domingo, 24 de agosto de 2025

Do vínculo ao vácuo

25/4/24 - 14:41

Do vínculo ao vácuo
Há aí um longo atravessamento
Do plano ao limbo
Há aí um longo deserto

Processos
O processo do desapego
Um corte abrupto, incisivo, profundo
Ou tentativas de fatiar com elemento cego
O descaso e o abandono
O sequestro emocional 
O sequestro de você
O sequestro de sua identidade
O sequestro de sua personalidade
Totalmente roubada com sua permissão

É no atravessamento, não do solo
Mas sim do pensamento, da alma
Que a transformação se tece
Noite vem, sol amanhece
Pesadelo inquietante 
Acordado e retumbante

Solo Sagrado


segunda-feira, 18 de agosto de 2025

As dores da existência



Meus olhos 
Ah, quantos horizontes vislumbraram?
Quantas lágrimas rolaram?
Quantas vezes se perderam?
Quantos desertos já viveram?

Meus olhos
Já foram janelas
Janelas que espelham a alma
E hoje parecem celas
Cárcere do coração que ama

Meus olhos já mergulharam sob o caos
Se perderam nas trincheiras do mundo
E sorriram diante dos cenários de paz
Buscaram refúgio na reciprocidade aquecida da amizade 
E se forjaram diante das esquecidas tempestades

Meus olhos, já cansados
Se recolhem à penumbra da solidão
Desafiam os dias de verão
Não se deixam abater na escuridão
Meus olhos, ainda sofrem pela dor
Mas nunca deixaram de eternizar o amor

Com meus olhos
Vivo o primeiro dia 
Do resto da minha vida
Sem mandamentos em meu pensamento
E um modo sobrevivência ativado
De guerreiro incansável
A pacificador inconformado
Ah, meus olhos ainda sonham acordados

Qual é o seu lugar seguro?



Meu lugar seguro é um não lugar
É feito de pensamentos, 
De momentos,
De sonhos,
De coração
De sangue que pulsa nas veias

Meu lugar seguro não está num horizonte
Pode estar no céu
Pintado em cores de saudades
Sentido em dores de um vazio
Reverenciado nos caminhos trilhados
Nas lembranças do que me foi ensinado

Meu lugar seguro tem cheiro
Tem tempero
Tem calor
Tem valor
Tem colo
E amor com dolo

Meu lugar seguro tem ouvidos atentos
Tem olhar que escuta
Tem boca que silencia
Sentimentos em cores que irradia
Provoca minha melhor versão
Amizade eterna do coração

Meu lugar seguro está em mim
No deserto consciente sem fim
Na memória do que já foi vivido
Nas derrotas que me puseram reerguido
No solo que sustentaram meus passos
No aconchego protetor do abraço

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Anjo caído




Um dia, era pra ser apenas mais um dia de passeio com o Kinzé e a Mel ao redor da quadra, mas na metade do percurso um rapaz nos avistou e parou para falar sobre os cachorros. Sentou-se na calçada e esperou nossa aproximação. Mesmo sendo cortês Kinzé e Mel não deram confiança. 

O jovem se levantou e começou a nos acompanhar rua acima. Estava de chinelo, calça, camiseta e um blazer.  Aos poucos foi se abrindo. Contou que alguém o acordou dizendo para sair do sol. Falou de forma poética sobre a importância do sol e da lua. 

"Você sabe que os animais dão mais valor na gente do que muitos da família?! Tenho certeza que eles te protegem. Eles te amam, te respeitam. Eu tô aqui do seu lado porque eles sabem que não faço mal. Se não, eles não iam deixar não."

"Eu sou um anjo caído. Tô na decadência. Você sabe o que é decadência? Eu só tenho o sol pra me esquentar e a lua pra iluminar."

Chegamos à esquina e aí começamos a nos despedir. Eu seguiria à esquerda e ele continuaria em frente. "Obrigado, muito obrigado pelo tempo, por ter me escutado. Não esquece, eu sou um anjo caído. Decadência."

Só pude escutá-lo com atenção. E isso fez toda a diferença. Silenciosamente só quis ouvi-lo e prestar atenção em cada olhar, fala e expressão. Sua gratidão me trouxe um sentimento de inquietação. Na verdade eu fiquei grato por esse encontro do acaso.

"Sou um anjo caído, não esquece! Ah, lembra de mim quando estiver no paraíso. Você sabe quem disse isso né?"

Caminhando com ele de uma esquina a outra, percebia o olhar das pessoas ao notá-lo. Suas roupas sujas, seu jeito de caminhar e sua pequena bagagem numa sacola de plástico chamavam a atenção. 

