sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Linha do tempo


"Linha do tempo" foi o relato, o resumo de fatos da minha vida, apresentado e compartilhado no 3º Período de Teologia, disciplina de Bíblia III. Neri. Momento importante e de fortes emoções, proporcionado pelo Professor e Mestre Gelson Neri.

O primeiro filho; primeiro neto; primeiro bisneto; primeiro sobrinho. O fato de ter sido o primogênito e ter se mantido como único durante 10 anos, renderam-me várias regalias, coisas que meus avós sempre faziam questão de me contar. Ainda por conta dessa honraria toda, tive o privilégio de ter passado bons longos períodos na casa de meus avós paternos (Benedito e Maria Aparecida) e maternos (Joaquim e Iolanda), principalmente. Minha irmã, Cinthia, nasceu quando eu já tinha 10 anos, uma diferença de idade que não foi empecilho em nossa intensa relação de amizade e cumplicidade.

Meus pais, hoje separados, chegaram a participar do ECC e também do Cursilho. Meus avós (de ambas as partes), sempre foram católicos, mas do lado da minha mãe principalmente a religiosidade ainda era mais evidente e participativa. E foi graças a estes que minha base religiosa, considero, foi essencial para a formação.

Avó Iolanda, mãe da minha mãe, tinha um sonho: ver-me tocando violão na igreja. Esse gosto eu pude dar à família. Meu primeiro violão foi comprado em Aparecida no Norte quando eu tinha ainda 8 anos de idade. Tive duas aulas apenas. O resto foi esforço e vontade.

Professores. Sempre tive muita admiração e respeito por cada um que passou pela minha vida. Hoje, recordo com saudade e gratidão de cada um em particular, pois seus ensinamentos, fruto do amor com que se dedicavam à educação é trazido comigo no coração. 

Após a Crisma, entrei em grupo de adolescentes, passei para grupos de jovens, fui coordenador em ambos, coordenador da comunidade, da Paróquia, fiz parte da equipe de coordenação Diocesana e representava a Diocese no Sub-Regional. Tudo isso no ambiente Pastoral da Juventude. Enquanto participante dos grupos de adolescentes fiz muitos teatrinhos e escrevi alguns que ficaram marcados, um sobre "Família", outro intitulado "Menino de Rua", que guardo com carinho até hoje e um outro que foi sobre a história de vida dos meus coordenadores João e Marisa, meus grandes amigos e hoje compadres, pois me deram a honra de batizar o seu segundo filho, o Felipe. Fui um adolescente custoso, no sentido namoro. Nos retiros de adolescentes haviam sempre monitores olhando a turma de longe e uma dupla exclusiva para me olhar de perto. Lembro que quando a gente começava a namorar, o estilo autoritário e paternalístico dos coordenadores nos obrigava a contar para os pais, principalmente das meninas. Passei uma vez por essa corte! (Rs). Um dia, fui lá conversar com o pai da minha namoradinha. A primeira vez a gente nunca esquece. Nessa época haviam também muitos rivais. As famosas rinchas. Eu e mais 2 amigos não podíamos sair sós que o risco de ser linchado era grande. O motivo causador era simples, pois enquanto a molecada saia para aprontar farras e brigar, nós saímos para a famosa paquera, o início do "ficar". Essa diferença de atitudes pra época desqualificava nossos algozes para arrumar uma namoradinha e nos deixava em evidência. 

Tamanho e peso. Precisava superar meus limites. Não era muito bom com o futebol. O contato corporal no esporte me fazia ser um risco para a equipe. No menor dos esbarrões eis que o sangue quente subia rápido demais e a porrada corria solta. Eu precisava me superar tanto na questão disciplinar do auto-controle quanto na minha auto-confiança. Primeiramente o vôlei de dupla. Sábados e domingos eram numa quadra de cimento de um clube modesto da vila onde morava. Passávamos o dia, eu e mais alguns colegas, apenas com garrafas de água que levávamos de casa. Vez ou outra um pão com mortadela. Ainda no quesito superação, era necessário extravasar aquela energia de uma outra forma. Foi onde entrei para o Muay Thai. Foram 6 anos com direito a 5 lutas. Da mesma forma, sem altura e com peso baixo, precisava compensar com agilidade e esperteza para não ser apenas o saco de pancada da vez. E assim se fez. Das lutas, 4 foram vitórias. Apenas a primeira, para um exame de faixa com um graduado mais alto e mais pesado que o castigo foi forte. Ossos do ofício.

