terça-feira, 28 de junho de 2016

Vou-me embora para Lótina


Vou-me embora para Lótina
Lá sou amigo de todos
Lá ninguém me conhece
Lá, só lá, impera o que não tenho
Lá não sou ninguém
Não tenho essa obrigação
Sou apenas eu
Sou liberdade
Sou coragem
Sou prosa
Sou vadiagem de pensamento
Me embriago em histórias
Me destorpeço dos sacrifícios
Me desapego dos mascarados
E me lanço sobre os poemas
Lá resgato minha memória
Desando-me na contramão
E embarco em qualquer estação
Vou-me embora para Lótina...

Pássaro ferido


Repousa em seu regaço
Pobre pássaro ferido
Que sob as asas que o sustentaram
Agora chora o canto da saudade
Teu alicerce desmoronado
Num tempo ingrato
Que lhe tira o esteio
E lhe devolve ao meio
A liberdade sem diretriz

Pobre pássaro ferido
Que se eleva ao horizonte
Tão menino e sem destino
Clamando respostas
Desconsola-se na miragem
Na perda de teu herói
E se agarra na história
Na sã memória que não se esvai
E faz seu tempo
Seu eternizado momento
De superação e bater de asas

Pobre pássaro ferido
Que nas asas do teu legado
O nome do teu herói será honrado
Se a vida lhe tirou o chão
Tuas asas os céus lhe darão
Chore a dor mas sorria o amor
Regresse e repouse em teu ninho
Não tenhas medo
E se preciso for
Refaça o caminho
Com sonho, fé e luta...

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O silêncio que precede...

O silêncio que precede...
A nota
É crucial, desesperador
Infernal, ostentador
É dele que brota
A entrada e o desfecho
Os arranjos e os arpejos
E aos ouvidos vem a alegria
Nas doces e suaves melodias
Dai-me o silêncio de cada dia...

O silêncio que precede...
A dor
É o impasse e o embalo
É o entrave e o gargalo
É o espinho da flor
Necessário quanto suave
Inquietantemente grave
Que eternamente perdura
Entre saudade, tristeza e amargura
Dai-me o silêncio da noite escura

Dai-me os silêncios
Os inocentes, os displicentes, os exigentes
Os destemperados, os mal-educados, os desesperados
Dai-me logo esta sentença, este presente
Só assim neste meu mundo
Tão imundo da sociedade
Entre notas e dores
Vou plantando tempo e colhendo flores
E sobrevivendo além das margens
Com esperança e coragem...

Convenção nos autos da praça II


Ela rasga de cima a baixo o véu azul, que se descortina sob os raios do sol, em movimentos transloucados, desgovernados e desinibidos. Em rasantes manobras audaciosas, com suas cores que a muito representa, de porte pequeno e velocidade não controlada, ela caça e corre, adormece e enlouquece no ar. É a pipa na mão do garoto que leva seus sonhos no mais alto dos céus no imperativo silêncio que não se corrompe frente aos devaneios sociais que o circundam na praça.

As tribos se encontram como de costume. Hoje porém não tem futsal descalço. A turma que se encontra no espaço fitness está maior e com isso as conversas são mais gritantes bem como as músicas e os subgrupos. Caras e bocas para as selfies que eternizam os instantes.

Hoje tem mais gente dormindo sobre os bancos de pedra. Gente uniformizada que aproveita o tempo do almoço para um cochilo. Os caras da maconha não se intimidam com os pedestres que cruzam a zona franca da praça e continuam em seu ritual enfadonho de tragar, tossir e expelir. Há outros mais tímidos que, acompanhados de um pitbul com focinheira e seguramente amarrado, espero, disfarçam o momento ímpar de fugir daqui em tragadas no baseado.

Uma mãe leva seus três filhos para casa. Ela consegue segurar na mão de dois e o terceiro, o maior, segue ora do lado ora atrás. Há um silêncio que perdura nessa caminhada. Ela aparenta cansaço e ao mesmo tempo atenção para com suas crias. Instinto de mãe.

