias de um menino apaixonado pela vida e amante eterno de sua vocação. Estes são elementos que requerem destemor e coragem para usá-los com sensatez e domínio nas linhas e entrelinhas dos pensamentos que nesta obra se tecem. 
Adentrá-la apenas com os olhos da simples razão ou da exacerbada emoção incorreria o risco de enrijecer e limitar a liberdade que o autor tanto propõe. É preciso mais: seguir arriscando por entre as linhas de cada pensamento sem a pressa e sem a obrigação de concluí-lo, pois aqui o poeta nos remete às múltiplas possibilidades de transcender o casual e as estruturas institucionalmente impostas. É preciso também desnudar-se das roupagens que até então carregamos e nos lançarmos nas águas, improvavelmente quietas ou agitadas, e deixarmo-nos contagiar pela beleza que se nos apresenta.
E essa maestria toda é fantasticamente orquestrada pelas mãos desse artista que consegue tanto pintar os pensamentos do lugar onde se encontra como distanciar-se do foco, contornando e discernindo as embrutecidas estruturas que sustentam as correntes que norteiam a sociedade, encontrando possibilidades e novas paisagens.
Eis o hospitaleiro convite, que surge em meio a essa magnífica alquimia, em que o autor se aproxima para um dedo de prosa, nos traz para perto de seu sagrado solo e nos chama de irmão: "Senta-te aqui comigo! Abramos bem a janela! Abramos bem o coração" e, tomo a liberdade de continuar, nos permitamos dialogar por onde a água nos quiser levar, natureza adentro ou afora.
Gelson, amigo e professor dedicado à arte de ensinar, um verdadeiro capitão que honra com seus alunos marinheiros e a esses propicia o navegar por dentre as inéditas águas do conhecimento que margeiam este mundão, ora seguindo a correnteza, ora rompendo com o fluxo e desbravando novos horizontes do pensamento. Um educador, de tão eloquente e apaixonado pela vida, se faz menino e aluno frente aos seus educandos. 

"Irmão, senta-te aqui comigo!"

Ailton Domingues de Oliveira


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