A fome pelo vôlei era tanta que aos 16 ou 17 anos, eu e mais um amigo da época movimentamos um torneio masculino e feminino entre as comunidades da Igreja Católica de Piraju. Conseguimos patrocínio, ganhamos uma semana grátis no Ginásio de Esportes da cidade, compramos um jogo de camisa, rede, bola e ainda contratamos os juízes. A abertura oficial do torneio contou com o ginásio lotado. A entrada dos times uniformizados com as respectivas bandeiras de sua comunidade deu um ar de seriedade e comprometimento mostrando que as disputas seriam acirradas. O pároco fez uma celebração abençoando aquele momento, os participantes e toda a comunidade presente. Haveria premiação para a melhor equipe, ou seja, aquela comunidade que conseguisse fazer seus times (masculino e feminino) chegar mais perto das finais. Os melhores atacantes, levantadores e destaques também seriam premiados. Mais uma vez, vai eu correr atrás do déficit de altura. Compensar de que forma? O peso leve me dava a vantagem da impulsão. Então, durante a preparação do campeonato que durou cerca de 2 a 3 meses restava-me trabalhar todos os fundamentos do vôlei para chegar ao melhor grau possível da perfeição. Trabalhava a impulsão correndo na areia e com exercícios específicos. O resultado foi positivo. Nossa comunidade ganhou em primeiro lugar no masculino e no feminino, levando assim o troféu de melhor equipe. Levamos também o destaque feminino, atacante masculino e por último eu fiquei com o troféu de melhor levantador da liga. Além desse torneio de equipes, realizamos outros 3 torneios de vôlei de dupla, dessa vez só entre as pessoas de nossa comunidade.

Amizade. Sempre fui dedicado com minhas amizades mas nem sempre a recíproca foi verdadeira. Hoje, olhando para trás, tento entender porque algumas pessoas às quais me dediquei só estiveram presentes enquanto precisavam de algo em troca. A pergunta já é uma resposta. Há amigos e amigos. O tempo se encarregou de afastar de mim aquilo que não era verdadeiro. Um desses amigos, ou ex amigo, é justamente este que foi meu parceiro em tantas partidas de vôlei de dupla e que me ajudou a organizar aquele torneio entre as comunidades. Por outro lado, algumas pessoas daquela época de adolescência, e que eu não tinha muita amizade, hoje nos aproximamos e nos redescobrimos. Para essas situações tenho alguns escritos no blog: "Controvérsias da Amizade I e II" e também "Defuntos Vivos".

Farmácia Drogamed. Um trabalho que durou 10 anos, rendeu-me experiência e uma amizade eterna. Heloise, foi mais que amiga, foi uma irmã. Torcemos para o mesmo time, Corinthians. Ela, fanática por esporte, também jogava futebol. Após 3 anos trabalhando comecei a receber propostas de outras concorrentes até que numa terceira ou quarta vez ela não quis cobrir e eu saí. Arrependimento desde o primeiro dia de trabalho no novo lugar. Foram quase 1,5 anos até que pedi as contas. Um representante de laboratório, amigo em comum entre eu e a Heloise, comentou com ela sobre minha saída da outra farmácia. Automaticamente, sem eu saber, ela dispensou um funcionário para me recontratar. Foi o céu para mim. Quando recomecei o trabalho com ela, logo percebi que havia algo estranho acontecendo. Ela e seu esposo (pessoa que guardo muita admiração e respeito) já não se entendiam bem. O tempo que ela estava deixando a farmácia para jogar futebol era o motivo mais aparente daquele clima hostil entre ambos. Fui me inteirando de tudo e percebendo muitas pessoas estranhas passando por ali, todas, fruto de sua nova fase de amizades trazidas pelo futebol. A separação deles coincidiu com a separação de meus pais. Fomos ponto de apoio um ao outro. E após o Curso de Inverno de 99, quando comentei com ela da experiência que vivi lá, ela abriu-me o coração. (...) Sua nova fase não seria fácil. Seus pais praticamente a condenaram. Hoje não mais. Está tudo resolvido na família. Mas, na época, somente eu, ali, de apoio. Durante muito tempo levava almoço de casa para ela.

Formei-me em Administração de Empresas em 1998 e foi no ano seguinte a experiência que considero como um divisor de águas em minha vida: o Curso de Inverno da Pastoral da Juventude. Foram 10 dias vivenciando a Espiritualidade - Sonho, Fé e a Luta - com irmãos e irmãs que congregam da mesma caminhada. Ainda neste ano, outros grandes marcos extra-caminhada aconteceram. Foi um grande amadurecimento enquanto pessoa.

Anos antes (1996), ou melhor, um ano após a morte do meu avô paterno, Joaquim (+ 1995), meus pais se separaram. Foi um grande obstáculo. Sentia a família desestruturando. Acabei me afastando de todo tipo de trabalho na comunidade, retornando no ano seguinte, 1997. A maior dificuldade foi assumir as responsabilidades de casa, coisa que o meu pai até então o fazia. 

No ano de 2000 mudei-me para São Paulo. Havia uma proposta de emprego modesta. Seria um novo começo. Seria. Fiz a entrevista e fui contratado juntamente com mais dois colegas. Morando na capital, logo no primeiro dia de trabalho, a diretoria daquela multinacional francesa negaria a contratação que o gerente realizara semanas antes. Ficamos na mão. Eu, demoraria 3 meses a conseguir meu primeiro emprego paulistano.Um longo período de deserto, solidão, medo e por vezes, desesperança. 

Na capital, jogando volei num condomínio em Alphaville, centro do capitalismo exacerbado, conheci um empresário de bom coração que me abriria as portas. Ele, convidou-me a trabalhar numa instituição, a qual era vice presidente, que cuidava de crianças em situação de risco de morte numa região conhecida como "triângulo da morte" (formada por 3 bairros de alta periculosidade e violência). Após 6 meses, seria transferido para seu escritório em Alphaville, que atuava como uma trading. 

