quarta-feira, 30 de abril de 2014

O milagre deles



"Se eles não estão contra nós, estão conosco!" Uma resposta simples, tão direta como clara, dada pelo Mestre aos discípulos que conspiravam com uma ponta de arrogância, prepotência, receio talvez, ao se darem conta de que outras pessoas realizavam milagres mas não faziam parte do seleto grupo que Jesus escolhera.

Essa leitura sempre me remete a um leque de pensamentos. A indagação dos discípulos pode ter sido movida puramente por inveja e ciúme, e uma tentativa evidente de deter o poder da verdade só para si. Imagino também como deviam estar por dentro ao se darem conta de que não eram os únicos milagreiros. "Opa! Como pode? Não somos os únicos! E agora, as pessoas não nos seguirão exclusivamente!" Concorrência em evidência é uma ameaça! 

Claro que hoje há uma certa vantagem em tentar desvendar o que se passara na cabeça de cada um daquele grupo que seguia o Nazareno. As histórias se repetem ao longo dos séculos com o mesmo teor mas com intensidades maiores e sem precedentes. Mais de dois mil anos se passaram e esse tipo de sentimento que surge quando alguém perde a exclusividade desorienta e move as pessoas a tomarem qualquer atitude na tentativa de estancar, reverter ou mesmo aniquilar a situação, a concorrência ou provável ameaça. Hoje, em tempos tecnológicos, os desfechos são ainda mais inusitados e consequentemente piores.

Somos "caça e caçador". Somos tanto vítimas como carrascos. Somos aquela mão que acaricia e que também apedreja. A detenção da verdade, ou melhor, o pensamento que leva alguém a crer que é detentor da verdade é o que há de mais prepotente, insano e profano. Uma verdadeira cegueira de quem vê a aparência mas é incapaz de enxergar a essência. 

O discurso que se houve nos arredores dos templos é aparência pura, tão maquiada quanto a fachada dos mesmos. Doutores e doutoras da lei que se consideram verdadeiros pilares de moral em suas comunidades são especialistas em sentenciar bruxas à fogueira santa e prostitutas ao apedrejamento em praça pública; jamais o amor ao pé da letra. Uma guerrilha religiosa, vulgarmente cristã, que se mantém na fronteira do marketing à disputar o título de "caminho único para a salvação". Esse é o resumo da ópera.

"O milagre deles" é algo que incomoda quando se mexe na estrutura e quando se perde fiéis para a concorrência. Ainda no campo dos milagres, claro que numa época em que a estatística da depressão está atingindo uma escala alarmante, o marketing das "igrejas, seitas e movimentos" que investem em curas miraculosas, muitas vezes fantasiosas e teatrais, tem sido extremamente pesado e levado milhares de leigas e leigos a se curvarem diante dos espetáculos exagerados. Mas, isso é assunto para outro momento. 

Em tempos de diálogo inter e plurirreligioso muitas bandeiras tem sido hasteadas na forte tentativa de ultrapassar a barreira da intolerância e vencer o preconceito religioso. Enquanto a "verdade" tem sido um troféu que se auto adquire e se exibe ao objeto em questão, os fiéis mantenedores, o verdadeiro sentido do evangelho do Homem de Nazaré tem ficado à margem.

Para encerrar, lembremos do seriado reeditado e reexibido na TV, "Gabriela", onde ficou notoriamente registrado no desfecho da trama que o "pilar moral da sociedade já foi quenga."


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 http://escritosemtempos.blogspot.com.br/2012/10/pilar-moral-da-sociedade-ja-foi-quenga.html



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