Mas, no fundo o que ele quis deixar nessa mensagem? O que ele fez se sentir o anjo caído? Não tenho respostas, mas sensações e sentimentos que me conectaram ao ser humano que caminhou ao nosso lado por um quarteirão. Um anjo que tem o coração puro, sem maldade com toda forma de vida, em especial a dos animais. Caído, tombado, derrubado, machucado, esquecido, rejeitado, excluído e condenado pela sociedade. São muitas as formas de pensar e sentir. Faço questão de me ater apenas ao tempo de sua presença e isso já valeu a pena. Com certeza não dá pra descrever essa cena com as cores que vi e vivenciei porque tanto a cena quanto as cores foram únicas e aqui permanecerão vivas na história, na memória e no coração. Obrigado anjo caído. 


segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Das trincheiras da solidão



Minhas dores explodem 
Numa avalanche de lágrimas
Que secaram ao som dos tempos
Meus medos eclodem
Numa tempestade de incertezas
Que cortaram na carne e na alma

A necessidade de estar só
É do tamanho da saudade de um colo de vó
Que entremeia os pensamentos
E num vendaval de tormentos
Escancara o outro lado
O de sentir-se tão só e atado

A indiscreta dualidade do sentimento
Que entre as bagagens de dores
Me coloca numa trincheira infinita
Numa guerra de mundos
Os quais habitam em mim
E de tudo, somente a assinatura no vento

Queria poder não querer
Queria não precisar esconder
Meu pranto abafado
Minha desilusão 
Nas entrelinhas do destino
Ainda carregam as sombras do menino

E no fim
Terei que olhar para mim
Enfrentar meus demônios
Num reflexo de antônimos
Minha companhia eterna será
Com ou sem medo, 
Será eu e meus segredos
E assim, findará...

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Um dia depois



Acordei. E... a sensação é a de que poderia não ter acordado. Nunca mais... O mundo seguiria, as pessoas continuariam... Lutos e lutas, cada um a seu modo. Cada um a seu tempo. Mas o meu tempo poderia ter se findado... ali. A fração de segundos, ou milésimos, é o que nós temos a cada instante que precede o momento. E de repente, ao acordar, não tem como não pensar, rever a cena, cada ato que se desenrola nos instantes. Hoje, ao andar pelas ruas e calçadas, observo ainda mais os detalhes. Ao caminhar com meus cachorros, atento-me para seus passos, já lentos pelo peso do tempo. Ainda nos resta muito a viver, é o meu desejo. Mas, também tenho ciência de que o tempo do meu querer confronta com o tempo e as demandas que não controlo. Assim, cada dia é uma eterna despedida, ou melhor, cada dia se torna mais intensa a necessidade do viver. Viver o que há pra viver. E nesse dia de repensar, refletir, angustiar e sorrir, trago à memória lembranças, pessoas, sonhos, esperança e medos. Medo que confronta o meu viver. Medo de não poder estar. Medo de que poderia ter sido tragicamente diferente. Apenas medo... mas também um medo que me encoraja, que me liberta, me faz ter esperança, gana, força, vontade de continuar, dar o melhor, viver intensamente. Realmente, é tudo tão raro, tão único, cada passo pelas calçadas, cada aperto de mão, cada encontro, cada cuidado com quem se ama. A história, o desfecho, poderia ter sido outro, mas não foi. Então, não é mais o que me resta a viver, mas sim o que eu posso fazer para viver, por mim, por nós... Um dia depois... e a hora é agora. 

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Solo e dolo, segredos e medos



Dos descaminhos que se encerram nas estações
Sigo a viagem por trilhos em ritmo solo
Destino, acaso ou sina, meu dolo
Quando não lembrar que ouçam canções

Dos céus recaem sonhos em brisas
Dos meus olhos as lágrimas ecoam
Cortinas de ventos no tempo voam
E minha dor novamente canaliza

Dos mares atravessam segredos
O silêncio sussurra em minha alma
Das tempestades cicatrizam meus traumas
E no deserto da maresia se escondem meus medos


sábado, 5 de julho de 2025

Da descoragem à fragilidade: caminhar




A descoragem impetrada na alma
Quando não resta nem mais as sombras
Para um descanso de pós guerra
Angustia meus dias, aflige minha pele
Armadura fina, de sangue, carne e osso
Que sustenta mundos aos quais recaem
E respingam sobre o meu caminhar
Molham meus pés, ora de suor, ora de lágrimas
A dor não é dor, a luta não luta
Apenas sacrifícios exigidos de uma escolha
Perdoo-me do que não pude ser, fazer
Aceito-me em minhas duras imperfeições 
E é diante da fragilidade reconhecida
Que reencontro a força e a coragem
Para enfrentar, não a morte, mas sim a vida
Quando me desnudo de roupagens 
Que não mais me pertencem
Eis que ressurge imponente
A face da raiz de onde eu vim
Recobrando sobre o meu céu
Ressignificando o sabor amargo em mel
Alquimia de almas
Espelhos, reflexos, conexões
Sem razões de amor
Que para onde eu for
Memórias me farão voar
Histórias me contarão ao mar
E no coração dos meus
Eu hei de ficar, brotar
Em seus pensamentos morar

quinta-feira, 19 de junho de 2025

O sentimento que precede o final


Dia 17 de junho de 2025 foi a defesa do meu TCC com o tema "Solidão na Velhice". Foi um trabalho em grupo com 6 pessoas. E nos dias que antecederam a apresentação fiquei imaginando sobre o que esse tema significa para mim, como ele atravessa e, em especial, por toda a minha vida ao lado dos meus avôs e avós. Não apenas isso. Toda a minha infância, adolescência e juventude estive cercado de pais, tios, avôs dos amigos do coral. 

