terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A cadeira e o tempo


Foi desta cadeira que compartilhamos de toda boa expectativa acerca da recuperação de minha mãe. Ao lado de seu leito nos estendíamos para alguns momentos de descanso. No hospital não existiam assentos confortáveis para todos os acompanhantes. Na verdade, creio eu, que não existam assentos confortáveis em hospitais. Toda vez que um paciente recebia alta havia uma disputa acirrada, uma lista de espera, por uma destas poltronas. Muitos dormiam sentados em cadeiras de plástico. Não foram poucas as cenas que presenciei de pessoas idosas debruçadas sobre o leito de seus entes, rendidas pelo cansaço.

Foi desta cadeira que ansiávamos em ritmo de espera, uma espera de aflição por não sabermos o dia que tudo estaria enfim no seu devido lugar. Em outras palavras, uma angústia imposta, por não termos sob o controle de nossas vontades ou sob os nossos comandos, ou, simplesmente por estarmos reféns da espera e do tempo. Esperávamos, que o tempo passasse logo, mas também, que tudo fosse feito conforme a vontade de Deus. Esperávamos, que a sabedoria humana, orquestrada pelas Mãos do Criador, resolvesse o problema. E foi assim, com muita fé, a fé que por vezes parecia sumir de nosso ser, mas que era trazida de volta pelas orações de tantos amigos e amigas, que hoje agradecemos a a Deus.

Dias antes da dona Claudete receber alta já havíamos conversado sobre a cadeira. Decidimos deixá-la, doá-la para quem precisasse. Andei pelo corredor em busca de uma pessoa sem a poltrona de acompanhante. Muita gente precisando! Meu Deus! Procurei então uma senhora, a camareira daquele turno, que sabia quais eram as necessidades mais urgentes. Sabemos que a doação é ínfima perante a demanda mas temos certeza que pelo menos uma pessoa será servida de alguns momentos de descanso para o corpo.

A cadeira ficará na lembrança das longas noites e dos papos diários na Medicina, tanto no 112 quanto no leito 147. É como deixar lá um pedacinho dessa história que vivenciamos ao lado de grandes e inesquecíveis pessoas: médicos, enfermeiras, pacientes e acompanhantes. Um gesto de gratidão nada comparado com o êxito na cirurgia de minha mãe, incluindo os procedimentos pré e pós operatórios. A camareira agradeceu imensamente e tão logo saíamos pelo corredor vimos no leito ao lado uma senhora recostando sobre ela.

Agora, em casa, relembramos as dores e agradecemos pela vida. O que antes chorávamos sem saber como orar, agora sorrimos, levantamos as mãos aos Céus e damos Graças a Deus. E ainda conseguimos transformar certos episódios em risos. Tudo, tudo, jamais poderá ser como antes.

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