A tribo dos exímios filósofos do álcool é fiel em seu templo, um espaço já marcado por sobre a grama. Ali ninguém, que não seja desvairado e descomprometido com a vida, pode se achegar. É um recanto para poucos. Eles são telespectadores diante da correria mundana e prostituída que nós protagonizamos. O líquido que desentorpece corpo e alma nunca falta. Preferem o ópio do álcool ao ópio da hipocrisia social. Lá esses são livres.

A solidão também impera em alguns bancos de monólogos pensadores. Pessoas com fone e celular que fogem do tempo, das obrigações e dos problemas ao som das batidas musicais. A música está em todo canto. É necessária. Cada qual com seu estilo e gosto. Ela transcende dimensões, revigora, proporciona reflexão e esperança. É sagrada, principalmente, quando a solidão é a única companheira durante a travessia no deserto.

A praça é uma zona de paz e guerra. Pessoas em paz com as outras e pessoas em guerra consigo mesmo. A vida é paz. Ou guerra, talvez. A violência social ocorre primeiramente no olhar, depois no coração e depois com as mãos. O cenário pode ser visto sob as duas ópticas. Depende qual lado você está vivenciando quando adentrar este cenário...

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Convenção nos autos da praça


No acordar do meio dia eles já se colocam a postos em suas trincheiras. Levam seus baixeiros, bornais, mantas e outros apetrechos e estendem sobre a grama da praça. Em seus cantis estão o líquido da misericórdia. Derivações do álcool, das mais concentradas possíveis. À margem do último subnível das mazelas sociais estão as personagens mais destiladas possíveis. Entorpecidas desde sempre, celebram o prazer de não ser ninguém.

Em outra margem, no que restou de uma quadra de esportes, num canto qualquer desta praça, os garotos disputam uma partida fundamental de futsal. Cada jogo é como uma disputa pelo título de um campeonato mundial. A maioria ali chegou após o apito final da escola avisar que a aula deste dia enfim encerrara-se. Alguns ousados desbravadores conseguiram cabular as últimas aulas e desfrutaram mais de seu tempo neste reduto para poucos. Outros ainda, sequer compareceram à escola. Optaram pela quadra da praça. 

Um casal de namorados trocam carícias sentados num banco sob a sombra das grandes árvores. Cena incomum para os dias de hoje. Estão desprovidos de tempo e cegamente tranquilos no cenário que também protagonizam. Eles conversam, se olham, se beijam e o universo para em seu mundo avermelhado de paixão. O único barulho que escutam é dos descompassados corações vibrantes. Nem mesmo o mau cheiro da mistura de maconha que segue carregado pelas rajadas leves de vento é capaz de roubar-lhes a atenção.

Aglomerados noutro pedaço desta praça, num espaço fitness para jovens, adultos e idosos, estão meninos e meninas que, pelo visto, encontram-se sagradamente na mesma hora e local todos os dias após a aula. Papos retos, músicas de celular, muita conversa alta e a necessidade ímpar das relações dessa idade. Estar ali, aparenta estar entre os melhores da turma, os seletos, os mais-mais. Deste grupo, possíveis futuros casais, com certeza, se formarão. Impera no momento as amizades das quais algumas poderão entrar no rol das verdadeiras e eternas.

Na praça não existem flores. Apenas o verde das gramas e das árvores. As maritacas e outros pássaros dividem o topo dos galhos quando não rasgam o baixo céu. O que destoa é o barulho infernal dos motores e seus rastros de fumaça. Nada mais incomoda tanto que a pressa dos motorizados que ignoram todas as regras sociais e as leis que os monitoram. Por isso, prefiro a praça com seus diversos grupos, principalmente o dos mestres e filósofos que agem segundo o único líquido que os mantém sóbrios e protegidos da sociedade: o álcool.

Porém, esses assíduos oradores da praça, nobres e desprovidos com o politicamente correto, são inúteis para todos, para o sistema, para nós. Não passam de pobres desgraçados pela vida. São desprezíveis para as religiões. "Deus, no mínimo, os castigou severamente por estarem aonde estão neste momento. Estão colhendo o fruto de suas escolhas, com certeza...", dirão os hipócritas da fé, da moral e das leis. Há quem pague a passagem para outras cidades, só para não os verem na zona da praça.

