segunda-feira, 1 de abril de 2013

Sabores, temperos e saudades




"Vóóó! Faz um viradinho pra mim?!"
Levantava-se "correndinho" e em menos de dez minutos estava já no prato aquele mexido com feijão e farinha, que só a Vó Cida tinha a arte em fazer. Receita que ninguém conseguiu copiar. O sabor do tempero ficou na saudade...

Domingo. "Nego, tira o "arroiz" pelos ladinhos porque o seu pai gosta de tirar ele mais soltinho por cima!" Onze horas da manhã já estava praticamente tudo pronto. "Não coloca limão na salada porque o Berto gosta sem tempero. Liga lá na casa deles que eu quero saber se eles vem pra comer aqui!" 

"Oi! Cêis vem logo porque senão a comida esfria!" Dois frangos refogados num sabor também inigualável. Uma baciada de macarronada e uma pratada de bifes ou bistecas. "O Derci gosta mais de frango, mas o Berto gosta de bife." Esse era o ritual sagrado de cada domingo. 

Caso alguém passasse lá durante a semana e fora de hora, em questão de minutos a mesa estava posta. Se fosse por volta das duas ou três horas da tarde seria um café feito na hora. Rapidinho ela corria até a padaria mais próxima e trazia pães e mortadela. Mas, se o relógio beirasse as dezessete horas seria uma jantinha básica com direito a uma carne moída fresquinha, batata frita para as crianças e uma coca-cola, sempre reservada na geladeira para momentos inusitados. Deixava as visitas lá e já corria comprar e preparar os comes. 

"Tem doce de côco na geladeira!" Era um dos poucos que o Vô Dito gostava... De poucas conversas, foi se abrindo mais desde que a Vó Cida se foi. Ambos, gostavam de músicas sertanejas de raiz, conhecidas pelo casal como "caipiras". Vó Cida sempre que podia escutava essas melodias que a instigava a dançar com sua  vassoura na cozinha. Vez ou outra ela tentava me ensinar mas além de achar muita graça não tinha então o gingado que ela esperava. Preferia a vassoura mesmo, que podia conduzi-la conforme o ritmo da música.

"Vó, dá dinheiro pra gente comprar um sorvete?!" Lá ia ela pegar umas notas, sempre guardadas em diversos lugares. Tinha até um copinho de moedas na prateleira da cozinha reservado para os netos. "Toma aqui! Traz um de côco pra mim!" Côco, era esse o único sabor que ela gostava.

Cada momento desses que ficou na dor da ausência tornou-se imortal na memória. Lembrança sagrada eternizada no tempo, no sabor de cada tempero e na saudade...

Ao redor da mesa, os netos mais velhos, eu e meu primo Kleber, aguardávamos as batatas fritas que acompanhavam um prato de arroz com feijão e carne moída. Tudo junto e misturado. Cada qual com sua colher partilhava no mesmo prato o sabor da simplicidade transformada na melhor comida do mundo...

Sabores, temperos e saudades... 
Por vezes, pensamos em dar aos filhos aquilo que não tivemos e esquecemos que crescemos e nos tornamos homem ou mulher em meio à simplicidade, ao amor, ao exemplo... e em família!...


"Eu vô dancá no arraiá feijão queimado
Eu vô dançá quadrilha do pé avermeiado!"
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