Nesse período conheci a mãe do meu filho, Felipe. Cheguei a morar aqui durante um ano e meio mas acabei voltando pra capital paulista. Dois anos após o nosso rompimento, e já com quase 10 anos de São Paulo, resolvi deixar a vida com bons rendimentos financeiros para estar junto de meu filho. Foi a melhor escolha. Já se completam 6 anos de Uberlândia.

Meu filho. O Felipe foi desejado, foi querido e planejado. E ele sabe que toda a minha mudança é em prol de estarmos juntos, próximos e sempre unidos. Nossa relação pai e filho, posso dizer, que vai além de qualquer expectativa. Somos amigos e também confidentes. Temos carinho e respeito. Somos eternos companheiros.

Entre idas e vindas a escrita sempre esteve presente no meu dia a dia. Esse gosto (também pela Língua Portuguesa e pela Literatura) foi reforçado em 1993 por uma professora de Português, Ana Cristina. Desse ano que comecei a esboçar meus primeiros rabiscos de pensamentos. 99, seria meu último ano de escrito e retomaria somente em 2009, já morando em Uberlândia.

Durante os quatro festivais de músicas inéditas que aconteceram em Piraju, minha cidade natal, (1996 a 1999), juntamente com o grupo de canto que eu participava, ganhamos duas vezes em primeiro lugar, uma em segundo e outra em terceiro, todos com músicas de minha autoria. 

Em São Paulo cheguei a ficar 5 anos afastado totalmente da igreja. Foram épocas incertas. Páginas não escritas. Mas, num dia de domingo, resolvi dobrar os joelhos e pedi ajuda a Deus. Em menos de 30 dias eu já estava morando em Uberlândia e trabalhando. Sonho realizado. Tenho uma música escrita que conta em detalhes esse episódio com o título "O retorno". Há um sentido especial nesse retorno que simboliza não só a minha volta pra perto de meu filho mas também para perto de Deus e na caminhada pastoral na igreja. A partir desse domingo, após muita lágrima e conversa íntima com Deus, fui numa missa na Igreja de Nossa Senhora Aparecida em São Caetano do Sul, cidade que então morava. Salientando que minha comunidade em Piraju também era de Nossa Senhora Aparecida. Na semana que se seguiu, procurei me confessar e participar da Missa todos os dias as !5 horas na famosa igreja de Santa Edwirges. E, não lembro ao certo como e quando, mas creio que eu estava nessa igreja, numa dessas tardes, debruçado sobre o braço e pensando sobre o que seria o meu futuro próximo e ao mesmo tempo esperançoso de que algo bom aconteceria, de olhos fechados, a visão que me ocorreu foi "ao olhar do lado de dentro de um determinado lugar, lá fora havia um gramado bem verde e com algumas árvores". Só fui me dar conta do que seria isso, quando morando em Uberlândia, ao sair da Igreja de Imaculada Conceição, hoje minha comunidade, ao olhar para fora, vejo aquele mesmo gramado que havia visualizado quando ainda estava em São Paulo.

Num determinado momento, desempregado, ingressei-me no cursinho, específico para o Concurso da Polícia Federal. Lá conheci um capitão da polícia militar que atuava no batalhão de choque da capital. Esteve presente no fatídico episódio do Carandiru, onde resultou o filme. Fazia questão de falar como realmente acontecera naquele trágico dia, mas com o olhar de um PM a trabalho. Dizia que o filme era muito romântico e só mostrava um lado. O homem era louco. Puro sangue no "zói". Suas aulas eram motivadoras, engraçadas e me marcaram muito principalmente por sua coragem de nos contar tudo o que acontecia pelas ruas de SP. Ele era um cara perturbado. Tomava remédios controlados e não cansava de dizer que falava com os espíritos. Vez ou outra ele acaba falando alguma coisa sozinho. Ele dizia que havia uma velha que sempre o incomodava mas que não lhe causava medo. Ficamos próximos, trocamos muitas ideias. Apesar de sua vida louca, descontrolada, incerta, eu o admirava muito.

Nesse período, morando na casa de um primo, no Heliópolis (hoje não mais uma favela mas um bairro que pode ser considerado uma cidade à parte), conheci de perto vários tipos de personalidades locais: o assaltante, o traficante, os contrabandistas, os desviadores de cargas, os sequestradores, os golpistas de cartões, etc. O código de conduta local se resumia em poucas coisas. O principal era não ter nenhum tipo de confusão que pudesse trazer a polícia para dentro do bairro, uma vez que atrapalharia o tráfico. E quando tinha briga entre vizinhos chamava-se os líderes das bocas para apaziguar. Não resolvido, em última instância, viria o "chefe" (o cara que comanda geral) e neste momento ouviria a versão de cada parte e de mais duas testemunhas próximas. Era dado o ultimato. Se a parte errada voltasse a causar problema seria expulsa do local em menos de 24 horas. Muitos saíram dessa forma deixando todos os pertences para trás. Outro "artigo" do código de conduta seria a proibição de qualquer tipo de roubo entre vizinhos. Estupradores não tinham vez. Caso fossem pegos eram levados diretamente para o tribunal do tráfico. A sentença era a morte. Havia uma sala que ninguém sabia onde, conhecida como sala da "maquita". Ouvi histórias de pessoas que entraram lá para serem julgadas e condenadas e voltaram aos pedaços em sacos plásticos.