Não vejo a vadiagem entre essas distintas pessoas. O que vejo são histórias regadas de derrotas, impressas em olhares e com cicatrizes pelo corpo. Estar aqui neste mundo deve ser um tormento. Acordar e ver as caras de paisagem que ofuscam a natureza ao seu redor é também um martírio diário. E assim caminhamos nós por entre praças. Que não nos falte o líquido do livramento da hipocrisia e do ópio social, pelo amor de Deus!

Nota: VTC


"As pessoas passam por cima de princípios básicos quando o assunto é partidário. Não importa se o cara fez apologia ao crime. O que importa é que as palavras proferidas, que de fato são uma insana violência verbal, foram desferidas contra uma pessoa que está num partido que você, persona inteligente, não aprova. O certo e o errado há tempos já não fazem mais sentido nessa sociedade. Vale a legenda que o parlamentar ocupa e as asneiras que ele julga defender. Todos devem pagar pelo seu erro, sem sombra de lado ou de partido. Não adianta tentar desqualificar o erro apontando que outros cometeram sandices. Cada um assuma a sua conta, se for homem e mulher para isso! Vejo cada babaca sem noção defendendo as legendas acima de qualquer valor humano que chega a dar nojo! Vontade de mandar tomar no CU!"

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A morte como um fim não-trágico


Fim.
É para onde segue o caminhar.
Começamos a morrer desde o primeiro dia de vida.
Data incerta, longínqua talvez.
Encarar a morte não é abrir mão da vida.
Não é sentar-se e esperar pelo golpe final, o último suspiro.
É apenas ter consciência de que um dia partiremos.
E "morrer desde o primeiro dia de vida" não sugere desfeitos.
Não é abrir mão da sensatez, das boas relações e da própria vida.
O trágico seria não viver bem e então a morte seria sentença ou uma libertação.
O trágico da morte seria um fim antecipado, causado por uma escolha mal feita.
O trágico da morte seria perder as chances e oportunidades, quando a vida lhe é tirada a força.
O trágico da morte seria perder a vida sem ter morrido...
Pensar a morte já não assusta tanto.
Que seja leve.
Talvez o porvir, senão pela óptica da fé para sustentar a esperança, é que causa questionamento e medo.
Acreditamos em alguma coisa. 
Nos apegamos a essas gotas de esperança que precedem a nossa existência.
Caminhamos para um fim, uma passagem que nos levará de volta...
Teses?
Não!
Pensamentos livres e desprovidos da necessidade doutoral e medieval.
De tudo, quero estar apenas certo de que vivi a vida em vida...

Quando a luz se apagar


Quando a luz se apagar
Eu quero levar a certeza
Das histórias, somente
E, de pronto numa estação qualquer
Vou adentrar na embarcação
E entre lágrimas e sorrisos
Jogarei flores pela janela
Pensarei em cada lembrança eternizada
Na saudade que ficará pela distância
No vazio que se seguirão os dias
Longe de tudo e de todos
Rumo ao desconhecido destino
Talvez nem meu nome será necessário
Talvez nem lembrado serei de onde vim
Talvez... tudo não passe de ilusão
Ou de sonho, ou apenas vida e morte
Eu quero estar no para-sempre
Dos meus amigos, tão poucos e tão loucos
Tão longe e tão presentes
Tão autênticos e tão diferentes
Quero estar no sorriso dos meus entes
Quando a lembrança louca assombrar os seus dias
Quero estar nas linhas das minhas confissões
Que tanto enigmatizei em vida
E que a partida,
Que já nos acomete em cada dia dessa lida,
São pétalas que deixamos pelo caminho
Há quem deixe apenas espinhos,
Há quem se lamente pelo caminhar sozinho,
Eu, quero apenas, ficar no amor
Dos que sempre amei...


