domingo, 20 de janeiro de 2013

Tão Bela, se foi...



Lembro-me do primeiro contato. Você estava deitada enrolada em si, num monte de areia. Tão dócil se mostrou. Um pouco de ração foi o suficiente para que me acompanhasse até o portão de casa e essa seria sua rotina por longo tempo.

Quantas e quantas vezes me acompanhou até a igreja e as pessoas já haviam se acostumado com sua presença ou com sua perseguição à mim... Durante várias caminhadas e corridas você também me acompanhou. 


Seu olhar, seu rebolado desengonçado de se achegar ao me ver encostar a moto... Sua doçura esticada aos meus pés quando me ouvia falar com você... Não era pra ser assim, não era... 

Você não queria uma casa para si, queria apenas companhia, atenção... Você foi carinhosa, companheira e atenciosa. Outros te acolheram e te adotaram. Tornou-se figura notória da rua. Todos já te conheciam pelo nome... 

Desde que passou a morar nessa rua, nunca mais passou fome. Vigiava, principalmente a minha casa. Lembro-me quando estava adoentada... todos ficaram tristes por sua debilidade, mas você venceu! Arrastava uma de suas patas, talvez sequela de atropelamento mas nem isso te atrapalhava...

Após uma grande chuva onde estava toda molhada, te recolhemos para dentro de casa, te secamos, demos água e ração, e isso acabou virando rotina. Houve madrugadas que você chorou no portão e ao te escutar, meu coração acabava vencendo o sono e o cansaço para te acolher... E não foram poucas vezes, até que notamos que estava prenha. Então, te acolher todas as noites já fazia parte do cotidiano e quando você não vinha eu te chamava pelo nome. Seu cantinho e suas coisas estavam sempre à sua espera...


Tive medo de que ganhasse seus filhotes aqui em casa, mas não poderia ser em outro lugar, afinal nossa afinidade era grande e até mesmo os outros três habitantes dessa casa, Kinzé, Tufão e Mel não se importavam com sua presença. 

(...) Seu parto foi difícil, muito complicado. Assustei na madrugada que você começou a parir... A casa do trio ficou toda sua e eles te assistiam... Dos cinco, apenas três sobreviveram. Hoje, pela manhã a que nasceu por último também não aguentou. Mesmo dando mamadeiras com leite próprio a cada três horas no máximo, trocando o cobertor para manter sempre limpo e aquecido, não foi o suficiente. Essa, era linda, e creio que foi a que demorou mais por sinal, e que talvez também tenha sofrido mais... 

Os outros dois, um macho e uma fêmea, foram levados numa casa, onde uma senhora tem uma cachorra que pariu recentemente cinco filhotes. A esperança era de que a cadela os adotasse. E assim foi feito, logo de imediato os cachorrinhos agarraram para mamar e ela os acolheu e adotou. A natureza é divinamente linda!

Bom, a pior coisa nisso tudo foi na manhã de sábado. Ao te encontrar deitada na terra, na sombra, foi uma sensação horrível! Seu olhar já deixava claro que estava de partida... e se existe o céu para os animais, creio que você já está nele... Suas lágrimas, são a lembrança da triste despedida... Quando vi elas escorrendo em sua carinha tão meiga e tão sofrida naquele momento, entendi que ali ficava o adeus... Valeu Belinha! Obrigado por me mostrar, em meio a tanta irracionalidade, o valor sincero de uma amizade...

Obs.: Bela, com seu primeiro filhote e mais abaixo a cachorra Lupita que adotou os filhotes que sobreviveram. Estão bem ao centro, os dois menores: a fêmea rajada e o macho, marrom, na cor da mãe...










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