segunda-feira, 17 de julho de 2017

Escreveres


Quando as palavras se aquietam na garganta
E o grito é abafado pelo silêncio
Quando o pensamento desconserta-se na ousadia
E o sonho só se refaz nas esquinas de cada tempo
O melhor que há é escrever...

Quando transpor as regras é a necessidade
E as melhores pinturas da vida estão na casualidade
Quando a melancolia se tornou imperativa
E a alegria virou mera alternativa
O melhor que há é escrever...

Quando a substância foi encontrada na pequenez
E nos sonhos calados as menores imensidões
Quando a fé se agigantou contra a estupidez
E na luta do rio as melhores composições
O melhor que há é escrever...

Escrever é entronizar-se em seu mundo
E dialogar com todas as metades do seu eu
Seja ele pequeno, gelado e medíocre
Mas certo de que o agora pode ser adeus
Escrever é dizer nas entrelinhas do universo
O que não ressoou pela voz
É pintar as letras de cada verso
Vivendo a vida e desatando noz

Escrever é agradecer 
Escrever é agraciar
Escrever é contraposto
Escrever é paralelo
Escrever é enveredar-se
Escrever é libertar-se
Escrever é escrever-se...

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Entre poderes e loucos


Essa lei que escolhe a quem servir
Essa lei que escolhe a quem abater
Essa política que segrega e oprime
Esses políticos que trabalham para se manter no poder
Esse país de paralelos
Esse país de poucos
Esse país de mazelas
De marginais poderosos e loucos...
Desconstrói-se a esperança dos dias
Comemoram os nobres da corte
Aniquilam sonhos e utopias
Mas o poder mantém os chefões com a sorte
Margens, mazelas, poesias e prantos
Sobrevivem na trama alguns outros poucos
Que desbravam fronteiras com lutas e cantos
E nesse mundão desmedido sobrevivem apenas os loucos...
Vida longa aos loucos!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

"A dama e o vagabundo"

 *Snoop 

ATENÇÃO!                                  
"Não, não é um comentário sobre o romântico
 desenho da Walt Disney nem paródia musical." 

"Segue adiante o dependente químico em seu rotineiro estado 'zumbi', marcha compacta de ritmo constante, sem visão lateral do mundo e sem se dar conta do mundo que o observa. Nada lhe importa mais do que aproveitar oportunidades e descuido da sociedade para furtar coisas que possam lhe render alguma grana e assim manter o seu vício.

Segue, também, na cola do indivíduo uma tresloucada gritando, esbravejando, ameaçando-o com uma surra caso ele cometa delitos por ali. Em uma grotesca cena para chamar a atenção de outras pessoas e assim conseguir comparsas imediatos para sua causa fortuita a dama da sociedade protagonizou o que podemos considerar de 'o monólogo da hipocrisia'.

Creio que os dois precisam de tratamento: ele, o vagabundo drogado, para sua dependência química; ela, que se disfarça de dama no rol da sociedade entre o status familiar, profissional e religioso, para sua dependência de aparência e hipocrisia tresloucada."

Sem defender a quem comete delitos nem atirar pedras em quem usa máscaras, eis que ficam as perguntas:

O que você vê ao ler isso? 
O que sente?
O que te incomoda?
Quem é culpado?
Quem é inocente?
Onde está o erro?


*Laura Cardoso interpretando D. Doroteia no seriado Gabriela

Porque os dias não são iguais



Porque os dias não são iguais
Nada é tão mera sequência
Nunca mais foi uma imposta rotina
É fruto de minhas escolhas
Em formação com minhas rimas
Alegria em meus passos


Desde que olhei ao tempo
Tantas folhas carregadas pelo vento
Tantas estações vazias 
Corpos nus e almas frias
Sol e lua em sintonia
Mas os dias não são iguais

É o tempo
São os dias
Porque os dias são bem assim...
Diferente é cada momento
Fazem parte tristezas e alegrias
Para um novo amanhecer é preciso um fim...

sábado, 27 de maio de 2017

O fim das coisas

*Eu e minha irmã Cinthia na mesa de nossos avós, 
Joaquim e Iolanda
"Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim"
"Naquela mesa", música de Nelson Gonçalves


Tudo tem um fim, principalmente as coisas materiais...

De frente para uma mesa com quatro cadeiras, que foi presente de casamento dos meus avós maternos Joaquim e Iolanda e hoje repousa aqui na cozinha de casa, fiquei observando as marcas do tempo. Desgastes naturais e pelo uso. Algumas partes descascadas e sem o brilho do verniz. Marcas que podem facilmente desaparecer se forem restauradas. Não será o caso.

Os objetos que foram de pessoas importantes sempre fiz questão de guardar e zelar. Olhar para eles é como abrir um álbum de fotografias na memória. A mesa e as cadeiras tem esse efeito. Lembro-me de meu avô sentado em uma ponta e eu de frente para ele. Minha avó em uma das laterais. Almoço de domingo era sempre assim...

Quantas conversas, quantas lições, quantas histórias eu ouvi sentado bem ali, juntinho deles... Coisas que o tempo não desgasta, não apaga. Dispensam restaurações. Momentos selados na história e na memória, eternizados no coração.

Eu mesmo poderia restaurar esse conjunto tão rústico e simples, mas senti a necessidade de permitir que tais objetos possam retornar também ao pó. É a lei da vida, o ciclo natural de todas as coisas. Nada é para sempre. Apenas o que vivemos, o fruto de nossas escolhas, ou o que deixamos de viver, isso sim será eterno.

Tudo merece o seu devido e respeitoso fim no tempo... As pessoas que produziram tal relíquia, bem como as que presentearam os meus avós, e eles próprios, já encontraram o seu descanso eterno. Ficaram as lembranças e a saudade...


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