Recém chegado nesse lugar, meu primo sabendo que eu havia trabalhado em farmácia durante muito tempo, pediu-me para que fizesse um curativo na mão de um vizinho, amigo dele. Após todo o processo de assepsia e curativo sentamos à mesa para comer uma bandejada de peixe frito. Papo vai, papo vem, aquele senhor, nordestino, pedreiro forte começou a contar seus feitos. Simples, trabalhador, do tipo que não leva desaforo pra casa. O caso que mais me chamou a atenção foi como ele e seu compadre armaram uma emboscada para matar um "mala" que já havia matado algumas pessoas do bairro. Moradores da rua que seria o palco para o desfecho foram avisados com antecedência para que se recolhessem e não abrissem as janelas de suas casas em hipótese alguma. Outros duas pessoas, num total de quatro, fizeram parte do esquema. Uma pessoa numa esquina com chapéu na cabeça dava o sinal (abaixando seu chapéu) para um segundo que faria uma abordagem natural, tempo necessário para os dois compadres entrarem em cena para a cena final. Quando este segundo membro vira as costas chegam aqueles que acertariam as contas. Já cientes de que seu algoz, hoje no papel de vítima, não estaria armado, encurralam-no numa parede. Vieram de pontos diferentes impossibilitando que ele corresse para qualquer lado. Foram mais de 30 tiros e segundo relatos deste senhor da mão ferida, que eu acabara de cuidar, o cara ainda conseguiu se sentar no asfalto. O golpe final e brutal seria um bloco de concreto arremessado em sua cabeça.

Um jovem de 17 anos conhecido como Rubão, pessoa amável mas que praticava assalto. Almoçou várias vezes na minha casa. No seu aniversário de 18 anos, período em que eu trabalhava como representante de uma marca de energético importado, dei-lhe 2 desse produto para que festejasse. Ele dizia que as pessoas não acreditavam que ele duraria até a maioridade devido ao alto grau de perigo que se arriscava nas aventuras de roubo, enfrentando outros criminosos e também a polícia. 15 dias após seu aniversário chega a notícia de que ele fora pego com mais 3 colegas. Roubaram um banco mas havia gente que sabia do esquema do roubo e a ROTA (PM) estava na espreita. Bandido traindo bandido. Assim que eles saíram com o produto do roubo foram cercados e alvejados de tiros. Rubão, segundo relatos, sozinho conseguiu levar mais de 40 tiros. Seus braços chegaram a ser arrancados. Enfim, o que era a vida ali, naquele lugar?

No trânsito em SP. No auge de meus problemas, já com grandes perdas das figuras mais importantes da minha vida (meus avós maternos), a paciência e a calma não passava nem perto da minha lembrança. O trânsito da capital paulista não é apenas carregado pelo excesso de veículos. Existe um clima de tensão, medo, intolerância que ao menor do descuido pode ser fatal. Já fadado pelo estresse, pra não dizer desorientado, comecei a carregar um cabo de machado dentro do meu carro uma vez que se eu tivesse arma de fogo o resultado poderia ser ainda pior. Uma única vez passei por um desentendimento com um motorista de ônibus. O folgado não  me deixava entrar em sua frente e quando eu diminuía a velocidade ele também o fazia, impossibilitando de ficar em sua traseira. Numa brecha, acelerei o carro, passei à sua frente, parei o carro atravessado, abri a porta e desci. Cego de raiva, fui caminhando em direção ao ônibus (mas sem o cabo de machado). Chamei o motorista para fora. Xinguei-o de formas carinhosas que nem dá pra escrever (rs), sem contar os acenos. Ele não desceu, Graças a Deus. Não seria a minha hora de partir, nem tão  pouco a dele. 

A figura paterna na minha vida ressoa de várias formas. Meu pai, Derci, foi o famoso "herói e bandido". Nossa relação não é das melhores. Somos ausentes. Basicamente ele não sabe nada do que penso ou do que sinto. É uma ferida incurável. O que posso resumir de nós dois está no blog, com uma pasta somente de coisas que escrevi a nosso respeito. O mais marcante é "Doce Abandono". Dele, eu levo a experiência daquilo que eu não gostaria de me tornar: um ausente na vida de meu filho. 

Por outro lado, tenho em meus avós o exemplo de família, união, companheirismo, amor sincero mesmo diante das dificuldades. E é com essa simplicidade que procuro impulsionar minha vida e solidificar minha fé. 

Minha mãe, Claudete, considero uma pessoa guerreira, sofrida e também difícil de se entender, mas que está sempre pronta ao nosso lado. Nos acompanha, de perto ou de longe. E, por mais que não possa fazer ou dizer nada que melhore algumas situações adversas, o importante é saber que ela está ali.

Posso dizer que tenho muito mais dos meus avôs e avós que propriamente de meus pais. Tenho vários escritos que retratam um pouquinho de cada um desses quatro pilares da minha existência. Um, em especial, chama-se "Não aprendi dizer adeus".