quinta-feira, 16 de junho de 2016

As noivas de Lótina


Antes, porém, da penosa viuvez estabelecida
Em que todos os sentimentos foram decapitados
Viviam harmoniosamente a intensidade do amor
As noivas desposadas daquele reinado
A fidelidade eterna ao coração aguerrido
Este que fora único e voraz
Em seus poucos longos anos vividos
E somente ele libertar foi capaz
Um mundo dentro de outros tantos
Um cavaleiro indomável
Histórias desentrelaçadas e prantos
E uma personalidade amável
Foi assim nestas longínquas terras
De passado tão presente e saudoso
Onde o amor fazia sua guerra
Ninguém perdia ou saía vitorioso
Este coração de sentimento alado
Que nascera para viver nas alturas
Não entregou seu sangue derramado
E somente a chama de seu corpo perdura
Foi assim, entre brasas e ausências
Como folhas levadas ao vento
Que a partida eternizada na essência
E as noivas se entregaram ao tempo...

quarta-feira, 15 de junho de 2016

"Amor é prosa, sexo é poesia"


Aos desavisados de plantão
Às puritanas de ocasião
Que não se espantem 
E do bom sentido não se privem

Nem banalização do amor
Tampouco vulgarização do sexo
Nem quebra de pudor
Tampouco sentimento desconexo

Completudes que transcendem pensamentos
Insensatez tão lúcida quanto a lua
Almas que irradiam sentimentos
Na cama, na grama, na trama tão nua

Alquimia tão profunda quanto a noite
Entrelaces de regras desprovidos 
Olhares que atingem em açoites
Desejos inocentes explodidos

No suor das carícias desmedidas
O sórdido avanço se obscena
A incoerência das velas derretidas
E a luz que se ofusca em cada cena

Tempestade de um tempo irrequieto 
Fotografia imaginária em cada ato
Desnudam-se os desejos mais secretos
E perdura a química desse deleite insensato

Esse dueto que transpira tentações
De intenso é tão sagrado quanto profano
Delicadezas eloquentes dos sertões
E o sexo tão quente quanto insano

Amor é prosa, sexo é poesia
De dois corpos em êxtase plenificados
Amor de alma e pele tem magia
Na infinitude de um romance retratado...

terça-feira, 14 de junho de 2016

Sob condicional


"Se?" Sim. Se, caso, contanto que, salvo se, a não ser que, desde que, a menos que, sem que, etc são conjunções subordinativas adverbiais condicionais, ou seja, aquelas que ligam duas orações, sendo uma delas dependente da outra. A oração dependente, introduzida pelas conjunções subordinativas, recebe o nome de oração subordinada. As conjunções condicionais no caso introduzem uma oração que indica a hipótese ou a condição para ocorrência da principal. Nossa! Uma palavrinha pequena - "se" - expressa tanta coisa!

Mas para que tudo isso? Simples. Apenas para falar das questões condicionais de ordem religiosa que, através das leis que regem os bons modos e os costumes da fé propriamente dita, implicam diretamente na conduta "condicionada" de cada indivíduo promovendo-lhe a salvação ou a condenação. Ou, em outras palavras, a alienação e a libertação, respectivamente.

A visão que a estrutura religiosa mantém é que as pessoas só terão a salvação "SE" agirem conforme a instituição dita. Agindo sob a tutela da santa e pecadora igreja estaremos libertos e salvos. O contrário disso seria a condenação, ou seja, o sentenciamento ao fogo do inferno.

Mas, podemos também pensar de forma diferente. Levando em conta a diversidade de dons, carismas, o livre arbítrio, a espiritualidade e a própria fé, as condicionais que a instituição nos dá nem sempre valem como fonte de libertação e possível salvação. Salvação esta que configura ter direito ao Reino dos Céus. Penso até que a frase de Agostinho de Hipona (Fora da igreja não há salvação!) ao longo do tempo foi muito mais usada para exercer uma pressão psicológica e medo sobre os fieis, do que para mostrar um caminho de salvação através do amor e da caridade. Não só foi como ainda continua sendo usada dessa forma deturpada e bem longe da essência ao qual foi pensada e sentida.