Falar sobre essa fase da vida traz mais que um gostinho de saudade que aperta o peito, traz lembranças de um tempo bem vivido, com tudo o que se tinha direito na época, em especial as amizades intensas e todos os familiares de cada um que compunha o nosso coral.

Lembro também dos cadernos com muitas perguntas que as meninas faziam e repassavam para todos os amigos e amigas responderem. Uma dessas perguntas era "O que você quer ser quando crescer?" Ao ler alguns livros de romance acabei me interessando pela psicologia. Parece que seria o caminho para entender e decifrar a complexidade da mente humana. Lembro também de muitos diálogos com a Jane e com a Riete sobre a psicologia.

Enfim, no pós pandemia, especificamente no início de janeiro de 2022 o Fábio me incentivou a começar a Psicanálise. Comprei alguns livros, fiz cursos, pesquisei e de repente conversei com a coordenadora do curso da psicologia da universidade em que estou. Minha irmã Cinthia foi outra incentivadora. Consegui uma bolsa parcial e encarei. Fato é que a formatura já é no final desse ano. 

Hoje, ao me reencontrar nessa travessia de sonhos, fé e lutas, consigo compreender um pouquinho mais do que sou, do que somos. Nós, somos a nossa história, somos o que pensamos, somos o que vivemos, somos o que construímos e o mais importante talvez, somos o que de fato levamos em nossa essência, o legado daqueles que nos precederam: pais, avos...

Queria dividir esse momento em especial com o grupo do Coral. Muitos amigos, pais, avos já não estão mais entre nós nesse mundo, mas seguem em nossos corações. Parte do que sou, vem desse tempo e por isso aqui estou dividindo um pouquinho desse momento com vocês. 

quinta-feira, 1 de maio de 2025

O inferno são os outros

"O inferno são os outros. Projetamos nos outros a nossa realização 
e aguardamos deles algo que amenize o vazio que nos habita."
Sartre


O bêbado que vai de boteco em boteco, cada vez bebendo mais e, em cada lugar que passa conta em voz alta sobre sua desgraça de ser corno. Ao final de um dia a cidade toda está sabendo e comentando. Então, o chifrudo de ressaca quer tirar satisfação sobre os boatos e escolhe seu algoz alegando ser este o culpado de toda a fofocaria. Até entender que boteco não é setting terapêutico e que tudo saiu de sua boca, não de terceiros, ele já terá brigado com a cidade toda. Portanto, se for corno e quiser sigilo, não beba para não se vitimizar frente à tragédia que você mesmo causou.

Tem mais, uma pegadinha viralizada nas redes sociais trouxe uma outra óptica sobre como certos tipos de personalidade culpam terceiros pelas consequências de seus atos, suas escolhas e suas imprudências. A cena dessa pegadinha mostra um cara andando na calçada com o celular na mão e batendo com a cabeça numa porta de comércio fechada. Automaticamente ele leva a mão à cabeça e começa a questionar três senhores ali sentados do porquê eles não o terem avisado que a porta estava fechada. A conversa se estende e ele o tempo todo culpa os senhores pelo incidente. Apesar de ser uma pegadinha existe uma moral que soma aos outros casos desse escrito. O inferno sempre será o outros.

Em se tratando de vitimização, a série VOCÊ (Netflix) retrata sobre a vida doentia de um sociopata manipulador e narcisista que sempre se coloca em posição de vítima para justificar seus atos criminosos. Joe Goldberg traz consigo o discurso de ter sofrido abuso psicológico e violência física na infância, o que de fato não fica comprovado até a última temporada exibida. 

Tanto no caso do bêbado, como no caso da pegadinha e o personagem da série VOCÊ sentem-se vítimas das circunstâncias, da sociedade, das pessoas, do destino, da vida, dos eventos que lhes causaram prejuízos vários. Mas, de qualquer forma, também em comum, não assumem suas culpas, e jamais conseguirão se entender como culpados. No caso de Joe, mesmo após desmascarado, acusado e sentenciado judicialmente, ainda assim questiona o porquê das pessoas não o verem como vítima e como uma boa pessoa. Seu eu, tão narcísico, é incapaz de assumir qualquer culpa. 