Particularmente carregava uma certa dor de culpa, por não estar próximo de cada um deles, quando a vida lhes chegou ao fim. As lembranças são fortes e marcantes e não teria como retratar aqui. Hoje, mais maduro, entendo que nada do que estou vivendo seria possível se, naquele ano de 2000, numa noite fria e estrelada de junho, viajando madrugada adentro rumo ao sonho da conquista da cidade grande, entre móveis e esperança, deitado sob um colchão na carroceria de um caminhão, eu não tivesse ousado correr o risco de um futuro incerto ou promissor, ao qual hoje definiria como sonho. O futuro chegou e muitos sonhos também.

E pra finalizar deixo aqui duas estrofes de uma música de minha autoria que retratam tempos idos, tempos de agora e tempos que virão:

"Busquei meu motivo para viver
Descobri que nasci pra fazer
Não pra sentar e assistir a história acontecer"

"Sigo nos passos do Criador

Que abriu os braços e morreu por amor
Um destemido e sofrido que não se calou"

Música: Ideologia Santo Jovem - 1998

Ailton Domingues de Oliveira

domingo, 16 de novembro de 2014

Chamas eternas



Deixarei na ordem de teu nascituro
A lembrança perfeita em pedaços de letras
Sobre tua eterna chama que me acendestes
Daqui levarei um caminho duro
Cegarei meu olhar diante daquilo que não vejo
Enxergarei além do que as vistas alcançam
Nascerei no raiar do teu olhar
Mesmo que para mim só restem eternas noites
Aquecer-te-ei com a mesma chama que incendiaste meu coração
Mesmo que o gélido tempo já tenha congelado minha existência
Ainda assim, o vermelho dessa história
Será eterno em nossa memória
Nem mesmo o tempo
Nem mesmo o espaço
Não haverá obstáculo
Nem muralhas, nem portões
Pois nada impedirá
Nada findará
Nem mesmo a morte
O fogo eterno do amor
A chama de nossa paixão
Que nossas almas eternamente viverão

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Pensamentos em deserto



Na preguiça do pensar,
Só me resta o pensamento
Tudo me cerca, eu me cerco
Tudo me cega, eu me cego

Sou de outro mundo, de outra galáxia, qual?
Sou de mim, sou de tu, sou de nós, sou de vós
Sou verbo, sou ação, intransigente,
Sou, sei lá, entende?!

Rebusca-me o pensamento
Visões são o tormento
Estou embriagado com o exagero
Estou desanimado com esse desespero

O frio é solitário, neste deserto vazio
A plateia é gélida, de graça sombria
Os aplausos são máscaras
Os olhares são lápides

Estou morrendo aos poucos, esse é o problema
Sem a pergunta, busco uma resposta para o dilema
A construção com a qual se preocupam é a da aparência
Enquanto aos poucos extinguem com a essência

As lutas que travam são pela posse, pelo poder
Enquanto sufoca-se a possibilidade de ser
Erguem-se superficialidades, muros, muralhas e mansões
Derrubam-se pontes e não se constroem relações

É o mundo, imundo, mundano
O profano sem sagrado e o sagrado no profano
Uma engrenagem mecanicamente viva
Permuta diária pela sobrevivência típica

Selva de humanos desalmados
Lobos solitários, vampiros e aloprados
Vou meter nas ideias um capacete
E sair por aí, tomar vento e sorvete

Deus me livre da maldição do protocolo
Quero minha vida de volta, sem culpa nem dolo
Corro pra longe dessa vida de concretos
Quero água, terra, verde, ar puro e céu aberto

Quero uma rede na varanda pra cantar ao som da lua
Uma fogueira pra aquecer e clarear, e trazer lembrança sua
Meu violão vai tirando ao fundo uma canção
São saudades, são verdades, alegria e solidão

Cantarei ao tom das lágrimas, ao poeta, meu profeta
Partirei em cada trem até chegar à estação certa
Quero a brisa, a vida plena, porto seguro pronto e certo
Quero a paz em abundância no silêncio do meu deserto

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Água, Catolibã e Quengas


"ÁGUA"
Apesar de todas as informações veiculadas até agora sobre a escassez da água e da importância de economiza-la, ainda tem gente que lava a frente de sua casa e o quintal todo dia. Se faz isso às claras imagina como é o desperdício lá dentro!!! Aquela velha máxima de que brasileiro é assim mesmo (folgado?!) já era! A questão é querer entender a situação e colaborar economizando, coisa que qualquer ser humano de bem não precisaria de esforço algum para tal consciência. Mas, infelizmente a "educação" e a "cidadania" não atingiram esse nicho de placentas, digo, placentas mesmo porque a criança deve ter sido deixada na maternidade. (18/10/14)



