sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Anjo caído




Um dia, era pra ser apenas mais um dia de passeio com o Kinzé e a Mel ao redor da quadra, mas na metade do percurso um rapaz nos avistou e parou para falar sobre os cachorros. Sentou-se na calçada e esperou nossa aproximação. Mesmo sendo cortês Kinzé e Mel não deram confiança. 

O jovem se levantou e começou a nos acompanhar rua acima. Estava de chinelo, calça, camiseta e um blazer.  Aos poucos foi se abrindo. Contou que alguém o acordou dizendo para sair do sol. Falou de forma poética sobre a importância do sol e da lua. 

"Você sabe que os animais dão mais valor na gente do que muitos da família?! Tenho certeza que eles te protegem. Eles te amam, te respeitam. Eu tô aqui do seu lado porque eles sabem que não faço mal. Se não, eles não iam deixar não."

"Eu sou um anjo caído. Tô na decadência. Você sabe o que é decadência? Eu só tenho o sol pra me esquentar e a lua pra iluminar."

Chegamos à esquina e aí começamos a nos despedir. Eu seguiria à esquerda e ele continuaria em frente. "Obrigado, muito obrigado pelo tempo, por ter me escutado. Não esquece, eu sou um anjo caído. Decadência."

Só pude escutá-lo com atenção. E isso fez toda a diferença. Silenciosamente só quis ouvi-lo e prestar atenção em cada olhar, fala e expressão. Sua gratidão me trouxe um sentimento de inquietação. Na verdade eu fiquei grato por esse encontro do acaso.

"Sou um anjo caído, não esquece! Ah, lembra de mim quando estiver no paraíso. Você sabe quem disse isso né?"

Caminhando com ele de uma esquina a outra, percebia o olhar das pessoas ao notá-lo. Suas roupas sujas, seu jeito de caminhar e sua pequena bagagem numa sacola de plástico chamavam a atenção. 

Mas, no fundo o que ele quis deixar nessa mensagem? O que ele fez se sentir o anjo caído? Não tenho respostas, mas sensações e sentimentos que me conectaram ao ser humano que caminhou ao nosso lado por um quarteirão. Um anjo que tem o coração puro, sem maldade com toda forma de vida, em especial a dos animais. Caído, tombado, derrubado, machucado, esquecido, rejeitado, excluído e condenado pela sociedade. São muitas as formas de pensar e sentir. Faço questão de me ater apenas ao tempo de sua presença e isso já valeu a pena. Com certeza não dá pra descrever essa cena com as cores que vi e vivenciei porque tanto a cena quanto as cores foram únicas e aqui permanecerão vivas na história, na memória e no coração. Obrigado anjo caído.