sexta-feira, 13 de julho de 2018

Fé sem fronteiras


Cheguei ao ponto em que considero a religião como um caminho sem fim e isso pode soar agressivamente de forma negativa para algumas pessoas mas, após análise mais aprofundada, pode-se considerar a expressão como positiva, também.

Ao desmistificar algumas situações que foram impostas a partir de uma educação familiar e, posteriormente, social e cultural, numa tentativa de alicerçar para uma fé cristã, o que de fato ocorre é praticamente uma ditadura educacional que contribui, em grande escala, para uma alienação sem precedentes.

Fui forjado no meio católico e, neste, tive a oportunidade de conhecer vários seguimentos, inúmeras teologias, incontáveis ações pastorais e milhares de movimentos de massa. Raros, porém, são as pessoas que optam e operam numa linha de menor expressão midiática. Sendo assim, movimentos de massa tem uma larga vantagem no quesito "atrair adeptos".

Adentrando num terreno mais complicado, acredito e assim compreendo facilmente que Jesus de Nazaré em nenhum momento deixou explícito, tampouco implícito, ao mundo em geral, durante e pós sua época, para que as pessoas seguissem o judaísmo que, não por acaso, era a religião que predominava naquela região e naquele tempo.

Jesus era judeu e seguia o judaísmo, entretanto, não hesitou em apontar as hipocrisias religiosas, os exageros da lei, a corrupção política, esta que andava de conluio com a religião. Em suma, lutou contra a instituição corrompida por detrás dos panos da religião protegida pela política e vice-versa.

Sendo assim, se fosse pra ser radical no sentido de seguir a Jesus, o correto seríamos optar pelo Judaísmo, porém, se o revolucionário homem de Nazaré criticou as atitudes miseráveis e deploráveis dos poderosos religiosos, então significa que tal religião também não era perfeita e continua não sendo, assim como todas as outras, até os dias de hoje.

Acredito mais além, que Jesus tentou implantar sim uma outra religião, totalmente desvinculada da religião institucional. Óbvio que não abandonou o Judaísmo, mas lutou para libertar as pessoas de todas as amarras impostas pela religião e pela política. Sua religião não precisava de templos, apenas baseava-se na doutrina do amor.

Amor, não apenas como sentimento, mas num contexto mais amplo que abrange respeito, justiça, lealdade, honestidade, caráter, integridade, idoneidade, esperança e fé, no mínimo. Se Deus é amor, as religiões de outrora e principalmente de agora estão no templo errado.

Não carrego mais o fardo imposto de uma religião à qual fui educado, e de certa forma, ainda vejo muita gente impondo obrigações surreais através de leis geradas antes mesmo da idade média e tudo isso em nome de uma fé cega. Se sou cristão? Sim. Se ainda me considero Católico? Sim. Se sigo cegamente tudo o que alguns "doutrinadores vendilhões" dizem, berram e postam por aí, baseado no que chamam de santa doutrina? Jamais!

Se seguir a Jesus Cristo é ser cristão, então eu sou. Mas sou no sentido de buscar cada vez mais a compreensão de suas palavras e atitudes que remetem sempre ao sentido mais amplo da palavra "amor". O catolicismo é antigo, mas não tanto quanto o judaísmo, e posso considerá-lo uma mistura de simples e complexo, arcaico e progressista, antigo e novo, aberto e fechado no quesito de acompanhar a evolução humana ou se fechar nas leis de um passado distante. Há quem viva, mata ou morre, em nome das santas normas institucionais, apenas. Não é o meu caso.

O catolicismo em si, por sua complexidade e amplitude, consegue abarcar várias correntes de pensamentos e interpretações. Aos poucos, cada um vai se moldando conforme e de acordo com suas convicções e ideais. Esquerda, centro ou direita, tradicionais, conservadores ou libertários e assim por diante. Vários caminhos, várias opções que, numa forma mais simples de pensar, levariam ao mesmo lugar. Sim. Pode até ser. Só muda o que cada uma dessas vertentes é capaz de realizar por sua fé e em nome de Deus.

Isso está muito longe de ser uma revolta. Considero e posso justificar de outra forma: desconstruir-se; desapegar-se; ampliar os horizontes; reconstruir-se sem amarras, sem mordaças, sem preconceitos, sem alienação. Há sim uma indignação e é muito mais por conta de atitudes unilaterais e radicais repletas de preconceito e julgamentos descabidos e excludentes, movido por um fanatismo que cega.

Não é intenção causar embaraço e nem incentivar para que as pessoas deixem suas religiões, pois cada um vive sua fé e sua religião como bem entende. Ao contrário, creio que serve, no mínimo, para que tomemos coragem de buscar conhecer o terreno religioso que pisamos, suas regras, suas missões e principalmente suas intenções.

Papa Francisco é um seguidor nato dos ensinamentos de Jesus de Nazaré. Luta contra a instituição por detrás da religião. Sua forma de levar o evangelho, viver sua fé e ainda hastear sua bandeira católica não o faz extremista, nem imprudente, tampouco ousa dizer que somente dentro da igreja haverá salvação. Ele merece o respeito devido!

Do mais, para mim está mais claro enxergar a essência por trás da aparência e assim procuro distinguir através das intenções explícitas na instituição e em seus porta-vozes. Se a religião não proporciona uma libertação e assim contribui para a vida plena do ser humano em si mas cria regras e por consequentemente um aprisionamento através de uma alienação velada, nesse caso, não cumpre seu papel original. Deus não é religião. Jesus não é religião.