Catolibã, você sabe o que significa e o que representa?
É um dito católico que bate no peito, esboçando autoritarismo em sua fala, a demonstrar que é único e talvez o último modelo de cristão. Todos devem imitá-lo, muito mais que ao próprio Cristo. Esse é um dos seus desejos mais enrustidos. Não liga a mínima para os pobres do Evangelho. Endeusa loucamente a estrutura da igreja e por tal é capaz de fazer horrores. Pelas estruturas, que são amarradas pela hierarquia, defende com veemência a burguesia em qualquer instância. Diz que é contra o capitalismo mas defende governos que vivem do consumismo. É contra qualquer projeto social que beneficie a classe que vive à margem da sociedade. Tem um discurso cristão "lindo" mas é incapaz de pensar em igualdade para todos, principalmente se isso afetar o seu próprio bolso. Mascaradamente apoia partidos que vão contra o povo. Representa a elite futebol clube. Na verdade é um egoísta de mão cheia, muita fala e pouca prática. (09/11/14) 



Mais uma vez a tal bancada religiosa atrasando e atrapalhando o andar da carruagem. Os homens da fé - guardiões da boa conduta - ditando o que se deve e o que não se deve acontecer na sociedade. (Lembrando que, D. Doroteia - seriado Gabriela - era o maior pilar moral da sociedade de Ilhéus, porém teve um passado de quenga! - ficção). Eles são "os" caras - realidade [...] Seriam de Ilhéus tbem? (10/11/14)

Pensamentos na calada da noite



"Não dá pra ter saudade daquilo que não se viveu, apenas sensações, vazio, inquietude [...]" (12/06/14)



"Após a jornada, a perfeição; após a perfeição, a sabedoria... com o tempo, no tempo, pelo tempo[...]" (25/09/14)


"Não quero um remédio nem um paliativo para amenizar a tempestade. Tudo é proveitoso. Até a desordem se faz necessária para que os móveis sejam reorganizados." (01/10/14)


"Se eu tivesse que escrever uma observação para explicar o sentido de cada escrito não teria sentido algum escrever. Cada um interpreta e dá a devida ênfase como lhe convir, a atenção ou o descarte segundo seu agrado." (08/10/14)


Antes de tudo


"Professor Mestre
Poderia dizer-lhe
o quão és inteligente
agraciado abençoado
dedicado humano
cristão
Mas para não estender em adjetivos
e por acaso deixar algum de fora
apenas lhe digo que
antes de tudo tu és um poeta
tens a leveza da brisa
e a força da tempestade
a dedicação de um pai
e a sensibilidade de uma criança
a arte de ensinar
com a profundidade do amor.
És um ser em extinção"

"Ao Amigo e Mestre, Gelson
Tome esta singela homenagem
Como sinal de respeito, admiração e gratidão
Por suas magnificas aulas 
Em forma contagiante de poesia viva" 

Companheiro Chico, estamos sintonizados!



Uma semana com algumas contendas, muitas oferendas (algumas que deveriam ter voltado pro mar), e uma lenda que virou realidade. Enfim um líder real, um Papa do Povo, para o Povo e pelo Povo! Francisco não se cansa de falar e pede que se repita para não esquecer nada: "Nenhuma família sem casa! Nenhum agricultor sem terra! Nenhum trabalhador sem direitos! Nenhuma pessoa sem a dignidade de um trabalho!" Óbvio que isso não agrada a quem enxerga aos pobres de cima para baixo ou como portal para suas caridades (e desde que esses pobres não tenham ascensão) ou como um encalço no calcanhar. O Papa não só vê e enxerga como também sente e congrega do pensamento do povo.

Mexer nas estruturas financeiras, nas posses, nas terras é algo que com certeza incomoda a burguesia. Neste caso, dividir não é uma boa operação matemática para os direitistas que veem a igreja de maneira arcaica: compram seu terreno no céu dando esmola aos pobres! E que haja pobres para que este terreno seja grandioso!

Francisco é discreto. Não é do tipo que perde tempo respondendo fundamentalistas e fanáticos via twiter, ou facebook. Ele é um homem sensato e de ações práticas. Sabe a que veio e tem a dimensão do peso de seu legado. Por mais que tenha um senso de humor invejável, quanto ao serviço não está para brincadeira. Dá a abertura necessária para o diálogo mas não se agrada com as manifestações que se fazem às escuras, o que demonstra sinal de uma instituição dividida ou em vias de deriva.

E foi justamente isso que o Cardeal norte-americano, Raymond Burke (66), insinuou em um de seus discursos, que a igreja nas mãos de Francisco é como um barco sem leme. Atos dessa estirpe são uma verdadeira sabotagem cultural e social, pra não dizer guerra de bastidores. O Papa sabe que por onde passa, há quem corra na frente para construir obstáculo que dificultem sua caminhada. Creio que ele não tema as ervas-daninhas e os espinhos que surjam pelo caminho, uma vez que seu podão está afiado. 




Mas, levando em conta que os conservadores estão com espaço para suas ações temperamentais cada vez mais restrito, isso significa que as mudanças para uma igreja acolhedora estão a todo vapor, quer eles aprovem ou não. O rebaixamento desse cardeal da linhagem conservadorista, devido às críticas que fez contra as reformas na igreja, foi um golpe "fatality" no orgulho da ala esquisita. Os pilares da arrogância e da prepotência, que se camuflam de lei, foram abalados.

