quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Uma noite, três histórias


Na noite do dia 24/11/14, no hospital de João Pinheiro (MG), enquanto minha mãe era medicada num quarto do pronto-socorro eis que algumas histórias me chamaram a atenção. Na verdade era impossível não perceber o que acontecia naquele reduto. 

Uma adolescente de aproximadamente 15 anos chega de ambulância direto da cidade de Brasilândia. Segundo sua mãe, a menina tomava banho descalça quando recebeu uma descarga elétrica no chuveiro. Era uma noite chuvosa e com muitos raios e trovões. Um desses raios caiu próximo de sua casa, o que, possivelmente atingiu sua filha no banho. Ela chegou com convulsões e queimaduras. Toda a equipe de plantão fora acionada. Os outros pacientes tiveram de aguardar. Um cardiologista foi requisitado às pressas. No desespero a mãe adentrava a sala onde faziam os primeiros socorros e saia aos prantos. Recostava sua cabeça na parede e pedia socorro à Deus para que salvasse sua menina. Não havia quem não se comovesse com a cena.

Uma hora depois, enquanto eu carregava meu celular na recepção do pronto-socorro chega uma senhora com fratura exposta na perna. Outra situação complicada e chocante. Nesse momento preferi não ficar perto. Fui para fora. De longe acompanhei a movimentação das pessoas que a trouxeram e juntamente com os enfermeiros a tiraram do carro. Ela aguardou um bom tempo no corredor até que houvesse profissionais disponíveis para atendê-la. Já não sabia o que era pior de se imaginar para aquela senhora: ser retirada do carro com sua perna enrolada numa toalha ou aguardar sobre uma maca naquele corredor tumultuado e nada higiênico.

A terceira cena que presenciei foi a chegada de uma mulher. Foi trazida num carro particular. Estava no banco de trás. Quatro homens a retiraram do veículo e assim que adentrou a recepção começou a se debater e gritar. Juntaram mais duas pessoas e ainda tiveram dificuldades para colocá-la sobre a maca. Sua filha e o porteiro a seguraram por algum tempo até que aplicaram-lhe uma injeção sedativa. A situação ficaria mais tensa. A mulher falava com uma voz estranha, como se não fosse ela. Xingava sua filha, o porteiro, os enfermeiros, a médica e quem cruzasse seu campo de visão. 

Sua filha contou que ela estava frequentando uns "centros esquisitos". Pouco depois revelou que a mãe havia feito uso de cocaína. Por fim, logo falaram pelo corredor que a mulher estava possuída de um espírito maligno. Levaram-na para um quarto e a amarraram na cama. Sua roupa estava toda molhada de xixi. Vou te contar uma coisa, com umas doses de sabe-se lá o quê fica facinho de encapetar o sistema. Lembro-me de uma vez que arrisquei tomar uma garrafa de San Remy no bico. Aff! Foi o bicho pegando! Mas fui curado com uma santa glicose e um belo sermão da minha mãe. Creio que deva ser o caso dessa senhora.

Ela continuava no xingamento total e sua filha, no desespero, saia para fora e chorava no corredor. Tentaram desamarrá-la mas quando o enfermeiro soltou uma das mãos tomou uma bolacha no pé do ouvido que deve ter ficado com o barulho de telefone ocupado até hoje. Ele ficou com tanta raiva que ligou para a polícia e exigiu que a mulher fosse presa por desacato e desrespeito ao funcionário público. A filha entrou em pânico. Nesse momento a moça caminhava pelo corredor rumo à saída e eu a chamei. Eu estava com uma camiseta de Imaculada Conceição. Disse-me que era católica. Só não entendi porque ligaram para o pastor. Enfim, ofereci algo que carrego com muita estima e devoção, um crucifixo de madeira com a medalha de São Bento. Fiz questão de anotar num pedaço de papel a oração de São Bento e entreguei-lhe com a Cruz. Falei pra ela rezar toda vez que entrasse no quarto. 

Enquanto isso, chegavam três viaturas policiais juntamente com mais duas motos. Eram dez homens para dar conta da pobre possuída que meteu a mão na cara do enfermeiro. Nada fizeram quando viram a mulher amarrada, se debatendo e falando com uma voz estranha. Formaram uma roda do lado de fora e ficaram falando sobre pessoas que pegavam espírito. Estavam era com medo. 

Passado alguns instantes chega um pastor e logo foi levado até a enferma. Mais uns minutos e chega um segundo pastor. Eita! Sessão de desencapetamento por volta das 23:30 horas deste dia. E agora, qual bandeira seria a responsável pelo caso da libertação dessa senhora? Após curarem a mulher, quem levaria a fama e o veredicto final? O babado tava louco e eu não podia falar pra doutora do caso que uma boa dose de glicose no ato e um bom sermão após doze horas seriam suficientes. 

Tive pena da filha que pagou o pato, passou vergonha e ainda implorou para não levarem sua mãe presa. O enfermeiro não quis dar continuidade na queixa. Ufa! Os policiais agradeceram. Ninguém queria encostar naquela pobre (...) Possuída?! Possuída sim, mas pela força do pózinho de pir-lim-pim-pim! 

Horas mais tarde, madrugada do dia 25/11/14, encontrei a filha da senhora (ainda acamada, porém livre e desamarrada) pelo corredor. Sua mãe estava tranquila. Passou o efeito das drogas e o sedativo a possuiu geral. A mulher havia acordado e não se lembrava de nada. Sentia dores nos braços e nas pernas onde foram amarrados. Não sabia como chegara ali. Sua voz estava mansa. 

Esses foram apenas os casos que presenciei. Não sei como foi que aconteceu, só sei que foi assim. Uma noite, três histórias: choque, fratura e desencapetamento do pir-lim-pim-pim.
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