Não precisamos de muito para notar que existem pessoas com esse tipo de personalidade, que precisam de plateia para suas histórias nem sempre tão verdadeiras, nem sempre tão sinceras, e por vezes, nem tão reais. Em sua maioria, ocupam um papel de vítima e fazem dos que as escutam suas próprias vítimas. Elas não ultrapassam o seu recorte cognitivo temporal e enviesado, permanecendo num ciclo vicioso sem sair do lugar, sem vontade de superar, sem evoluir em si mesmo e, enquanto o mundo gira, a pessoa patina na saliva da própria ignorância cognitiva. 

A célebre frase do francês Jean-Paul de Sartre, "L'enfer, c'est les autres", que em português significa O INFERNO SÃO OS OUTROS, traduz um pouco desse processo de renunciar a culpa e assumir a vitimização, escolhendo e sentenciando a bel prazer todo aquele que não comunga de sua visão de mundo. Para os protagonistas dessas três histórias, o inferno sempre serão os outros, jamais eles. Da forma que a vida imita a arte e a arte imita a vida, podemos perceber ao nosso redor figuras semelhantes a esses três personagens na família, no trabalho, na igreja, na sociedade, na universidade, no mundo.

Uma matéria sobre "Vampiros Emocionais", publicado na revista Exame em outubro de 2024, contribui para a composição desse escrito, uma vez que esses tais "tendem a ser reclamões, a focar nos seus próprios problemas e a não se importar com os problemas dos outros. A sua energia negativa e a sua falta de empatia podem levar a uma sensação de exaustão e insatisfação para quem se relaciona com eles." 

Da mesma forma, o vídeo do professor José Geraldo da UNB, na Câmara dos Deputados, respondendo a uma deputada diz o seguinte: "(...) Eu não tenho como discutir com a deputada porque a sua visão de mundo, a sua percepção como cosmovisão, só lhe permite enxergar o que a senhora já tem escrito na sua cognição. Então a senhora vai ver não o que existe mas o que a senhora recorta da realidade. A realidade é recortada por um processo cognitivo de historicização. Então eu não posso discutir um tema que contrapõe visão de mundo, concepção de mundo. Eu vejo outra coisa. (...) São referenciais que significam que o real não é aquilo que existe mas é a representação que a gente faz, de como a gente vê. Paciência né! Por isso que há pluralidade de concepções de mundo."

Enfim, ao longo do tempo acadêmico, com estudos aprofundados e pesquisas além do conteúdo proposto, corroborando com isso experiências concretas com pessoas que se assemelham às personalidades citadas acima, entendo que, em certas ocasiões é melhor direcionar ou encaminhar a pessoa em questão para profissionais. Ainda mais se, a mesma for do tipo que não consegue ter uma separação entre os papeis e suas funções. Filtro e abstenção muitas vezes significa paz e saúde mental em equilíbrio.

sábado, 26 de abril de 2025

"Eu vos deixo a coragem"


Quando perguntado a Jorge Mario Bergoglio, na Capela Sistina, se aceitava a escolha, disse: "Eu sou um grande pecador, confiando na misericórdia e paciência de Deus, no sofrimento, aceito". E, a partir desse sim, de comprometimento fiel e inquestionável, deixo-me levar à profundidade do legado de Francisco e discorrer em sentimentos de gratidão e abastecendo-me de seu exemplo de coragem.

"Aceito.
Levar a doçura aos corações sofridos
Trazer a compaixão aos corações difíceis
Transbordar a misericórdia aos que não se perdoam
Exalar amor à toda vida
Ensinar humildade aos cantos do mundo
Acender a esperança aos olhos da humanidade
Abrir as portas da igreja e da vida ao mundo e às vidas
Meu nome é Francisco
É o meu nome de guerra e perdurará na coragem
E eu vos deixo a coragem."

Francisco

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Francisco vive!

* 17/12/1936 + 21/04/2025

Jorge Mario Bergoglio, o argentino gente boa que em sua extensa travessia sacerdotal chegou ao mais alto grau hierárquico de uma das maiores instituições religiosas do mundo, a Igreja Católica Apostólica Romana - ICAR. Enquanto Bispo de Roma, lutou com punhos firmes contra os desmandes eclesiais, as fraudes financeiras no Banco do Vaticano e as pompas do ultraconservadorismo radical travestidos em cardeais brocados de ouro Ofir. 

Chegou a papado no dia 13 de março de 2013, aos 76 anos de idade, como o 266º sucessor à cadeira de Pedro, o cargo mais importante da Santa Sé. Primeiro Jesuíta, primeiro latino americano, primeiro não europeu em mais de 1200 anos, desde Papa Gregório III. Quando lhe foi perguntado, na Capela Sistina, se aceitava a escolha, disse: "Eu sou um grande pecador, confiando na misericórdia e paciência de Deus, no sofrimento, aceito". 