"SE" a estrutura condiciona para salvaguardar o direito à salvação, "SE" ela impõe critérios vários para garantir aos fieis a sua entrada ao Reino dos Céus, automaticamente e na contramão, está criando mecanismos que impossibilitam a liberdade individual e, assim sendo, alienando os fieis. Muitas vezes a mensagem salvífica é transmitida de forma deturpada e o que era pra ser fonte de libertação torna-se um aprisionamento através da cultura do medo. E pessoas com medo de questionar a estrutura tornam-se escravas.

E, novamente utilizando a própria "condicional" sempre manifestada pelos cristãos de carteirinha, onde afirmam que só serão salvos aqueles que cumprirem o que a igreja diz, "SE" a instituição trabalha a salvação através da cultura do medo, ela está promovendo a alienação. Então, implica-me profundamente que, agindo e atuando descarregado de certas regras institucionalmente religiosas, conforme o livre arbítrio que me fora legado, consciente da minha fé e da mensagem cristã que é o amor-caridade estarei promovendo a minha libertação e também galgando o caminho da minha salvação. Condenado está aquele que se permitir ser acorrentado pela doutrinação desmedida.

sábado, 11 de junho de 2016

Das almas inquietas


A poesia me permite rezar sem nada dizer. Ela me permite também contemplar o místico do mundo. Viver uma espiritualidade libertada de amarras e libertadora por si só. Posso com ela questionar os doutos da fé ou de qualquer outro sistema e contrapor suas metáforas desvairadas. Apesar do risco da medieval excomunhão eterna dada pelos homens do poder religioso, que se consideram no direito de fazê-lo, e acreditam que são detentores da verdade absoluta, e que este poder lhes garante a dádiva de salvar ou simplesmente condenar a quem contrapõe suas ordens, apesar desses pesares eu assumo tais riscos diante das minhas escolhas.

Perguntaram-me se me tornei ateu ou se briguei com a igreja. Nem "a" nem "b". Continuo cristão. Porém, não compactuo com alguns critérios do sistema institucional, tampouco deixo de manifestar meus pensamentos por conta das classificações que podem me dar. Geralmente quem se encoraja para aplicar algum sermão desmedido e sem fundamento apenas repete o que ouviu algum dia. Nada que possa me colocar numa fogueira santa ou num apedrejamento em praça pública.

Viver a inquietude de não se contentar com as coisas impostas é algo para poucos. Não significa estar "de mal com a vida". Pelo contrário, o gosto da vida sem a imposição das suposições condicionadas é melhor e mais apurado. Questionar o inquestionável e ser taxado de subversivo ou herege é um mero preço pela liberdade do pensamento. Minha auto libertação não depende das mazelas regradas pelos homens e seus sistemas entorpecentes.

Quem vive feliz na submissão, sem questionamento, e obediente às regras, se é o que há de melhor para si, que continue. O livre arbítrio deve realmente ser levado ao pé da letra.

Do mais, posso apenas reafirmar que Jesus foi um cara inquieto, subversivo e considerado um blasfemador, pois sua luta foi contra um sistema religioso e político que oprimia as determinadas classes de pessoas, as grandes mazelas excluídas pelo poder.

Outro cara, acusado de ateu por sua liberta forma de pensar, e inquieto em seu tempo, que até hoje nos ressoa com sua ousadia foi Nietzsche. Os puritanos, os tradicionais e os radicais com certeza estufarão o peito para gritar palavras de ordem, em nome de sua arcaica fé. Afinal, classificar Jesus Cristo e o filósofo Friedrich Nietzsche como pessoas inquietas pode ser uma mega heresia. De qualquer forma o pensamento é livre e cada um tem o seu.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Das saudades de antigamente ao horizonte das utopias


