quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Caridade X Dignidade


O filho do patrão então correu para junto de seu pai e cochichou apontando para uma certa pessoa que estava próxima de seu estabelecimento. O dono fez sinal de positivo com a cabeça e o filho foi para os fundos voltando em seguida com uma vasilha contendo alimentos. Colocou dentro de uma sacola, foi para a porta principal e esperou que aquele senhor aproximasse. Ao entregar a sacola contendo a vasilha com a refeição o senhor agradeceu dizendo: "Deus abençoe!" Tomou o embrulho e guardou-o numa mochila. Cabisbaixo seguiu sua caminhada.

Duas razões distintas que se cruzam neste fato que durou menos de dez minutos. A caridade que o menino, o filho do dono já está pronto para fazer e a dignidade do homem em busca de um alimento. Desde cedo nota-se que o pai ensina o filho que é necessário dar alimentos aos necessitados. Desde muito tempo este senhor perambula pelas ruas em busca de um prato de comida para resgatar suas forças,seu vigor e a dignidade. 

O lugar para comer o alimento é o que menos importa para este senhor, uma vez que onde ele conseguiu a sua refeição deste dia é um ambiente propício para se adentrar e fazer o ritual ao redor da mesa como toda e qualquer pessoa digna. Porém, ciente de seu papel, simplesmente baixou a cabeça e o único ritual que pode ali fazer foi o do agradecimento em nome de Deus. A vasilha que lhe foi entregue dentro de uma sacola já apontava quais seriam os passos seguintes que ele teria de dar após a "caridade recebida", pois se fosse um "convidado" sua refeição seria do lado de dentro.

Há quem viva pela caridade. Há quem necessite fazer uma caridade para apaziguar sua consciência, contrabalancear suas hipocrisias. Há quem faça a caridade, como este garoto, ciente de que sua tarefa enquanto pessoa estava cumprida naquele dia. E estava, pois, por mais que fosse algo ensinado por seu pai, naquele momento a voluntariedade partiu do filho. 

Quanto aquele senhor de muitas histórias de rua mas sem ter pra quem contar e nenhum interessado para ouvir, estará satisfeito por mais um dia ou até que a fome o assombre e a necessidade de passar naquele mesmo endereço, quando o cheiro da comida exalar pelas portas e janelas do estabelecimento, na expectativa de que aquele bom coração e os olhos bondosos do menino o encontrem do outro lado da rua, e ambos, na sincronia do olhar estabeleçam por mais um momento o elo da "caridade e da dignidade" (...).


  
"Isso tudo acontecendo e eu ali na praça dando milho aos pombos." (Zé Geraldo)
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