sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Linha do tempo


"Linha do tempo" foi o relato, o resumo de fatos da minha vida, apresentado e compartilhado no 3º Período de Teologia, disciplina de Bíblia III. Neri. Momento importante e de fortes emoções, proporcionado pelo Professor e Mestre Gelson Neri.

O primeiro filho; primeiro neto; primeiro bisneto; primeiro sobrinho. O fato de ter sido o primogênito e ter se mantido como único durante 10 anos, renderam-me várias regalias, coisas que meus avós sempre faziam questão de me contar. Ainda por conta dessa honraria toda, tive o privilégio de ter passado bons longos períodos na casa de meus avós paternos (Benedito e Maria Aparecida) e maternos (Joaquim e Iolanda), principalmente. Minha irmã, Cinthia, nasceu quando eu já tinha 10 anos, uma diferença de idade que não foi empecilho em nossa intensa relação de amizade e cumplicidade.

Meus pais, hoje separados, chegaram a participar do ECC e também do Cursilho. Meus avós (de ambas as partes), sempre foram católicos, mas do lado da minha mãe principalmente a religiosidade ainda era mais evidente e participativa. E foi graças a estes que minha base religiosa, considero, foi essencial para a formação.

Avó Iolanda, mãe da minha mãe, tinha um sonho: ver-me tocando violão na igreja. Esse gosto eu pude dar à família. Meu primeiro violão foi comprado em Aparecida no Norte quando eu tinha ainda 8 anos de idade. Tive duas aulas apenas. O resto foi esforço e vontade.

Professores. Sempre tive muita admiração e respeito por cada um que passou pela minha vida. Hoje, recordo com saudade e gratidão de cada um em particular, pois seus ensinamentos, fruto do amor com que se dedicavam à educação é trazido comigo no coração. 

Após a Crisma, entrei em grupo de adolescentes, passei para grupos de jovens, fui coordenador em ambos, coordenador da comunidade, da Paróquia, fiz parte da equipe de coordenação Diocesana e representava a Diocese no Sub-Regional. Tudo isso no ambiente Pastoral da Juventude. Enquanto participante dos grupos de adolescentes fiz muitos teatrinhos e escrevi alguns que ficaram marcados, um sobre "Família", outro intitulado "Menino de Rua", que guardo com carinho até hoje e um outro que foi sobre a história de vida dos meus coordenadores João e Marisa, meus grandes amigos e hoje compadres, pois me deram a honra de batizar o seu segundo filho, o Felipe. Fui um adolescente custoso, no sentido namoro. Nos retiros de adolescentes haviam sempre monitores olhando a turma de longe e uma dupla exclusiva para me olhar de perto. Lembro que quando a gente começava a namorar, o estilo autoritário e paternalístico dos coordenadores nos obrigava a contar para os pais, principalmente das meninas. Passei uma vez por essa corte! (Rs). Um dia, fui lá conversar com o pai da minha namoradinha. A primeira vez a gente nunca esquece. Nessa época haviam também muitos rivais. As famosas rinchas. Eu e mais 2 amigos não podíamos sair sós que o risco de ser linchado era grande. O motivo causador era simples, pois enquanto a molecada saia para aprontar farras e brigar, nós saímos para a famosa paquera, o início do "ficar". Essa diferença de atitudes pra época desqualificava nossos algozes para arrumar uma namoradinha e nos deixava em evidência. 

Tamanho e peso. Precisava superar meus limites. Não era muito bom com o futebol. O contato corporal no esporte me fazia ser um risco para a equipe. No menor dos esbarrões eis que o sangue quente subia rápido demais e a porrada corria solta. Eu precisava me superar tanto na questão disciplinar do auto-controle quanto na minha auto-confiança. Primeiramente o vôlei de dupla. Sábados e domingos eram numa quadra de cimento de um clube modesto da vila onde morava. Passávamos o dia, eu e mais alguns colegas, apenas com garrafas de água que levávamos de casa. Vez ou outra um pão com mortadela. Ainda no quesito superação, era necessário extravasar aquela energia de uma outra forma. Foi onde entrei para o Muay Thai. Foram 6 anos com direito a 5 lutas. Da mesma forma, sem altura e com peso baixo, precisava compensar com agilidade e esperteza para não ser apenas o saco de pancada da vez. E assim se fez. Das lutas, 4 foram vitórias. Apenas a primeira, para um exame de faixa com um graduado mais alto e mais pesado que o castigo foi forte. Ossos do ofício.