No final dos tempos
Todo o passado será memória
E não passará de um saudoso antigamente
Nem dinheiro, nem sucesso
Nem metas, nem aquisições
Nada terá valor
Nada trará de volta o tempo
Restarão apenas lembranças
E lembranças de relações
Nenhuma tecnologia será capaz
De satisfazer a sensação do bem vivido
Nenhuma imagem estática
Ou em movimento
Saciará o vazio
O que perdurará de bom
Estará na caixinha do sentimento
Viver a vida sem prazer
É desconhecer a que veio
É estar distante do sentido da existência
Minhas saudades de antigamente
Estão enraizadas no lado bom do peito
E arquivadas na memória viva dos meus dias
Não me cobro das obrigações impostas
Eu cumpro meu papel com zelo
Mas vivo além do que a aparência me permite
Nessa contramão de todo o sempre
Apenas observo o que ninguém enxerga
Nos detalhes de cada olhar
Eu me reencontro aprendendo
Sigo nesse deserto de tédio sem ópio
Esperanto um horizonte eterno
Que por tal só é belo e inspirador
Em seu cenário e além
E nunca uma linha de chegada
Na utopia dos meus dias
Contemplo a pequenez das coisas simples
Me farto de boas prosas
E me empanturro de sonhos sórdidos
Vivo a demência dos meus atos
A inquietude dos meus pensamentos
E a certeza louca de não ser normal
Afinal, jamais quis ser igual
Estou pronto!

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Letras e cachaças


No empório das letras
Encontrei um destilado
Tinha verso, tinha álcool
Era livre o pensamento
Era forte a dose única
O tempo que me fadigou
Libertou e escravizou
Cegou e duvidou
Creu e resistiu
Em cada gota de pensamento
Sem ópio e sem tormento
Era assim, natural
O suicídio da alma
Fadada pela existência
Foi libertada nas prosas
Nas doses entorpecidas de poesia
O sentimento prometido
De outras vidas descumpridas
Era intangível e falso
Recostou sua cabeça
No primeiro deserto de toda vida
Preferiu a facilidade das coisas prontas
A tecer em teias a história
E o que era pra ser derradeiro
Tornou-se passageiro
O destino incerto desses corpos
Nas letras misturadas
À poesia desse copo
Me saciem a sede
E me livre desses medos

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Se não há libertação não há salvação


Existe um ápice em que cada pessoa almeja um dia atingi-lo. É uma meta individual. E depois deste, outros virão. Novas dúvidas, novos questionamentos, novas metas, novos horizontes. Porque a vida é feita de conquistas. A maioria das pessoas pensa assim, almejam apenas as materiais. Alguns, que velejam na contramão, optam por conquistas nem tão terrenas assim, reservando-se ao glamour libertário de novos pensamentos apenas.

E o que a liberdade do pensar traz nem sempre está de acordo com as regras sociais, políticas e principalmente religiosas. Ousar pensar por si só, sem a tutela das santas hierarquias religiosas, é um risco grave que atenta contra as dezenas de regras institucionalizadas, estas que visam manter a ordem (ou as pessoas em seu devido cabresto), com enormes possibilidades de excomunhão e passagem direta para o inferno eterno.

Não que as igrejas e religiões são extremamente fontes alienantes, mas longe de serem o único caminho de salvação. Céu e inferno, salvação e condenação, eis as dúvidas que mais afligem os fieis. Toda a promessa e garantia de vida eterna é arquitetada em cima de pensamentos de grandes pensadores e doutores de nossa história. A mensagem deixada por Jesus pode ser resumida numa única palavra: amor. O resto é invenção humana.

E por falar em invenção humana todas as regras religiosas o são, principalmente quando deturpam o legado de "amor" deixado por Jesus e experienciado por grandes nomes da história mundial que lutaram pela dignidade humana com caridade e evidenciaram esforços para uma vida em igualdade. Para quem não segue as ordens à risca, já se auto-condenou. Não seria então, tais regras, apenas um mecanismo para manter os fieis sobre sua custódia religiosa e jurisdição espiritual, uma vez que, sendo a igreja detentora da salvação, fora dela a condenação estaria automaticamente imputada?

