terça-feira, 21 de abril de 2015

Grande Sertão: Brasil - parte I - Inversos



Na contramão da rodovia
Sigo caminhando a um destino
É o trajeto das máquinas que se opõe
Fios e tecnologias que atravessam
Despontam não sei aonde
E desembocam na casa de quem tem
Lá por cima ou por baixo
É desviado da mazela
Os marginais que peregrinam de cela em cela
Quanto mais vagueio em pensamentos e passos
Sinto o cheiro do restante virgem mato
Se misturando com a borracha 
Dos pneus queimada no asfalto
Sou caminheiro errante
Em busca de um sentido irrestrito
Filosofia e teologia se introduzem na vida
Sentidos sentido a cada paisagem
Poesia viva que revigora a utopia
Meu destino, pelo menos por hoje, é certeiro
Talvez, nessa estrada eu seja o derradeiro
Os marginais desta terra de ninguém
Estão abaixo do que possa parecer 
Muito além do que eu ainda vá perceber
Ali, aqui, acolá, da linha que margeia estão aquém
Ao longe vislumbro a montagem
São cabanas, mosaicos coloridos. contorcidos
Desprovidos de qualquer proteção
Erguidos para qualquer direção
A poeira que se levanta no passar do caminhão
O chão de terra batida
Tem cheiro de gente sofrida
Esse povo caminheiro
Que margeia a rodovia
Tem mais vida e poesia
Do que as cadeiras que esquentei
O Deus que os mais velhos entoam
Dá-lhes a esperança em cada amanhecer
Dá-lhes a sustança em cada anoitecer
Revigora o brilho de seus olhos
E os enobrece com o suor de suas labutas
Entre a cerca e a estrada
Lã estão esses migrantes
Gente simples de palavra cumprida e forte
Do lado de lá da cerca o gado do rico engorda
Na marginal os carros cortam o vento em velocidade
E quebram o silêncio com seus potentes barulhos
Ninguém se vira para olhar os aquém da margem
Entremeio a cerca e a rodovia
Cá estão os desbravadores doutores
Da vida vivida e sofrida como ninguém já viveu
Diante de tanta incerta esperança que ouvi
No meu certeiro regresso marginalizador
Só me pus a cantar:
"Como posso me calar?"


"O Sertão é o sozinho, 
É dentro da gente
Está em toda parte.
Deus e eu no Sertão."
(Guimarães Rosa - Victor e Léo)



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Esplendorosa



Esplendorosa lua que arde e inflama                    
Meus sonhos, teu cheiro, a alma                                         
Aguça meus pensamentos                                                     
Me arrasta aos sórdidos tormentos                                                        
É o perigo do novo, o calor                                                             
É o sentido, o risco, o amor                                                          
Desnuda-te da casca cruel                                               
Se cubra da brisa sob o céu                             
Tão forte e encantadora             
Tão bela e sedutora        
Percorres a galope do teu abrigo        
Afugentas de si o risco do perigo             
Entrelaça nossas mãos sem medo                      
Sou réu confesso de tua beleza em segredo                                
Na estrela que desponta no horizonte                                         
És chegada a hora de percorrer cada monte                                         
É o doce encontro do teu encanto ao luar                                               
Formosa e bela que não me canso de te olhar                                                          


"Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando. Eu falei muitas vezes como palhaço mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria." Charles Chapelin


quarta-feira, 15 de abril de 2015

Grande Sertão: Brasil - parte II - Prosas


Pensamentos, prosas e provérbios
Na contramão da imaginação
Minha arrumação teve de ser reajeitada
Era uma a minha intenção
Saber quantas casas ali tinham
E quantas famílias, quantas pessoas
Perspectivas, e situações
O pra quê de tanta investigação
Só fui entender nas prosas que ali travei
Que nada tinha mais valor
Que o calor de cada vida
Um borná, caderno, caneta e celular
A água na garrafa de usar nem lembrei
Procuro por alguém já conhecido
Não lembro o nome e então proseando eu sigo

"Pra que tu tá aqui?"

Digo que é um levantamento
E já embalo no proseamento
Querendo saber o que mais se precisa
Além de tudo de que se necessita

"Água e luz meu sinhô"

Responde o primeiro José
Cearense arretado
Sem pregas na língua
Personalidade honrada
Tem palavra certa
E uma fé em Deus
Que a todos abençoa
Minha pesquisa vai ficando de lado
Em cada história
Que o valente combatente 
Vai trazendo da memória

"Ah, meu sinhô, aqui a polícia visitava direto
Roubavam nos cafundó
E os home parava aqui só
Eu, já me enfezado, 
Um dia esbravejei e bem alto falei
Aqui mora homem digno e honrado
Tanto ladrão engravatado
E os ceis vem aqui na minha porta?
Depois disso, meu sinhô
Essa folia se acabô
Graças a Deus"


E as horas se passaram mas o tempo eu não vi
Seu José me dispensou
Quando logo se alembrou 
Que tinha um barraco a construir
Uma foto, seu José, pra eu guardar dessa visita
De braços abertos e sorridente
Braços fortes e honradez
Em meio a timidez sorriu contente
Meio sem rumo fui caminhando
Pra de volta da direção do meu mundo
Entre a via marginal e marginalizados
Encontrei a pessoa que procurava
Três crianças com febre
Mais ela e seu marido
Aguardando as roupas quarando no varal
Pra depois correr com os meninos pro hospital

"Não tem muita roupa
Tem que esperar secar"

Fui tocando mais adiante
E vi outro rosto conhecido
De outra missa que lá teve
Dona Francisca e seu marido, José
O segundo José, e três crianças
Que espreitavam numa piscina vazia
Fui tirando foto, com a licença devida
De tudo quanto é coisa que eu via
Na primeira tentativa seu José se recusou


"Pra quê tirar foto de um bicho feio feito eu?"

