sábado, 8 de agosto de 2015

Correlações da vida: poesia, teologia e comunhão



Ontem a noite terminei de ler um livro do Mário Quintana: Para viver com poesia. Muitas quintanices de um cara cheio de sabedoria. Poeta por excelência. Engraçado que, quando você começa a se enveredar, mata adentro, pela poesia, passa a respira-la e senti-la o tempo todo. E assim para de achar que a loucura é sua companhia certa e passa a ter certeza disso: sempre foi louco mas, agora, assumidamente e feliz.

Hoje, por questão de precisão, pulei mais cedo da cama. Como de costume fui no mercadinho do bairro comprar pães. Estava fechado. Esperar é complicado, mas sobrevivi firmemente. Enquanto isso saquei dois livros da mochila, outro do Quintana, compadre das falas certas e pra todas as horas, e o Chiquinho do povo, um homem despojado de vaidades. Na verdade, enquanto Papa, tem sido um grande líder sensível às causas de nosso tempo. Tão simples, quanto verdadeiro e profundo, seu exemplo ultrapassa as palavras. Para mim, um poeta fervoroso que reza, que sonha e que luta.

Optei deixar meu compadre esperando e então abri o Laudato Si - Louvado Sejas, encíclica mais recente de Francisco - na página 58, item 5: Uma comunhão universal. Tudo é muito profundo no contexto abordado pelo autor. Os sub-temas nos proporcionam uma bela e longa reflexão que não se encerra em si mesma. É apenas um começo. Este tópico, o 89, não poderia ser diferente: "As criaturas deste mundo não podem ser consideradas um bem sem dono: Todas são tuas, ó Senhor, que amas a vida (Sb, 11,26)."

Na aula de ontem, 06/08/15, Teologia Sistemática V com o Prof.º Gelson, refletimos sobre Deus é o lugar do mundo (Ex. 33,21). Em suma, concluí que se nós somos e fazemos parte do mundo, nós estamos diretamente em Deus. A correlação com a citação bíblica usada por Francisco confirma isso. Se estamos no mundo que está em Deus, todos estão Nele e ninguém merece ficar de fora. Somos um bem maior de um Deus que é amor. Palavras bonitas, poesia aos ouvidos mas, folhas ao vento quando não nos perpassa do campo da oratória e não atinge a realidade pela prática.

No momento que lia o início do tópico 89 da encíclica Laudato si, aproximou-se um rapaz, vestido para trabalhar, pedindo um passe de ônibus, pois havia perdido o seu cartão de passe. Eu só tinha uma nota ali e precisava trocar o dinheiro, porém tínhamos que esperar a mercearia abrir. Ele então agradeceu e foi conversar com uma senhora, que não lhe deu muita atenção, e depois foi até o ponto de ônibus. Não consegui ler mais nada. Fiquei apenas nessa primeira frase: Todas são tuas, ó Senhor, que amas a vida. Não havia como fazer de conta que nada ocorreu ali: Quintana, Francisco, poesia, teologia, eu, o rapaz e uma tempestade de pensamentos me impossibilitando de ficar inerte aos fatos.

Não demorou e as portas do mercadinho abriram. Comprei o pão, paguei e separei o suficiente para o rapaz. Esperava que ele estivesse no ponto. Aquilo estava angustiante para mim. A sensação de não ter nada no bolso não é das melhores. Coloquei-me em seu lugar (...). Quando pisei a calçada ele veio em minha direção. "Desculpa, senhor, mas não consegui o passe, será...(?)." Não deixei ele terminar a frase e entreguei-lhe o valor. Se, temos pelo menos um pouco de Deus, temos também um dever de gratidão para com Ele através de cada próximo. É isso. Era pouco o que eu tinha para oferecer naquele instante.

Não sei onde essa história poderia chegar. É um rio que não se cansa e não se finda. São muitas vias e contramãos que se cruzaram num determinado ponto. Gente que anda com cuidado e olhos atentos. Alguns desapercebidos, outros insensíveis e os que vivem para sugar ou atropelar. Gente que não é gente, sem escrúpulos por tamanha ganância. Vida que segue (...).

Aos olhos dos poetas que aqui compareceram, sensibilidade e amor é o que há de mais claro e comum. E quem ama cuida. Cuida com amor. Cuidar! Essa é a palavra que correlaciona e re-significa tudo. Cuidar do mundo é cuidar do que é nosso, é cuidar de Deus. O mundo está em Deus. Cuidar de mim, cuidar de quem está no mundo é cuidar de Deus. Nós estamos em Deus. Cuidar do próximo, cuidar da terra, cuidar para não tirar de ninguém a possibilidade de experimentar a vida. Vida que segue em Deus.

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