A fome pelo vôlei era tanta que aos 16 ou 17 anos, eu e mais um amigo da época movimentamos um torneio masculino e feminino entre as comunidades da Igreja Católica de Piraju. Conseguimos patrocínio, ganhamos uma semana grátis no Ginásio de Esportes da cidade, compramos um jogo de camisa, rede, bola e ainda contratamos os juízes. A abertura oficial do torneio contou com o ginásio lotado. A entrada dos times uniformizados com as respectivas bandeiras de sua comunidade deu um ar de seriedade e comprometimento mostrando que as disputas seriam acirradas. O pároco fez uma celebração abençoando aquele momento, os participantes e toda a comunidade presente. Haveria premiação para a melhor equipe, ou seja, aquela comunidade que conseguisse fazer seus times (masculino e feminino) chegar mais perto das finais. Os melhores atacantes, levantadores e destaques também seriam premiados. Mais uma vez, vai eu correr atrás do déficit de altura. Compensar de que forma? O peso leve me dava a vantagem da impulsão. Então, durante a preparação do campeonato que durou cerca de 2 a 3 meses restava-me trabalhar todos os fundamentos do vôlei para chegar ao melhor grau possível da perfeição. Trabalhava a impulsão correndo na areia e com exercícios específicos. O resultado foi positivo. Nossa comunidade ganhou em primeiro lugar no masculino e no feminino, levando assim o troféu de melhor equipe. Levamos também o destaque feminino, atacante masculino e por último eu fiquei com o troféu de melhor levantador da liga. Além desse torneio de equipes, realizamos outros 3 torneios de vôlei de dupla, dessa vez só entre as pessoas de nossa comunidade.

Amizade. Sempre fui dedicado com minhas amizades mas nem sempre a recíproca foi verdadeira. Hoje, olhando para trás, tento entender porque algumas pessoas às quais me dediquei só estiveram presentes enquanto precisavam de algo em troca. A pergunta já é uma resposta. Há amigos e amigos. O tempo se encarregou de afastar de mim aquilo que não era verdadeiro. Um desses amigos, ou ex amigo, é justamente este que foi meu parceiro em tantas partidas de vôlei de dupla e que me ajudou a organizar aquele torneio entre as comunidades. Por outro lado, algumas pessoas daquela época de adolescência, e que eu não tinha muita amizade, hoje nos aproximamos e nos redescobrimos. Para essas situações tenho alguns escritos no blog: "Controvérsias da Amizade I e II" e também "Defuntos Vivos".

Farmácia Drogamed. Um trabalho que durou 10 anos, rendeu-me experiência e uma amizade eterna. Heloise, foi mais que amiga, foi uma irmã. Torcemos para o mesmo time, Corinthians. Ela, fanática por esporte, também jogava futebol. Após 3 anos trabalhando comecei a receber propostas de outras concorrentes até que numa terceira ou quarta vez ela não quis cobrir e eu saí. Arrependimento desde o primeiro dia de trabalho no novo lugar. Foram quase 1,5 anos até que pedi as contas. Um representante de laboratório, amigo em comum entre eu e a Heloise, comentou com ela sobre minha saída da outra farmácia. Automaticamente, sem eu saber, ela dispensou um funcionário para me recontratar. Foi o céu para mim. Quando recomecei o trabalho com ela, logo percebi que havia algo estranho acontecendo. Ela e seu esposo (pessoa que guardo muita admiração e respeito) já não se entendiam bem. O tempo que ela estava deixando a farmácia para jogar futebol era o motivo mais aparente daquele clima hostil entre ambos. Fui me inteirando de tudo e percebendo muitas pessoas estranhas passando por ali, todas, fruto de sua nova fase de amizades trazidas pelo futebol. A separação deles coincidiu com a separação de meus pais. Fomos ponto de apoio um ao outro. E após o Curso de Inverno de 99, quando comentei com ela da experiência que vivi lá, ela abriu-me o coração. (...) Sua nova fase não seria fácil. Seus pais praticamente a condenaram. Hoje não mais. Está tudo resolvido na família. Mas, na época, somente eu, ali, de apoio. Durante muito tempo levava almoço de casa para ela.

