domingo, 13 de abril de 2014

Suco ou pão de queijo?


Na dúvida eu hesitei...
Estava, logo de manhã, comprando pão de queijo numa padaria, aguardando minha vez de ser atendido enquanto um senhor com duas crianças decidiam o que levariam. As crianças carregavam mochilas, estavam uniformizadas e prontas para ir à escola. Aparentavam quatro e oito anos, respectivamente.
Não pude deixar de notar a expressão da menor que queria um suco do tipo de caixinha, enquanto o senhor, que parecia ser o avô das duas argumentava: "Se você levar o suco não vai dar pra levar pão de queijo. Você tem que decidir!"
O valor do suco era um real e cinquenta centavos. O avô contava e recontava as moedas enquanto a menina mais velha já havia escolhido o seu lanche. A que queria o suco dividia o olhar entre o pão de queijo e a caixinha na vitrine. Era uma decisão difícil para aquela hora da manhã. Uma decisão entre o vontade e a necessidade.
O avô continuava a questionar, uma forma de apelar para a consciência da criança, tentando mostrar-lhe que o que seria necessário e saciaria sua fome na hora do recreio seria justamente o pão de queijo. Nem era preciso indagar tanto, a garota já tinha consciência do que seria importante para aquele dia. Não houve choro, não houve birra, não houve nada... Apenas o silêncio. Silêncio que mostrava a compreensão daquela realidade naquele olhar inocente.
Enquanto a cena acontecia eu já procurava minha carteira na mochila, buscando um dinheiro para pagar o meu pão de queijo e também o suco. Não poderia sair dali sem nada fazer. O estabelecimento estava cheio de outras pessoas. Pensei em chamar o atendente no canto e passar-lhe o dinheiro, pagando o suco, e sutilmente pedir para que o entregasse à criança. Infelizmente, nada fiz. E isso me incomoda a cada vez que volto àquele lugar. 
Fiquei com receio por vários motivos. E, se na minha tentativa de ajudar pagando pelo suco, aquele senhor não admitisse? Ele poderia reagir de forma totalmente ignorante e a situação ficaria chata. Pensei também, que ele, talvez, tivesse o dinheiro e que o trato prévio com as crianças seria de comprar somente o combinado, nada além. Nesse caso, a minha ajuda poderia ser um atrapalho à educação.
Enfim, esse fato me levou a pensar além do que presenciei. O questionamento a que isso me remeteu foi longe e grande. Quantas crianças não tem nem o pão de queijo? Quantas crianças não tem alguém para as acompanhar até a escola? Quantas crianças não tem escola? 
Da mesma forma, na direção inversa, quantas crianças têm de tudo, do bom e do melhor, comida, babás, escolas, cursos, etc? Nunca saberão o que é dificuldade além do que ouvirem, assistirem e verem.
"Muitas vezes na tentativa de dar aos filhos aquilo que não tivemos, corremos o sério risco de errar na educação."
Enfim, voltando ao "suco ou pão de queijo", além da minha hesitação, resultado do receio de querer ajudar sem atrapalhar, receio também de não ser compreendido e nesse caso minha ajuda poderia não ser aceita, fica no mínimo a lição: independente do resultado, uma atitude deve ser tomada, pois valeria muito mais uma resposta mal dada por aquele senhor do que o peso na consciência pela minha falta de atitude. 
A opção de fazer a diferença está dada em cada dia, em cada momento, em cada detalhe...
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