quinta-feira, 17 de julho de 2025

Um dia depois



Acordei. E... a sensação é a de que poderia não ter acordado. Nunca mais... O mundo seguiria, as pessoas continuariam... Lutos e lutas, cada um a seu modo. Cada um a seu tempo. Mas o meu tempo poderia ter se findado... ali. A fração de segundos, ou milésimos, é o que nós temos a cada instante que precede o momento. E de repente, ao acordar, não tem como não pensar, rever a cena, cada ato que se desenrola nos instantes. Hoje, ao andar pelas ruas e calçadas, observo ainda mais os detalhes. Ao caminhar com meus cachorros, atento-me para seus passos, já lentos pelo peso do tempo. Ainda nos resta muito a viver, é o meu desejo. Mas, também tenho ciência de que o tempo do meu querer confronta com o tempo e as demandas que não controlo. Assim, cada dia é uma eterna despedida, ou melhor, cada dia se torna mais intensa a necessidade do viver. Viver o que há pra viver. E nesse dia de repensar, refletir, angustiar e sorrir, trago à memória lembranças, pessoas, sonhos, esperança e medos. Medo que confronta o meu viver. Medo de não poder estar. Medo de que poderia ter sido tragicamente diferente. Apenas medo... mas também um medo que me encoraja, que me liberta, me faz ter esperança, gana, força, vontade de continuar, dar o melhor, viver intensamente. Realmente, é tudo tão raro, tão único, cada passo pelas calçadas, cada aperto de mão, cada encontro, cada cuidado com quem se ama. A história, o desfecho, poderia ter sido outro, mas não foi. Então, não é mais o que me resta a viver, mas sim o que eu posso fazer para viver, por mim, por nós... Um dia depois... e a hora é agora. 

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Solo e dolo, segredos e medos



Dos descaminhos que se encerram nas estações
Sigo a viagem por trilhos em ritmo solo
Destino, acaso ou sina, meu dolo
Quando não lembrar que ouçam canções

Dos céus recaem sonhos em brisas
Dos meus olhos as lágrimas ecoam
Cortinas de ventos no tempo voam
E minha dor novamente canaliza

Dos mares atravessam segredos
O silêncio sussurra em minha alma
Das tempestades cicatrizam meus traumas
E no deserto da maresia se escondem meus medos


sábado, 5 de julho de 2025

Da descoragem à fragilidade: caminhar




A descoragem impetrada na alma
Quando não resta nem mais as sombras
Para um descanso de pós guerra
Angustia meus dias, aflige minha pele
Armadura fina, de sangue, carne e osso
Que sustenta mundos aos quais recaem
E respingam sobre o meu caminhar
Molham meus pés, ora de suor, ora de lágrimas
A dor não é dor, a luta não luta
Apenas sacrifícios exigidos de uma escolha
Perdoo-me do que não pude ser, fazer
Aceito-me em minhas duras imperfeições 
E é diante da fragilidade reconhecida
Que reencontro a força e a coragem
Para enfrentar, não a morte, mas sim a vida
Quando me desnudo de roupagens 
Que não mais me pertencem
Eis que ressurge imponente
A face da raiz de onde eu vim
Recobrando sobre o meu céu
Ressignificando o sabor amargo em mel
Alquimia de almas
Espelhos, reflexos, conexões
Sem razões de amor
Que para onde eu for
Memórias me farão voar
Histórias me contarão ao mar
E no coração dos meus
Eu hei de ficar, brotar
Em seus pensamentos morar