A escolha do nome, Francisco, por si só tem um peso de leveza que se contrapõe ao papado de seu antecessor, Bento XVI, esse que, enquanto Cardeal e chefe da Congregação para Doutrina da Fé, a conhecida e trágica "Santa Inquisição", dirigiu com mão de ferro mas, empossado e detentor do poder e do trono de Pedro, sucumbiu aos descaminhos de seus subordinados e preferiu entregar o bastão a enfrentar os lobos de frente.

Admiração e respeito por esse ser humano. Foi diferente. Fez a diferença. Trouxe doçura, compaixão, misericórdia, com atitudes de amor e humildade. Reacendeu com a chama da esperança o coração dos excluídos, das minorias, dos que são deixados à margem. Com a comunidade LGBTQIA+ abriu as portas ao diálogo e isso incomodou muita gente que se escorava na "santa doutrina". Catolibãs de plantão, feitos urubus por carniça, espreitavam por um momento de fraqueza de Francisco para devorá-lo vivo. Mas, Francisco é um forte, um destemido! Sabe de onde vem e a que veio. Sobrevivente de tantas guerras, não seriam raposas velhas de um sistema arcaico a desencorajá-lo.

Bergoglio escolhe não um nome de santo, mas um nome de guerra, pois sabia que precisaria de uma armadura forte para enfrentar aqueles que se sentiriam incomodados em suas ostentações. Francisco trouxe luz, com uma nova roupagem. Não foram poucas as máscaras que caíram. Seu antecessor não teve peito para enfrentar a desordem sistêmica e preferiu se retirar de cena. Enquanto chefe da Congregação para Doutrina da Fé, caçava veemente suas bruxas, fazia e acontecia, mas na cátedra papal, a coragem e o poder foram se esvaindo feito areia na mão. 

Não prometeu nada. Entregou tudo. Foi Humano. Foi Francisco. Lutou contra as mazelas de poder e corrupção dentro dos bastidores da própria estrutura. Manteve as porta abertas e criticou os fiscais da fé e suas hipocrisias. Não usou das regras para exaltar o poder da igreja. Ao contrário, fez valer a escolha de seu nome valorizando cada ser humano e acolhendo conforme o verdadeiro ensinamento: amor. Combateu o bom combate. Francisco vive!

Francisco foi inspirador durante sua vida e, com toda certeza, seu legado continuará vivo e presente em nosso meio. 

domingo, 20 de abril de 2025

Resenha Crítica - "Cilada"



Essa potente história baseada na obra de Harlan Coben carrega diversos temas sensíveis, pesados e que podem despertar gatilhos. Tendo em vista a intensidade com que cada assunto é tratado e desenvolvido, ficção e realidade se misturam e confundem o olhar e o coração do telespectador. 

Mistério, drama, psicológico e investigativo, a trama aborda desafios online, auto mutilação, adolescência, bebidas, drogas, sexo, acidentes, homicídios e luto. Nesse cenário algo intrigante chama a atenção, uma falsa acusação que resultou na caçada de um homem inocente. Uma jornalista, que baseou-se numa pseudo evidência para encontrar um suposto abusador, colocou os holofotes do julgamento midiático sobre a inocência e a reputação desse homem que tem um fim trágico.

Antes de ter sua reputação destruída esse homem fora traído de forma ardilosa quando seu melhor amigo arquiteta um plano para conseguir sua propriedade, que além de extensa tem nela um centro de acolhimento para menores. Acusado, sentenciado, com a vida manchada e como principal suspeito no epicentro dessa conspiração, o proprietário da terra e diretor do abrigo torna-se foragido e é caçado feito animal. A única forma que o falso amigo teria para conseguir a propriedade era fazer com que o proprietário da terra e diretor do abrigo fosse acusado de algo grave e assim aconteceu.

Cada cena nos leva a uma reflexão profunda sobre as temáticas pontuais que nos cercam. Entre tais questões de extrema urgência o contraposto que assola a existência humana se dá na ganância, na ambição sem fim que coloca em check toda e qualquer relação. Isso é histórico, cultural, político, familiar, religioso, humanamente demoníaco, mas ta aí, sendo repetida cotidianamente em todo e qualquer ambiente. A arte nos faz lembrar do que podemos ser e do que somos de fato. Uma incógnita.

terça-feira, 1 de abril de 2025

Resenha Crítica: "1883"



1883, série da Netflix, retrata a saga de uma família em busca de um pedaço de terra para construir sua morada. Nessa travessia ela se junta a imigrantes liderados por dois oficiais que irão guiá-los nessa jornada. 

O cenário, repleto de lindas paisagens, montanhas verdejantes, planícies abertas e rios de água cristalina, se dá no tempo do velho oeste norte americano, tempo esse em que as divergências se resolviam na bala e na flecha. 