Formei-me em Administração de Empresas em 1998 e foi no ano seguinte a experiência que considero como um divisor de águas em minha vida: o Curso de Inverno da Pastoral da Juventude. Foram 10 dias vivenciando a Espiritualidade - Sonho, Fé e a Luta - com irmãos e irmãs que congregam da mesma caminhada. Ainda neste ano, outros grandes marcos extra-caminhada aconteceram. Foi um grande amadurecimento enquanto pessoa.

Anos antes (1996), ou melhor, um ano após a morte do meu avô paterno, Joaquim (+ 1995), meus pais se separaram. Foi um grande obstáculo. Sentia a família desestruturando. Acabei me afastando de todo tipo de trabalho na comunidade, retornando no ano seguinte, 1997. A maior dificuldade foi assumir as responsabilidades de casa, coisa que o meu pai até então o fazia. 

No ano de 2000 mudei-me para São Paulo. Havia uma proposta de emprego modesta. Seria um novo começo. Seria. Fiz a entrevista e fui contratado juntamente com mais dois colegas. Morando na capital, logo no primeiro dia de trabalho, a diretoria daquela multinacional francesa negaria a contratação que o gerente realizara semanas antes. Ficamos na mão. Eu, demoraria 3 meses a conseguir meu primeiro emprego paulistano.Um longo período de deserto, solidão, medo e por vezes, desesperança. 

Na capital, jogando volei num condomínio em Alphaville, centro do capitalismo exacerbado, conheci um empresário de bom coração que me abriria as portas. Ele, convidou-me a trabalhar numa instituição, a qual era vice presidente, que cuidava de crianças em situação de risco de morte numa região conhecida como "triângulo da morte" (formada por 3 bairros de alta periculosidade e violência). Após 6 meses, seria transferido para seu escritório em Alphaville, que atuava como uma trading. 

Nesse período conheci a mãe do meu filho, Felipe. Cheguei a morar aqui durante um ano e meio mas acabei voltando pra capital paulista. Dois anos após o nosso rompimento, e já com quase 10 anos de São Paulo, resolvi deixar a vida com bons rendimentos financeiros para estar junto de meu filho. Foi a melhor escolha. Já se completam 6 anos de Uberlândia.

Meu filho. O Felipe foi desejado, foi querido e planejado. E ele sabe que toda a minha mudança é em prol de estarmos juntos, próximos e sempre unidos. Nossa relação pai e filho, posso dizer, que vai além de qualquer expectativa. Somos amigos e também confidentes. Temos carinho e respeito. Somos eternos companheiros.

Entre idas e vindas a escrita sempre esteve presente no meu dia a dia. Esse gosto (também pela Língua Portuguesa e pela Literatura) foi reforçado em 1993 por uma professora de Português, Ana Cristina. Desse ano que comecei a esboçar meus primeiros rabiscos de pensamentos. 99, seria meu último ano de escrito e retomaria somente em 2009, já morando em Uberlândia.

Durante os quatro festivais de músicas inéditas que aconteceram em Piraju, minha cidade natal, (1996 a 1999), juntamente com o grupo de canto que eu participava, ganhamos duas vezes em primeiro lugar, uma em segundo e outra em terceiro, todos com músicas de minha autoria. 

Em São Paulo cheguei a ficar 5 anos afastado totalmente da igreja. Foram épocas incertas. Páginas não escritas. Mas, num dia de domingo, resolvi dobrar os joelhos e pedi ajuda a Deus. Em menos de 30 dias eu já estava morando em Uberlândia e trabalhando. Sonho realizado. Tenho uma música escrita que conta em detalhes esse episódio com o título "O retorno". Há um sentido especial nesse retorno que simboliza não só a minha volta pra perto de meu filho mas também para perto de Deus e na caminhada pastoral na igreja. A partir desse domingo, após muita lágrima e conversa íntima com Deus, fui numa missa na Igreja de Nossa Senhora Aparecida em São Caetano do Sul, cidade que então morava. Salientando que minha comunidade em Piraju também era de Nossa Senhora Aparecida. Na semana que se seguiu, procurei me confessar e participar da Missa todos os dias as !5 horas na famosa igreja de Santa Edwirges. E, não lembro ao certo como e quando, mas creio que eu estava nessa igreja, numa dessas tardes, debruçado sobre o braço e pensando sobre o que seria o meu futuro próximo e ao mesmo tempo esperançoso de que algo bom aconteceria, de olhos fechados, a visão que me ocorreu foi "ao olhar do lado de dentro de um determinado lugar, lá fora havia um gramado bem verde e com algumas árvores". Só fui me dar conta do que seria isso, quando morando em Uberlândia, ao sair da Igreja de Imaculada Conceição, hoje minha comunidade, ao olhar para fora, vejo aquele mesmo gramado que havia visualizado quando ainda estava em São Paulo.