Deu alguns passos, colocou boné na cabeça
Pensou e se virou

"Então tira meu mestre
Se tu quer tirar, então tira essa foto"


Ficou um pouco distante de sua esposa
Mas sorriu e agradeceu 
Seu barraco precisando de telhas
Madeiras, tudo quanto é coisa de se imaginar
Fui sabendo de sua vida
Em cada provérbio que ele contava
E se esperançava quando se alembrava


"Quem sofreu foi nosso Senhor Jesus Cristo
Para salvar dos nossos pecados
Aqui o cabra tem que se avivê com o que tem
Tenho fé que logo mais
Noutra vez o mestre vai ter um lugar pra se assentá
Voltei pra Juazeiro e não tive ajuda lá
Vim pra cá porque aqui as pessoas ajudam
Nada me há de faltá
Tenho filhos de outro casamento
Que não querem saber de mim
Tive casas e tudo perdi
Pra bebida e a jogatina
Nessa vida só tive duas mulheres
Aos meus setenta e seis anos
Não sou um cabra mulherengo
Lá no trecho eu era conhecido 
Era o José Fogueteiro
Aqui, minha mulher não gosta mas eu falo
Sou o José Fodeteiro
Estou todo fudido meu mestre
Mas tenho fé que vou vencer"

Fui logo me despedindo 
Apertando aquela mão calejada
E percebendo aquela pele surrada
Aquele olhar que não se perde jamais
Quatro telhas era o necessário para seu José
Resguardar a família 
Pois seu barraco de agora
Quando chove, dentro molha


E nos passos de retorno pelo lado de baixo
Ao longe avisto uma mulher 
Suas roupas lavando agachada na marginal
Cadeiras amarelas e vermelhas ao seu redor
Era pros motoristas perceberem o sinal
Ali, naquele espaço tinha gente ocupada
Que desviem os doutores da estrada
Fui andando de volta
Com os provérbios dos meus mais novos teólogos
Fermentando em minha mente
Não dava pra continuar igual
Dali em diante, haveria de ser e fazer diferente
Meu almoço já em casa
Parecia descer quadrado
Eu precisava dar um jeito e lá voltar
Eu precisava com aquele seu José Fogueteiro
Mais uma vez prosear
E assim, mais tarde eu voltei
Lá estava ele deitado sobre um compensado de madeira
Sua cabeça recostada sobre um tijolo forrado 
Com um pano, o seu travesseiro
O barraco continuava o mesmo
As mesmas telhas estavam faltando
Não pude socorrê-lo naquele pedido
Dia de feriado, tudo fechado
Minha boca nada prometeu
Mas meu coração se comprometeu
E se eu não mais voltar
As prosas se perderão no ar
Mas minha alma nunca mais se aquietará
Diante de tudo isso
"Como posso me calar?"



"O Sertão é o sozinho, 
É dentro da gente
Está em toda parte.
Deus e eu no Sertão."
(Guimarães Rosa - Victor e Léo)



Grande Sertão: Brasil - parte III - Versus



Realidade versus ficção
Natureza versus tecnologia
Riqueza versus pobreza
Sabedoria versus insensatez
Franqueza versus hipocrisia
O mundo é um jogo de opostos
O avesso dos avessos
Côncavo e convexo
E no limiar entre céus e terra
Jaz o sertão
Seja lá, acolá ou no coração
Já dizia o grande poeta dos sertões
Guimarães Rosa
"O sertão está em toda parte
É dentro da gente"
E nessa desventura desprovida de almejo
Na sábia insensatez e vontade do benfazejo
Sigo o instinto matuto do agrado imediato
É necessário abrir novas picadas
Seja no asfalto ou no mato
No primeiro contato o olhar inocente
São crianças, sorrisos e esperança
São gente que pouca gente vê
Um casal de irmãos me esperam atentos
Eu, de não sei de onde oriundo
Caminhando rumo ao seu mundo

Mostrei-me amigo e de boa vontade
A confiança então foi verdade
Conheci seus nomes
Logo num chão acinzentado
Pela queima de lixos e objetos
A menina, a mais nova, com sua meia vassoura varria
Um caixote era uma mesa
Uma cadeira com cordas de naylon descartada ali
E um balde que era a suposta lixeira
Identifiquei o cenário e perguntei
Estão brincando de escola?
Toda tímida me respondeu com a cabeça que sim
E então ganhei um santinho
A imagem de uma santa, a mãe de Jesus