Batalhas realistas que trazem à tona tanto a justiça quanto a crueldade humana marcam momentos de tensão nesse drama. 

Amores improváveis entre pessoas de raças diferentes consolidam a audácia e a coragem do amor resultando num clima romântico.

Além dos diálogos intensos sobre a esperança e a dor, o futuro e a incerteza, a coragem e o medo, a vida, a morte e o luto, a narrativa da jovem personagem que desbrava não apenas as terras ao lado de seu pai e sua família, mas toda a liberdade a que tem direito, contribui para uma reflexão ainda mais profunda.

Ainda sobre a vida, os capítulos finais retratam o morrer e o luto antecipatório de forma marcante e intensa, o que nos leva a uma viagem interior em busca de sentidos próprios para a verdadeira essência de nossa existência.

Sábias filosofias épicas, que discorre em pensamentos e diálogos, mergulham no mais íntimo do ser humano. Brutos se amansam, medrosos se levantam, ambos regados da coragem em transpor suas próprias muralhas. 

Um grande e verdadeiro espetáculo em forma de drama que traz a pureza, a sabedoria, a dificuldade e a honra no velho oeste americano. 

quarta-feira, 12 de março de 2025

Resenha Crítica: Os enviados



O enredo, de forma geral, traz uma mistura de tramas que perpassam a fé, a ciência e uma discussão que ora converge, ora diverge entre ambas. Nas busca pela verdade entre o que se supõe ser milagre, fantasia, fraude ou realidade, dois padres com especialidades são enviados pelo Vaticano para investigar os casos e suas repercussões numa cidade mexicana. "O que a ciência não pode provar é milagre", e foi essa a frase que enfatizou grande parte das discussões entre os enviados. 

Não bastasse, a série também traz à tona a influência do poder nas estruturas religiosas do catolicismo, desde os altos escalões às bases mais remotas das periferias e cidades pequenas e esquecidas, social e politicamente. Demonstra-se aí que para que a "verdade do poder" seja mantida, qualquer coisa é feita e a qualquer preço. 

Nesse sistema estruturalmente político de religião e poder, a corrupção se escancara de forma ardilosa. Até que se esclareçam os fatos, a verdade é imposta a qualquer custo. Valem-se das regras a bem de sua reputação institucional, mesmo que pessoas precisem ser silenciadas. E o poder, se infiltra de forma meticulosa influenciando psicologicamente em todo canto da cidade. 

A linha tênue entre o que pode ser algo espiritual e o que pode ser uma doença da alma é a espinha dorsal da história. Os padres, um advogado e outro médico, confrontam o tempo todo o que é real e o que é fictício. Doenças psicológicas e possessões são temas que aguçam e nos prende a atenção do começo ao fim. A medicina e a religião, que traz o exorcismo como ponto forte, são extremos que aos poucos se aproximam e se afastam de uma resposta mais assertiva. Vale a pena!

domingo, 2 de março de 2025

Eu preciso ir a tantos lugares



Eu preciso ir a tantos lugares
De outonos intensos 
A verões selvagens
Caçar tantos cheiros
encontrar tantas saudades

Eu preciso ir a tantos lugares
De invernos aconchegantes
A primaveras esquecidas
Deslizar por nuvens de insensatez
E percorrer vielas de ilusões

Eu preciso ir a tantos lugares
Passados de dores
Futuros de flores
Pintar novas telas
Acender algumas velas

Eu preciso ir a tantos lugares
Ao céu da imaginação
À cadeia da solidão
Ao inferno das guerras
Ao calabouço das feras

Eu preciso ir a tantos lugares
Lutar minhas batalhas
Amolar minhas navalhas
Encarcerar meus demônios
Voar com meus anjos

Eu preciso ir a tantos lugares
Mas não me resta tanto tempo assim
Eu preciso navegar meus mares
Mas não me resta tanto rio assim
Eu preciso viver meus olhares
Mas não me resta tanto sonho assim

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

O caos na calmaria do sistema



Doce caos nesse mundo sem calmaria
O que me falta?
Não mais que alegria
Não menos que ousadia
O que eu tento é todo dia
Uma nova alquimia
Nessa sobrevivência
Sem latência
Muita querência
Mas eu, Ah!
Eu sobrevivo!

Preza, presa, preso
Nessa cela
Com esse selo
Ileso
Cela de carne, de ossos, de sangue
Selo da marcação
Da contramão
Na irritação
"Dos patrão"
Mas eu, Ah!
Eu sobrevivo!

Estranho mundo estranho
Já dizia o grande 
Freriano, Freire, Freirão
O sonho do oprimido
Hum
É se tornar opressão
Feito um patrão
Mas eu, Ah!
Eu sobrevivo!