Enquanto os pseudo-doutores da instituição se preocupam com suas ornamentações e leis, o Papa tem-se esvaziado das honrarias de seu cargo, se fardado de trabalhador e saído à campo para a lavoura. Sua militância tem ultrapassado os muros do Vaticano. Não é apenas um mero discurso de cunho cristão. Francisco é muito mais! É um interpelo social, político, econômico, cultural que vem em forma de luta e pela defesa da dignidade de todo ser humano, principalmente dos que estão esquecidos pelas leis dos homens. Chico, eis um homem que se comunica por exemplos.




O conservadorismo que endeusa as estruturas da instituição tende a acabar. Acredito que junto com a falência desta ala, não das pessoas mas sim do pensamento que os isola num patamar diferenciado do povo (e os fazem sentir-se mais cristãos que o resto), será paralelamente o renascimento de uma igreja ainda mais cristã (nos moldes do Evangelho de Cristo) e o nascimento de uma nova geração estruturada numa fé prática, de mãos na massa.

As contendas ainda existirão mas sigamos o exemplo dele cortando o mal pela raiz e assim isolamos todo discurso fadado de fundamentalismo no reduto de sua insignificância. As oferendas, se forem de coração e com a intenção de mudança, que sejam bem vindas, caso contrário que voltem pro mar. E como este legado papal já saiu do viés lendário, pois é uma realidade mística e verdadeiramente cristã, eis a hora de abrir portas e janelas para que o novo ar adentre pelas estruturas de cada ser e de cada coração, de cada templo e pelas veias da instituição.

Valeu companheiro Chico!



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Em reconstrução!



EM RECONSTRUÇÃO!

Seria o mesmo que manutenção? 
Talvez

Seria então uma nova construção? 
Também

Seria na verdade
antes de qualquer coisa
uma desconstrução

um desarrumar
um desorganizar 

um encontro necessário com o caos

Pois
a partir deste é que se busca a força

o combustível que o movimentará
para uma grande tarefa

 a faxina geral nos escombros da vida 

a dispensa das inutilidades
a arrumação

E por que não um mero deleite
ingênuo e seguro?

Eis a necessidade de se recomeçar
de um novo jeito

um novo marco zero
um novo presente

Não se faz uma construção em cima de outra 

sem antes dar-lhe os devidos ajustes e cuidados

Se necessário que se desconstrua até o alicerce

E diante do necessário
eis o inevitável
a bagunça
o cansaço
e também a dor

Derrubam-se paredes
mas jamais a lembrança

Desenham-se novas plantas
refazem as ornamentações
novos enfeites realçam o ambiente

É a vez da pedra 
embrutecida no tempo
é hora de ser novamente polida

Desconstruir-se é desvendar-se
desnudar-se
dar-se uma nova chance
com coragem e humildade
a certeza de querer chegar adiante

Sabe-se lá onde
Basta não ficar parado

Que se fique a experiência
a sapiência
a eloquência
a essência


sábado, 1 de novembro de 2014

O cerco e os cercados


Nascera um menino que fora capaz de mudar o mundo com seus ensinamentos. Foi filho, foi simples, foi mestre e com total maestria percorreu povos e povoados levando sempre uma palavra de esperança. Durante sua estadia neste mundo fora perseguido desde o seu nascimento. De tão humano chorou, sentiu dor, teve medo mas enfrentou sua difícil missão com obediência aceitando entregar-se à morte de cruz.

Na sociedade em que vivera, dominada por diversos grupos políticos e religiosos, sua maior missão era abrir as portas da vida aos excluídos, resgatar-lhes a fé e dar-lhes vez e voz. Tarefa ultra difícil num sistema hipócrita que facilmente condenava aos desafortunados pelo destino. Prostitutas, cobradores de impostos, ladrões, paralíticos, leprosos e outros endemoniados mais que viviam à margem desta sociedade excludente, eram estes por quem lutava e defendia.

Como todo sistema de governo, como todo modo de religiosidade hierarquicamente engessada a sociedade politicamente correta (e hipocritamente cega) fazia um verdadeiro cerco em volta de si. Colocava-se num patamar diferenciado, numa verdadeira redoma blindada, distanciando, segregando e condenando a toda gente "politicamente pecadora" que por acaso Jesus escolhera e acolhera. No centro deste cerco somente os homens e donos das leis. Não foi à toa que Sua opção era pelos sem opção alguma.

Dois mil anos se passaram e o que se percebe, aliás, o que se vê nitidamente sem precisar de esforço algum, é que o cerco ainda existe e cada vez mais os muros da exclusão se erguem rumo ao céu. Apegam-se às leis copiadas, mudadas, recriadas e deixam de lado a essência de toda a vida do Nazareno: a inclusão pelo amor. Deturpa-se a tradição e se faz uma interpretação ingênua, leviana e fundamentalista sobre os escritos da Bíblia. Usam as escrituras para condicionar a verdade ao povo de forma velada, persuadindo de forma inquisidora à permitir autonomia de pensamento, oprimindo à libertá-lo das amarras sociais. Eis o fato: condicionam a salvação como exclusividade de quem supostamente vive nos moldes ditados pela lei.