Num determinado momento, desempregado, ingressei-me no cursinho, específico para o Concurso da Polícia Federal. Lá conheci um capitão da polícia militar que atuava no batalhão de choque da capital. Esteve presente no fatídico episódio do Carandiru, onde resultou o filme. Fazia questão de falar como realmente acontecera naquele trágico dia, mas com o olhar de um PM a trabalho. Dizia que o filme era muito romântico e só mostrava um lado. O homem era louco. Puro sangue no "zói". Suas aulas eram motivadoras, engraçadas e me marcaram muito principalmente por sua coragem de nos contar tudo o que acontecia pelas ruas de SP. Ele era um cara perturbado. Tomava remédios controlados e não cansava de dizer que falava com os espíritos. Vez ou outra ele acaba falando alguma coisa sozinho. Ele dizia que havia uma velha que sempre o incomodava mas que não lhe causava medo. Ficamos próximos, trocamos muitas ideias. Apesar de sua vida louca, descontrolada, incerta, eu o admirava muito.

Nesse período, morando na casa de um primo, no Heliópolis (hoje não mais uma favela mas um bairro que pode ser considerado uma cidade à parte), conheci de perto vários tipos de personalidades locais: o assaltante, o traficante, os contrabandistas, os desviadores de cargas, os sequestradores, os golpistas de cartões, etc. O código de conduta local se resumia em poucas coisas. O principal era não ter nenhum tipo de confusão que pudesse trazer a polícia para dentro do bairro, uma vez que atrapalharia o tráfico. E quando tinha briga entre vizinhos chamava-se os líderes das bocas para apaziguar. Não resolvido, em última instância, viria o "chefe" (o cara que comanda geral) e neste momento ouviria a versão de cada parte e de mais duas testemunhas próximas. Era dado o ultimato. Se a parte errada voltasse a causar problema seria expulsa do local em menos de 24 horas. Muitos saíram dessa forma deixando todos os pertences para trás. Outro "artigo" do código de conduta seria a proibição de qualquer tipo de roubo entre vizinhos. Estupradores não tinham vez. Caso fossem pegos eram levados diretamente para o tribunal do tráfico. A sentença era a morte. Havia uma sala que ninguém sabia onde, conhecida como sala da "maquita". Ouvi histórias de pessoas que entraram lá para serem julgadas e condenadas e voltaram aos pedaços em sacos plásticos.

Recém chegado nesse lugar, meu primo sabendo que eu havia trabalhado em farmácia durante muito tempo, pediu-me para que fizesse um curativo na mão de um vizinho, amigo dele. Após todo o processo de assepsia e curativo sentamos à mesa para comer uma bandejada de peixe frito. Papo vai, papo vem, aquele senhor, nordestino, pedreiro forte começou a contar seus feitos. Simples, trabalhador, do tipo que não leva desaforo pra casa. O caso que mais me chamou a atenção foi como ele e seu compadre armaram uma emboscada para matar um "mala" que já havia matado algumas pessoas do bairro. Moradores da rua que seria o palco para o desfecho foram avisados com antecedência para que se recolhessem e não abrissem as janelas de suas casas em hipótese alguma. Outros duas pessoas, num total de quatro, fizeram parte do esquema. Uma pessoa numa esquina com chapéu na cabeça dava o sinal (abaixando seu chapéu) para um segundo que faria uma abordagem natural, tempo necessário para os dois compadres entrarem em cena para a cena final. Quando este segundo membro vira as costas chegam aqueles que acertariam as contas. Já cientes de que seu algoz, hoje no papel de vítima, não estaria armado, encurralam-no numa parede. Vieram de pontos diferentes impossibilitando que ele corresse para qualquer lado. Foram mais de 30 tiros e segundo relatos deste senhor da mão ferida, que eu acabara de cuidar, o cara ainda conseguiu se sentar no asfalto. O golpe final e brutal seria um bloco de concreto arremessado em sua cabeça.

