quarta-feira, 24 de julho de 2013

Humanos desalmados



O sentido da vida está bem longe de se ter um verdadeiro sentido para certos homens e mulheres. A busca por melhoras materiais e crescimento financeiro tornou-se uma verdadeira caça onde os fatos ao redor, as paisagens positivas ou negativas, não têm a menor importância ao valente perseguidor. Quiçá os outros homens e mulheres que aparecem por seu caminho.

Creio cada vez mais que quanto mais procuro compreender a razão maior da existência dos seres nesse mundo, para que a vida também possa ter uma explicação e um sentido além do palpável, mais me deparo com animais bípedes que no auge de sua ignorante inteligência é incapaz de sentir, respeitar, amar o que está ao seu redor, e muito menos praticar o que muitos hipócritas chamam de caridade.

Deparo-me constantemente com pseudo-cristãos que esquentam o banco das igrejas para "assistir" as missas dominicais e assim dizer que é católico praticante; outros (católicos e também evangélicos) que decoram as normas e regras da instituição, vivem com joelhos calejados e as mãos para o alto, sentenciam, determinam quem é digno de Deus ou não, excluem e, pior, esquecem de apenas praticar a ação do verbo contido nos dois maiores mandamentos, amar. Deparo-me com essa raça desalmada, seres racionalmente hipócritas, vergonha desumana, peso amorfo e inerte neste chão, acomodados que não movem uma palha diante de qualquer situação...

Diante disso a indignação toma conta frente a tanto egoísmo e a uma guerra de interesses entre as pessoas de todas as classes. Canalizar essa revolta e cuidar para que eu não seja simplesmente mais um a passar em vão por este mundo é uma tarefa diária. Não posso me conter! Não posso me calar! Sem utopia, sem poesia, muito menos demagogia mas gana de mudança! Terra, plantas, ar, água e todos os animais à mercê de um animal que se diz racional.

Manhã do dia 23 de julho de 2013. Uma senhora encurvava-se para verificar o que acontecia com o cachorro esticado na calçada na porta de sua casa. Os latidos eram de dor. Diminuí os passos para tentar entender aquela cena que numa distância de menos de meio quarteirão me proporcionava uma visão nítida. Voltando do meu destino passei novamente pelo local e lá já estavam dois senhores ao redor do cachorro. Sem pestanejar aproximei-me e perguntei o que acontecera com o cachorro. O bichinho agonizava de dor e frio. Possivelmente fora atropelado e passara a noite toda ali naquela calçada, no relento da fria madrugada, sem que um "coração humano" pudesse acolhê-lo por algumas horas ou lhe servir água que fosse...

Quis saber de quem era o cão mas pelo jeito não tinha dono. Mais uma pobre criatura abandonada por um diabo infeliz chamado de "pessoa". O senhor, já idoso, me disse que ligou para a Zoonoses, ou seja, seria sacrificado. Zoonoses aqui é sinônimo de extermínio, nada mais. Procedimento normal nessas áreas. Com o coração apertado fui para o trabalho.

Não contente, voltei para o local meia hora depois e vi que o cachorro já não estava mais lá. Acreditei que a Zoonose, antes chamada de "carrocinha", já havia passado. O cãozinho estava debaixo de uma árvore, cercado de papelão, e coberto num grosso carpete que um rapaz simples, dono de uma empresa humilde, providenciou.


Falei com o rapaz e por fim colocamos o cachorro dentro do seu estabelecimento. Comprei dipirona e demos para que pelo menos a dor melhorasse. Preparei soro e ensinei a ele como colocar na boca do animal. Percebi que ele não sabia como lidar com animais e talvez por isso, em seu íntimo, o simples fato de arrumar o papelão e o carpete já era algo suficiente. Pelo menos, esse gesto foi real e sincero. Ainda existem humanos com alma e que honram o sangue que corre em suas veias. Como diria Renato Russo, "Nem tudo está perdido!"

No meu horário de almoço fui novamente ver como estava o nosso mais novo mascote e amiguinho. Já tinha nome: "Dezoito"! Esse nome foi escolhido por conta da sorte que trouxera, segundo o rapaz. Dei mais soro e outras gotas de dipirona. No final da tarde após sair do trabalho, mais uma visitinha ao nosso paciente canino. Havíamos providenciado uma caminha de espumas e alguns mantos para que ele pudesse passar a noite aquecido. A temperatura caia rapidamente.

Manhã do dia 24 de julho de 2013. Trouxera ração e um antibiótico para animais de pequeno porte, que os meus cachorros já haviam usado, mas... infelizmente foi tarde... O Dezoito não sobreviveu. Talvez, se algum ser de alma nobre tivesse tomado alguma atitude na noite anterior, o resultado fosse diferente. Percebi que o rapaz que o acolheu sentiu muito, tanto quanto eu. Já tínhamos planos para encontrar um dono para o Dezoito. Pena...

As pessoas gastam seu tempo para construir impérios e conquistar fortunas. Esquecem-se da essência de toda a vida existente e gerada nesse universo que nos circunda. Desvalorizam o que está ao nosso redor, alguns por ignorância, outros pela falta de caráter e pela cega ganância do poder. Ambos assemelham-se no comodismo frente aos contextos não naturais. Quanto mais no topo da pirâmide capitalista mais pacato e frio com a desgraça alheia o tal ser se torna.

Esperar que um "pessoa" volte seus olhos de compaixão e caridade para um animal é viver à espera de um milagre, ainda mais levando em conta que esse vulgo olhar não se volta nem mesmo aos de sua espécie...

Que nosso corpo deixe de ser simplesmente uma máscara. Que consigamos transpor as barreiras frias dessa casca que nos aprisiona. Que o nosso coração possa ditar os compassos certos para a vida. Que nossa essência, nossa alma, aquilo que realmente somos possa brotar, florescer e multiplicar. Que façamos a vida valer a pena!
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