Não precisamos percorrer muito, basta adentrar os redutos da igreja e procurar saber o que algumas lideranças pregam. Será que o fundamento está na essência do amor ou na repetição da lei? Será que vale mais resgatar a vítima já excluída pelo sistema e trazê-la de volta à sua dignidade e à sua vida como um todo ou condená-la conforme as leis do tempo os seus atos, que por vezes são a última alternativa que lhe resta? Pois é, há líderes e líderes. Privilégio de conhecer pessoas de bem e o dissabor de cruzar com doutores da lei do meu tempo. Malafaia's, Feliciano's, Paulo's Ricardo's, dentre outros ícones que dão voz e força ao sistema excludente.

Numa dessas idas e vindas conheci e até participei do famoso "Cerco de Jericó", um evento que acontece em seio católico. O intuito é quebrar barreiras. O público é composto principalmente por carismáticos, simpatizantes e alguns desavisados de plantão que tiveram o senso crítico tolhido, os alienados. Há quem, ingenuamente, busca uma resposta neste evento e sem perceber o quanto lhe é imposto cede ao que lá se ritualiza em um jugo pesado e incerto. São várias explicações sobre o assunto mas não vou me ater a detalhar o que acontece lá. Para quem se interessar eis o universo internético para sanar a curiosidade ou se preferir que se confira de corpo presente e tire suas próprias conclusões.

Na primeira vez que participei confesso que fiquei assustado com algumas coisas que li no roteiro que se repetia durante todos os dias do evento. O que mais me impressionou foi quando a leitura que se fazia comunitariamente a uma só voz com todos os presentes, numa das linhas assim dizia: "Senhor Jesus, peço-vos que quebre as muralhas das doenças, sejam elas quais forem, principalmente o câncer, leucemia, depressão e AIDS, dependência do álcool, prostituição e homossexualismo; [...]". 

Bom, primeiro que prostituição é uma das mais antigas profissões desde o Egito antigo. Hoje podemos considerar como escolha ou em muitos casos a impossibilidade da escolha, em outras palavras, a necessidade real de sobrevivência. Então a reza deveria ser para quebrar as muralhas do sistema e principalmente a hipocrisia dos mantenedores desse sistema, que dificultam à pessoa uma opção mais digna perante e com a sociedade. 


Segundo que homossexualismo já soa mal simplesmente por seu sufixo, e apesar da ciência já ter provado e comprovado tal termo ainda insinua uma doença. O mais adequado para o estudo seria a "homossexualidade" mas é a "homo-afetividade" que está em evidência e é coerentemente aceita. Não aprofundarei no significado de cada termo. Manterei-me nas linhas da denúncia do que se faz em certos redutos cristãos e que hoje conota falta de informação e até mesmo discriminação.

Além do susto e da má impressão ainda tive um terceiro momento, o da preocupação. Ali presente estava uma pessoa em busca de algo. Literalmente assumido em sua sexualidade, um rapaz que não apenas trajava roupas femininas mas seu próprio corpo possuía tais características tão nítidas, no fundo, creio eu, buscava respeito, dignidade, espaço, aceitação, no ambiente religioso que certamente crescera. O que passaria na cabeça dessa pessoa ao ouvir uma comunidade recitando tais palavras? No mínimo, decepção, tristeza, rejeição e todas as consequências possíveis para toda a sua vida.

Hoje posso concluir muitas coisas diante do que vivenciei e experimentei. O Cerco de Jericó teve um motivo para ser criado. Porém, como tudo na história tende a mudar e tomar proporções inimagináveis, com este não fora diferente. O exagero e o fanatismo, por mãos ultra-fundamentalistas, tomaram as rédeas da situação e o distanciou do real objetivo de sua concepção. Passou a ser muito mais um instrumento de exclusão e segregação do que de cura e libertação. 

Constatado a ciência que "homossexualismo" não é doença, eis que uma voz no deserto é ouvida diretamente do centro do catolicismo. O Papa Francisco tem dado abertura ao diálogo e mostrado a importância de se respeitar cada pessoa em sua condição. Seu apoio à causa tem sido de grande valia principalmente dentro do cerco da própria igreja. Criticado pelos radicais que levam tudo ao pé da letra e aclamado pela maioria religiosa, sendo uma parcela de outras denominações e confissões, Francisco tem incomodado alguns segmentos em prol de se dar voz e vez aos sem opção alguma. 

Diante disso a necessidade de se refazer o circuito do Cerco é iminente. Continuar na mesma toada é que não pode e não deve. É preciso reavaliar todo o ritual uma vez que não passa pelo crivo magisterial. Mais do que isso, é preciso compreender acerca do cuidado que se deve ter para não construir muralhas ao invés de pontes, prisões à libertações, manipulação à autonomia do pensamento e liberdade. 

Em nossa sociedade é fácil identificar os diversos tipos de Cercos existentes, tanto os físicos como os sociais, os visíveis e os invisíveis. Não precisa de muito esforço para se concluir e obter um resultado. Chega a ser uma questão de lógica matemática. Uma vez que o cerco selecionou os certinhos da lei, quem não teve seu nome enaltecido na lista dos reavivados simplesmente fora segregado, excluído e banido sem saber para onde ir e vir e como complemento ao jugo ainda recebe olhares a apontamentos que lhe alvejam a alma. Em outras palavras, ficou cercado do lado de fora!
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