Seu irmão sobre a bicicleta ziguezagueava
Davam-se bem
Toda delicada a garotinha, já vaidosa
Tinha marcas de esmaltes em suas unhas dos pés
Apenas algumas
Era rosa
Noutro canto outras três crianças brincando
Numa piscina desusada e descartada
Sem água sob o chão
Posterior, com alguns copos de água e terra

A bola sobre a cerca
Vi como um sonho pendurado
Escondido, deturpado, roubado
Por quem?
Por todos nós que nos calamos
E os mantemos à margem
Marginalmente aquém da margem

Um telefone de tecnologia no meio da terra
Bonecas e cd's abeirando a cerca
Um caminhãozinho parado sob a barraca inacabada
Todo tipo de descarte
Que a santa hipocrisia chama de caridade
Ali se encrusta os recebidos em cores e amores
Pra saciar o ego dos doutores
Dando um paliativo pra tantas dores

Ainda me deparo sob a ponte
Com o nome de Jesus pintado na lateral
Deus no céu que olha
Deus na terra que faz
E alguém pintando o nome de Jesus
Como se olhando estivesse para esses amarginalizados 
Imagino que quem isso fez
Sequer olhou pro lado uma vez
E visitou o Jesus no rosto sofrido de cada assentado

Na prosa poética de um estimado meu doutor
Tamanha simplicidade e humildade
Vou saindo margeando meu caminho novamente
E com uma tamanha inquietança
Mas com vontade de fazer mudança 
Então, compadre meu, senhor José
A festa ainda há de ser do tamanho de seu merecimento
 De tudo que vivi nesse tempo de hoje
Em meio a inocência da infância
"Como posso me calar?"



"O Sertão é o sozinho, 
É dentro da gente
Está em toda parte.
Deus e eu no Sertão."

(Guimarães Rosa)





segunda-feira, 6 de abril de 2015

Cartas para o calabouço - Parte V



Tudo é um risco
Viver é um risco
Mas quem não vive corre o risco de morrer sem ter vivido
Paz e bem, meu caro infiel ingrato
Apesar de sua reclusão
Ainda mantem-se inalterado
Inquieto e pelo medo frustrado
Tenta abrigar-se na escuridão de tua cela
Fingindo não haver portas nem janelas
Acreditando encontrar aí a paz
Frente ao silêncio que teimas fazer
Podando-se simplesmente de tua vida
E deixando este avesso do bem lhe imperar

Espinhosa a tua escolha
Eu preferi a coerência da realidade
Não tanto sonhadora ou utópica
Mas, certamente, palpável e passiva de ser vivida
Tu tens te arrastado
Para além da compreensão
Tuas fontes tens aniquilado
Tuas estruturas abaladas
Suas sementes estirpadas
Teus ramos podados
E as raízes cortadas

Confesso, não poucas vezes, a vontade em te deixar
Na prisão de tuas escolhas
Onde tens as chaves de todas as trancas
Ainda assim, teimas em manter-se inerte
Caro algoz de tu mesmo
Veloz é o tempo quando se vive
Ontem mesmo éramos meninos livres
Hoje cá estamos na discorrência filosófica da vida
Buscando razões para as emoções
E encontrando emoções pelas razões
Onde está tua fé?

Não busco entender-te 
Apenas ouvir-te, e esperar-te
Que não tardes a sorrir aos céus
Pois, poderás chegar e encontrar um dia escuro
Ao som de marchas fúnebres
Vendo a morte alheia a lhe sorrir
Enterrando o que havia de melhor a lhe esperar
Lembre-se que para ter a tua tranquilidade da morte
Apaixone-se pela vida

Queres amar, não queres amar
Queres viver, queres se esconder
Queres e não queres a mesma coisa, sempre
E nesse sempre das coisas quistas 
Há de não tê-lo mais
Não quer pagar o preço
Exiges o quê de ti mesmo?
Hã?

Já ousou olhar o dia?
Quando foi este último encontro?
Já vislumbrou o encanto da lua?
Tentou brincar de contar estrelas?
Sob a luz do sol enxergou as cores?
Quando foi a última brisa sentida em tua face?
Escutou as notas cantadas pelos pássaros?
Eu mesmo lhe respondo: Não! 
E já faz muito tempo que jaz vivo em teu confinamento
Que tu chamas cela 
E eu digo que és um sepulcro

Amor, dor...
Então digas!
Realmente digas e sejas!
Sou mesmo teu amigo inquisidor
E assim prefiro por mais difícil seja 
Minhas palavras são verdades
Que rebatem tua atual incapacidade
De querer e não conseguir
Livrar-se das correntes que teimas carregar

Estancastes à toa a esperança
Não queres ousar a entrega
Preferes o sequestro de tua alma
O aprisionamento de teu coração
E a fuga de seus medos
A enfrentar a saga da vida
Com tudo o que há em seus compassos
Livra-te de teu algoz

Estarei por aqui, 
Ainda não sei quanto tempo mais

Teu amigo, inquisidor, porém amigo e fiel.