segunda-feira, 16 de março de 2015

Há um tempo em que o tempo não para



Há um tempo em que o tempo não para.

Continuar a vida sem a presença de um ente querido que partiu é tarefa árdua, penosa. Sofridão inexplicável. Dor incurável em que o próprio tempo torna-se paliativo companheiro e traiçoeiro. Não há respostas porque não há o que se questionar. É o ciclo da vida que nos dá e nos tira de cena. Deus, como autor e diretor deixa-nos o livre arbítrio para protagonizarmos nosso caminho e nossas escolhas. A vida é o palco e nós os meros responsáveis da atuação.

Seria possível não considerar a ausência da pessoa uma perda? Se não entendemos como perda é porque existe esperança de um reencontro na eternidade do paraíso, seja este aqui ou não. Ao contrário, se considerarmos como tal, então estamos reféns da derrota eterna. Teremos o amargo gosto do fim em doses homeopáticas nos dias que a nós restarão.

Quantas mortes existem? Diria que apenas uma. E mais, há quem tenha sobrevivido à ausência de quem partiu mas abdicou-se de sua própria vida por não suportar o deserto do solo caminhar.

Reorganizar a vida, a casa, os móveis, a rotina e o próprio tempo passa a ser a pior de todas as tarefas. Em cada canto visualizamos a imagem da pessoa que partiu. Enterramos o corpo mas a história permanece na memória. Não dá pra mantê-la ao centro da sala, velando-a todo dia. É preciso permitir que se cumpra a ordem natural das coisas. É preciso despedir-se da matéria e orar pela alma.

Existe também a morte de quem preferiu partir de nossa vida sem deixar um elo de contato. Julgo como o "doce abandono". Quem se foi muitas vezes nem lembra do que deixou, do que plantou e não cuidou, ou do espaço que teve para cultivar e nada fez. Creio que seja a pior de todas as mortes. É a morte de quem continua vivo. É a morte do sonho e o rompimento do elo de ligação. É a morte de quem não morreu mas deixou de co-existir em sua vida. Quem fica é como se permanecesse sentado no balanço aguardando as mãos para o empurrar. Não há mais quem embale o balançar. Talvez, a morte real seja de quem permaneceu sofrendo e ainda não encontrou forças para superar a ausência.

Os possíveis reencontros que ainda hão de ocorrer é como um sonho que te traz a lembrança e a saudade da pessoa em questão e depois quando se acorda a realidade te leva diretamente ao vazio da existência, ao deserto. Mais uma noite, um novo dia em que resta apenas amargar o desarranjo. Os móveis, as fotos, as lembranças, tudo desorganizado. A vela parece reacender na sala do velório, o coração.

Quem assim partiu, o fez consciente. É a pior de todas as perdas. Perder, não para a morte natural a qual todos estão sujeitos, mas para a morte cotidiana da relação que nunca firmou-se. Assistir o tempo passar é um velório eternal que perdura e acompanha cada cena, cada ato. Um romper é preciso, mesmo que seja o golpe de misericórdia. É preciso criar forças para embalar o balanço da vida. A sensação e o sentimento só serão experimentados se houver o primeiro ato. E que este seja para sua redenção e superação. 

"Todo homem morre mas nem todo homem vive!" Morrer é o ciclo natural da vida. O contrário não é verdadeiro. Viver é... sentir a brisa do balanço que vai e que volta... é encontrar, após o doce e amargo abandono, o doce e suave ombro, o sentimento de estar vivo, e as pessoas por quem vale a pena toda a vida.

Há um tempo em que o tempo não para: nunca!


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