O sertão é o sozinho, é dentro da gente, está em todo lugar. Deus e eu no sertão.
domingo, 24 de agosto de 2025
Do vínculo ao vácuo
segunda-feira, 18 de agosto de 2025
As dores da existência
Qual é o seu lugar seguro?
sexta-feira, 15 de agosto de 2025
Anjo caído
Um dia, era pra ser apenas mais um dia
de passeio com o Kinzé e a Mel ao redor da quadra, mas na metade do percurso um
rapaz nos avistou e parou para falar sobre os cachorros. Sentou-se na calçada e
esperou nossa aproximação. Mesmo sendo cortês Kinzé e Mel não deram
confiança.
O jovem se levantou e começou a nos
acompanhar rua acima. Estava de chinelo, calça, camiseta e um blazer. Aos
poucos foi se abrindo. Contou que alguém o acordou dizendo para sair do sol.
Falou de forma poética sobre a importância do sol e da lua.
"Você sabe que os animais dão
mais valor na gente do que muitos da família?! Tenho certeza que eles te
protegem. Eles te amam, te respeitam. Eu tô aqui do seu lado porque eles sabem
que não faço mal. Se não, eles não iam deixar não."
"Eu sou um anjo caído. Tô na
decadência. Você sabe o que é decadência? Eu só tenho o sol pra me esquentar e
a lua pra iluminar."
Chegamos à esquina e aí começamos a
nos despedir. Eu seguiria à esquerda e ele continuaria em frente. "Obrigado,
muito obrigado pelo tempo, por ter me escutado. Não esquece, eu sou um anjo
caído. Decadência."
Só pude escutá-lo com atenção. E isso
fez toda a diferença. Silenciosamente só quis ouvi-lo e prestar atenção em cada
olhar, fala e expressão. Sua gratidão me trouxe um sentimento de inquietação.
Na verdade eu fiquei grato por esse encontro do acaso.
"Sou um anjo caído, não esquece!
Ah, lembra de mim quando estiver no paraíso. Você sabe quem disse isso
né?"
Caminhando com ele de uma esquina a
outra, percebia o olhar das pessoas ao notá-lo. Suas roupas sujas, seu jeito de
caminhar e sua pequena bagagem numa sacola de plástico chamavam a
atenção.
Mas, no fundo o que ele quis deixar
nessa mensagem? O que ele fez se sentir o anjo caído? Não tenho respostas, mas
sensações e sentimentos que me conectaram ao ser humano que caminhou ao nosso
lado por um quarteirão. Um anjo que tem o coração puro, sem maldade com toda
forma de vida, em especial a dos animais. Caído, tombado, derrubado, machucado,
esquecido, rejeitado, excluído e condenado pela sociedade. São muitas as formas
de pensar e sentir. Faço questão de me ater apenas ao tempo de sua presença e
isso já valeu a pena. Com certeza não dá pra descrever essa cena com as cores
que vi e vivenciei porque tanto a cena quanto as cores foram únicas e aqui
permanecerão vivas na história, na memória e no coração. Obrigado anjo
caído.