segunda-feira, 6 de abril de 2015

Cartas para o calabouço - Parte V



Tudo é um risco
Viver é um risco
Mas quem não vive corre o risco de morrer sem ter vivido
Paz e bem, meu caro infiel ingrato
Apesar de sua reclusão
Ainda mantem-se inalterado
Inquieto e pelo medo frustrado
Tenta abrigar-se na escuridão de tua cela
Fingindo não haver portas nem janelas
Acreditando encontrar aí a paz
Frente ao silêncio que teimas fazer
Podando-se simplesmente de tua vida
E deixando este avesso do bem lhe imperar

Espinhosa a tua escolha
Eu preferi a coerência da realidade
Não tanto sonhadora ou utópica
Mas, certamente, palpável e passiva de ser vivida
Tu tens te arrastado
Para além da compreensão
Tuas fontes tens aniquilado
Tuas estruturas abaladas
Suas sementes estirpadas
Teus ramos podados
E as raízes cortadas

Confesso, não poucas vezes, a vontade em te deixar
Na prisão de tuas escolhas
Onde tens as chaves de todas as trancas
Ainda assim, teimas em manter-se inerte
Caro algoz de tu mesmo
Veloz é o tempo quando se vive
Ontem mesmo éramos meninos livres
Hoje cá estamos na discorrência filosófica da vida
Buscando razões para as emoções
E encontrando emoções pelas razões
Onde está tua fé?

Não busco entender-te 
Apenas ouvir-te, e esperar-te
Que não tardes a sorrir aos céus
Pois, poderás chegar e encontrar um dia escuro
Ao som de marchas fúnebres
Vendo a morte alheia a lhe sorrir
Enterrando o que havia de melhor a lhe esperar
Lembre-se que para ter a tua tranquilidade da morte
Apaixone-se pela vida

Queres amar, não queres amar
Queres viver, queres se esconder
Queres e não queres a mesma coisa, sempre
E nesse sempre das coisas quistas 
Há de não tê-lo mais
Não quer pagar o preço
Exiges o quê de ti mesmo?
Hã?

Já ousou olhar o dia?
Quando foi este último encontro?
Já vislumbrou o encanto da lua?
Tentou brincar de contar estrelas?
Sob a luz do sol enxergou as cores?
Quando foi a última brisa sentida em tua face?
Escutou as notas cantadas pelos pássaros?
Eu mesmo lhe respondo: Não! 
E já faz muito tempo que jaz vivo em teu confinamento
Que tu chamas cela 
E eu digo que és um sepulcro

Amor, dor...
Então digas!
Realmente digas e sejas!
Sou mesmo teu amigo inquisidor
E assim prefiro por mais difícil seja 
Minhas palavras são verdades
Que rebatem tua atual incapacidade
De querer e não conseguir
Livrar-se das correntes que teimas carregar

Estancastes à toa a esperança
Não queres ousar a entrega
Preferes o sequestro de tua alma
O aprisionamento de teu coração
E a fuga de seus medos
A enfrentar a saga da vida
Com tudo o que há em seus compassos
Livra-te de teu algoz

Estarei por aqui, 
Ainda não sei quanto tempo mais

Teu amigo, inquisidor, porém amigo e fiel.
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