Estranho mundo estranho
Mundo estranho mundo
Tão sujo, 
Tão profundo,
Tão imundo...
E quem se tornou patrão
Subiu na chefia, 
Na diretoria
Hum
Por cima
Pra cima
Sem rima
E opressão

Até mesmo a tal qualidade
Hum
Extorquida
De qualquer jeito
De qualquer vida
Para estar
No patamar
Do vislumbre
De seu altar

Fazem até uma pesquisa de satisfação
Mas não é pra melhorar essa qualidade
Jamais!
É só pra causar perseguição 
De quem está descontente 
Com esse sistema
Podre, imundo, e pago
De opressão
E mesmo pagando
Você não tem mais o direito de exigir
Clareza
Competência,
Qualidade
Ouse, tente, abuse!
Pra você ver aonde seu nome estará jogado
Haja medina!
E não lhes faltam de propina
Porque o sistema é uma jogatina
Interesseiros
Pelo dinheiro!
Mas eu, ah!
Margeado pelos pensamentos inquietantes
Eu mais que sobrevivo
Eu sonho, eu acredito, eu luto.
Luto enquanto vivo
Para que a vida não se torne luto.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Fronteiras, rios e meu amor



Quando perdi o que nunca tive igual
Encontrei minha alma em versos
E descobri nesse meu íntimo universo
A infinitude do amor incondicional

A força da alma que me atrai 
Se desvencilha do olhar que distrai
O ardiloso arrebentar do rio margeado
Leva e lava meus medos e segredos libertados

Do não-lugar ao que posso estar
Um caos perdura entre lembranças e luar
É o sonho, o desejo, rios e memória
Saudade não vivida, correnteza sem trajetória

Dores do viver, fronteiras do próprio tempo
Cortes do sentimento, limiar do florescer
Vistas do crescer, escritas ao vento
Ao meu amor serei atento, enquanto eu viver

domingo, 12 de janeiro de 2025

Nas gavetas da memória


Numa roda conversa, que mistura boa prosa, belos versos, altos papos e causos antigos, com alguns entendidos no assunto como Rubem Alves, Carlos Drummond de Andrade, Eduardo Galeano e José Lins do Rego, através de suas obras "Sobre o tempo e a eternidade"(1995/1997), "Cadeira de balanço" (1966/2009), "O livro dos abraços" (1991/2022) e "Menino de Engenho" (1957/2001), respectivamente, algo mexeu profundamente em minhas gavetas de memórias e trouxe à luz algumas histórias que ouvi de minha avó paterna Maria Aparecida de Oliveira, a Vó Cida. 

Não dá pra descrever a sensação ao remexer essas gavetas e sentir aflorar tantas memórias. O cenário em que eram contadas, o clima, o suspense, o mistério, o pedido de silêncio e de atenção, a seriedade da dona Cida e o desfecho final que tinha uma mensagem direta e objetiva, uma verdadeira lição de respeito, educação e obediência que me causava um medo sem precedentes. Recordando esses momentos, percebo que na simplicidade de suas falas, típicas de uma pessoa da roça que não sabia ler nem escrever, e da devoção eloquente que fazia de seus causos um verdadeiro retrato, a ponto de me fazer acreditar que ela mesma havia sido testemunha ocular de cada história. Na narrativa de cada causo acontecia um ritual sagrado que acompanhavam as histórias e cabia somente a nós, eu, minha irmã e meus primos ainda crianças, validar com o nossos olhares de pura devoção e medo.

Para adentrar sua casa haviam duas formas, pelo bar que meu pai Derci e meu avô Benedito tocavam, e pela garagem, que acabava sendo uma espécie de antessala com cadeiras para quem ali chegasse prosear. Ali, nessa garagem, fechada com portões de ferro, Vó Cida passava horas espreitando pelos vãos das grades o movimento das pessoas e dos carros pela Avenida Humberto Martignoni. 

E foi justamente nos bancos dessa garagem que me tornei testemunha assídua de cadeira cativa das histórias jamais contadas em qualquer banco de escola. Por mais que fossem sempre as mesmas, não me cansava de ouvi-las. 

Havia um homem muito ruim que vivia a praticar o mal a toda e qualquer pessoa que cruzasse seu caminho. Nem mesmo seu próprio pai, enfermo e acamado, ficou impune de suas maldades. No leito de sua morte, o velho pai lhe pediu água, que num ímpeto de pura crueldade urinou numa garrafa e deu ao pobre homem. Não tardou, seu pai faleceu. O castigo para tanto mal feito não tardaria. Esse homem começava a se transformar fisicamente. Pelos por todo o corpo cresciam e um rabo comprido nascia. O mal homem exilou-se para o desconhecido de um cemitério e nunca mais foi visto. Tornou-se uma lenda.

Como lenda, essa história era contada e repassada com muito mistério e dúvida. Os anos se passaram e eis que um rapaz dizia a todos que não acreditava e chegava a zombar de quem tinha medo. Muitas vezes se dizia corajoso o suficiente para ir até esse cemitério à noite, com um rabo de tatu em mãos, procurando por esse homem-bicho de pelos e rabo e, quando o encontrasse, lhe daria uma surra bem dada. 

