Acordei. E... a sensação é a de que poderia não ter acordado. Nunca mais... O mundo seguiria, as pessoas continuariam... Lutos e lutas, cada um a seu modo. Cada um a seu tempo. Mas o meu tempo poderia ter se findado... ali. A fração de segundos, ou milésimos, é o que nós temos a cada instante que precede o momento. E de repente, ao acordar, não tem como não pensar, rever a cena, cada ato que se desenrola nos instantes. Hoje, ao andar pelas ruas e calçadas, observo ainda mais os detalhes. Ao caminhar com meus cachorros, atento-me para seus passos, já lentos pelo peso do tempo. Ainda nos resta muito a viver, é o meu desejo. Mas, também tenho ciência de que o tempo do meu querer confronta com o tempo e as demandas que não controlo. Assim, cada dia é uma eterna despedida, ou melhor, cada dia se torna mais intensa a necessidade do viver. Viver o que há pra viver. E nesse dia de repensar, refletir, angustiar e sorrir, trago à memória lembranças, pessoas, sonhos, esperança e medos. Medo que confronta o meu viver. Medo de não poder estar. Medo de que poderia ter sido tragicamente diferente. Apenas medo... mas também um medo que me encoraja, que me liberta, me faz ter esperança, gana, força, vontade de continuar, dar o melhor, viver intensamente. Realmente, é tudo tão raro, tão único, cada passo pelas calçadas, cada aperto de mão, cada encontro, cada cuidado com quem se ama. A história, o desfecho, poderia ter sido outro, mas não foi. Então, não é mais o que me resta a viver, mas sim o que eu posso fazer para viver, por mim, por nós... Um dia depois... e a hora é agora.