Um jovem de 17 anos conhecido como Rubão, pessoa amável mas que praticava assalto. Almoçou várias vezes na minha casa. No seu aniversário de 18 anos, período em que eu trabalhava como representante de uma marca de energético importado, dei-lhe 2 desse produto para que festejasse. Ele dizia que as pessoas não acreditavam que ele duraria até a maioridade devido ao alto grau de perigo que se arriscava nas aventuras de roubo, enfrentando outros criminosos e também a polícia. 15 dias após seu aniversário chega a notícia de que ele fora pego com mais 3 colegas. Roubaram um banco mas havia gente que sabia do esquema do roubo e a ROTA (PM) estava na espreita. Bandido traindo bandido. Assim que eles saíram com o produto do roubo foram cercados e alvejados de tiros. Rubão, segundo relatos, sozinho conseguiu levar mais de 40 tiros. Seus braços chegaram a ser arrancados. Enfim, o que era a vida ali, naquele lugar?

No trânsito em SP. No auge de meus problemas, já com grandes perdas das figuras mais importantes da minha vida (meus avós maternos), a paciência e a calma não passava nem perto da minha lembrança. O trânsito da capital paulista não é apenas carregado pelo excesso de veículos. Existe um clima de tensão, medo, intolerância que ao menor do descuido pode ser fatal. Já fadado pelo estresse, pra não dizer desorientado, comecei a carregar um cabo de machado dentro do meu carro uma vez que se eu tivesse arma de fogo o resultado poderia ser ainda pior. Uma única vez passei por um desentendimento com um motorista de ônibus. O folgado não  me deixava entrar em sua frente e quando eu diminuía a velocidade ele também o fazia, impossibilitando de ficar em sua traseira. Numa brecha, acelerei o carro, passei à sua frente, parei o carro atravessado, abri a porta e desci. Cego de raiva, fui caminhando em direção ao ônibus (mas sem o cabo de machado). Chamei o motorista para fora. Xinguei-o de formas carinhosas que nem dá pra escrever (rs), sem contar os acenos. Ele não desceu, Graças a Deus. Não seria a minha hora de partir, nem tão  pouco a dele. 

A figura paterna na minha vida ressoa de várias formas. Meu pai, Derci, foi o famoso "herói e bandido". Nossa relação não é das melhores. Somos ausentes. Basicamente ele não sabe nada do que penso ou do que sinto. É uma ferida incurável. O que posso resumir de nós dois está no blog, com uma pasta somente de coisas que escrevi a nosso respeito. O mais marcante é "Doce Abandono". Dele, eu levo a experiência daquilo que eu não gostaria de me tornar: um ausente na vida de meu filho. 

Por outro lado, tenho em meus avós o exemplo de família, união, companheirismo, amor sincero mesmo diante das dificuldades. E é com essa simplicidade que procuro impulsionar minha vida e solidificar minha fé. 

Minha mãe, Claudete, considero uma pessoa guerreira, sofrida e também difícil de se entender, mas que está sempre pronta ao nosso lado. Nos acompanha, de perto ou de longe. E, por mais que não possa fazer ou dizer nada que melhore algumas situações adversas, o importante é saber que ela está ali.

Posso dizer que tenho muito mais dos meus avôs e avós que propriamente de meus pais. Tenho vários escritos que retratam um pouquinho de cada um desses quatro pilares da minha existência. Um, em especial, chama-se "Não aprendi dizer adeus".

Particularmente carregava uma certa dor de culpa, por não estar próximo de cada um deles, quando a vida lhes chegou ao fim. As lembranças são fortes e marcantes e não teria como retratar aqui. Hoje, mais maduro, entendo que nada do que estou vivendo seria possível se, naquele ano de 2000, numa noite fria e estrelada de junho, viajando madrugada adentro rumo ao sonho da conquista da cidade grande, entre móveis e esperança, deitado sob um colchão na carroceria de um caminhão, eu não tivesse ousado correr o risco de um futuro incerto ou promissor, ao qual hoje definiria como sonho. O futuro chegou e muitos sonhos também.

E pra finalizar deixo aqui duas estrofes de uma música de minha autoria que retratam tempos idos, tempos de agora e tempos que virão:

"Busquei meu motivo para viver
Descobri que nasci pra fazer
Não pra sentar e assistir a história acontecer"

"Sigo nos passos do Criador

Que abriu os braços e morreu por amor
Um destemido e sofrido que não se calou"

Música: Ideologia Santo Jovem - 1998

Ailton Domingues de Oliveira

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