Se não há libertação não há salvação, eis um grande princípio que não se discute, tampouco se pratica. E o que as instituições e seitas religiosas fazem, em sua maioria, são manipular as mensagens e incutir um medo desmedido sobre os seus fieis. O medo gera o respeito e dá crédito à instituição. Enquanto houver quem tenha voz capaz de alienar as pessoas em nome de uma denominação, a verdadeira mensagem de salvação estará deturpada. E tenha consciência: isso não é pratica de "amor".

Roupagens e rupturas

"Fora da igreja não há salvação!" Segundo consta essa antiga frase foi pronunciada por Agostinho de Hipona, considerado santo e doutor pela igreja católica, e repetida ao longo dos séculos por outros nomes como por exemplo o papa Bonifácio VIII, no ano de 1312. O passar dos tempos manteve esse pensamento solidificado nas estruturas institucionais e deu base e força para muitos líderes agirem contra os que discordavam dessa santa verdade. Matar em nome de Deus nunca foi pecado na história, pelo contrário, sempre foi muito bem justificado.

A igreja em si não é a salvação. Ela pode ser um caminho escolhido para ser seguido, dentre tantos outros, até a tão desejada salvação. E todo o caminhar deve ser livre e proporcionar o rompimento das amarras que impossibilitam o crescimento de cada ser. Uma igreja que não promove a libertação está sendo alienante.

Se fosse apenas através da igreja que alcançássemos a salvação, o que aconteceria com tantas outras pessoas de seitas, filosofias, religiões distintas ou ateias? Afinal, sabemos, que fora da igreja existem pessoas "boas" e dentro delas existem pessoas "falsas". Portanto, o caminho de salvação é e deve continuar sendo individual. Não há regras celestiais para uma salvação garantida.

Tudo o que os homens tentaram justificar até hoje, no que tange a salvação eterna, foi a partir de uma experiência individual. Experiências individuais não refletem uma verdade absoluta para o coletivo. Cada pessoa terá um sentimento e um olhar diferenciado, sempre. Assim sendo, o caminho percorrido por um indivíduo não poderá ser o mesmo que garantirá a "salvação" de terceiros.

Somos livres. Isso é bíblico. É preciso respeitar a individualidade, a opção, a escolha de cada ser. Nascemos numa sociedade engessada por estruturas sociais, políticas e principalmente religiosas. Somos praticamente obrigados a aceitar e seguir sem questionar. Indagações são mal vistas. Opor-se ao sistema imposto é mal interpretado e quem o faz está sujeito a condenações várias, inclusive o fogo eterno.

O que se sabe até hoje, é que ninguém, até então, é detentor de uma verdade absoluta. Prefiro uma alteração no conteúdo do pensamento de Agostinho, pensada por um religioso espírita: "Fora da caridade, ou seja, fora do amor não há salvação". Será que vou poder continuar na minha religião após essa adesão de pensamento? Ou estarei fadado à condenação eterna por heresia?

E, das roupagens impostas, confesso, andarei nu, pois a ruptura se faz necessária. E mais, não é a igreja que salva mas as atitudes de cada um...

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Esquemas de salvação


Criaram cascas,
Criaram armas,
Criaram regras,
Criaram trevas...
Sim, os homens desta terra.
Coroaram deuses,
Elegeram o deus
Mas desconhecem a Deus
Institucionalizaram a fé
Inventaram modos
Escolheram-se a si mesmos
Como elegidos dos Céus
Promoveram guerras
Em nome da santa paz
Travaram lutas
Visando o poder
Terras, riquezas
E deixaram seu rastro
Devastação, devassidão
Morte e pobreza
Caos sobre a vida
E dentre as ordens 
É preciso respeitá-las
A desobediência leva ao inferno
Um inferno que os doutos desconhecem
E dentre os esquemas de salvação
Ousam pensar em nome de Deus
Tangendo e escolhendo os que lhes provém
Aqueles que submetem calados
Às morais, costumes e leis
A hipocrisia de cada dia
Tem o orgulho ferido
Quando indagada por quem desconfia
E quem não está do lado dela
Está banido para o além
Fadado ao ócio do fogo eterno
E se para fazer parte do esquema
É necessário empanturrar-se do ópio
Ainda prefiro abster-me desse cálice...
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