Disse tanto que chegou a apostar com seus conhecidos que iria até esse cemitério para provar que não existia nada, mas se existisse daria um jeito. Certa noite se aprontou e foi. Lanterna numa mão e rabo de tatu na outra. Aproximou-se do cemitério e nada viu. Perambulou e nada. Confiante de que nada havia e que tudo aquilo não passava de uma lenda, virou em retirada. Foi nesse momento que deparou-se com um bicho peludo, alto e de rabo comprido. "Não era tu que me daria uma surra com rabo de tatu? Pois bem, isso é pra você aprender a não duvidar de cruza-ruim." O bicho tomou-lhe o rabo de tatu e deu uma surra no rapaz, que voltou para sua casa desorientado e enlouquecido.

Finalizado o causo, vinha a grande lição, que devemos sempre ter o respeito pelos mais velhos, pelos pais e rezar pedindo a Deus para que nada de ruim nos aconteça. Dona Cida gostava de santinhos. Tinha sobre a penteadeira o seu próprio altar com imagens compradas e ganhadas de parentes e conhecidos. Ali, fazia suas rezas diárias com o terço na mão. Uma fé enraizada na simplicidade, que lhe fora transmitida por sua mãe e adquirida ao longo de sua vida. 

Histórias assim me fazem crer nessa profecia poética de que a vida é sempre um caminhar de volta pra casa, um reencontro com a memória, com a saudade e consigo mesmo. Talvez, eu já tenha ultrapassado a fronteira que ainda permitia manter-me isento de tais pensamentos. Talvez, esteja eu consciente desse tempo, desse retorno eterno que é essa travessia. Hoje entendo minha avó, que no recontar de tantos causos, trilhava um caminho de retorno deixando por ali, simplicidade, carinho, dedicação, amor em prosa e sabor. O tempo que passa nos conecta com as memórias, e nos permite recostar a cabeça no travesseiro, com a leveza de uma criança que descansa seu corpo no colo de seus avós. O tempo e a eternidade, um caminho eterno.


Viajante solitário



Viajante solitário
de seus mundos mais profundos
que no deserto imaginário
Sobrevive eternizado 
no calor do momento
No valor de cada tempo
Alquimista da arte
Protagonista da vida, 
Sua alma grita 
Pelo sonho, pelo gosto
A gana de viver
de sentir o prazer
Não quer mais ser 
a sua própria cela
Quer o doce olhar pela janela
novos horizontes
Céu azul e bonito
de perto, tão mais belo e infinito
Ossos e carnes se contraem
E desacompanham seu pensar, seu querer
Mas o destino, seu algoz
Te faz refém da própria sorte
Entre um risco e o rabisco
Prefere entregar-se ao perigo
Na intensidade que lhe ainda resta
A enterrar-se em vida
Na sentença imposta de sua própria morte

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Rios e ventos


E agora, o agora...
Quanto tempo tenho
Quão frágil esse corpo é
Quão intensa pode ser essa vida
Insana, profana, escassa, devassa,
Minguada, sofrida, ou tão bela e vivida
Imagino um momento de inexistência nesse mundo 
Um caminhar para a insignificância dos atos
Que se pairam frente a uma imensidão de céus e mares
Para esse agora, quem sabe uma dose de sumiço
Alquimia sobre o tempo, um poema ou um feitiço
Tenho um tempo que não é meu
Não sou dono, não sou seu
Ao tempo que me resta, que me presta
Que me rouba, que me empresta
E que me faz sentir um forasteiro
Prisioneiro 
Numa terra sem lei, que não é a minha
Num lugar incerto e não sabido
Fora de casa, no céu e sem asa
Pertencente a lugar algum
Verdadeiro estranho entre alheias aparências
Sem cores, sem flores, sem alma, nem essência
O que de fato vale a pena
Deve caber no calor de um abraço
Na saudade que invade
A cela que rouba a cena
De tudo, meus feitos 
Se perduram num tempo e espaço
De sonho e manso regaço
Que acompanha o leito
Rios e ventos destinados a se tocar
Sem se misturar
Levando brisas, tempestades
Até o encontro com a eternidade 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Estações e Tempos



Derrama sobre o tempo a esperança e a espera
Entre o ideal e o real, o bem e o mal
O sonho e a luta de tantas estações e primaveras
Querência de um tempo vivido
Que se repita no pulsar da alma
Como no crepitar da chama
O que de fato foi bem visto, bem quisto
Finda-se em algum momento a passagem
Que se eterniza apenas na memória
De quem continua a viagem
Na pressa, sem demora, sem hora
De todos os tempos 
O que mais pesa é não saber onde termina
A história da vida de quem nos ilumina
E num piscar se esvai feito vento