sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O suicídio da alma


Vagueia penada
Avoada e aprisionada
intencionalmente pelada
obrigada e desnudada
"presa nessa cela
de ossos, carne e sangue"
sem orifício de respiro
sem luzes em sua sala fechada
num deserto de visíveis zumbis,
sanguessugas e inquisidores

Desanda sem norte
sem sorte
ao lado da morte
que a visita
chega e fica
companheira e bonita
por de trás dessa casca
em sua boca a mordaça
envolta numa cortina de fumaça

Um grito ecoado
Um coração congelado
Um amor ao pecado
O estanque da canção
O estampido de um tiro
É o algoz da paixão
É o desfecho bandido

A alma sussurra
Sem charme e encanto
em busca de altura
de repouso, de um canto
Numa árvore se pendura
em meio aos prantos
É o fim, a loucura
é a profecia sem manto

Vagueia a alma
A um passo da lama
Na voz que proclama
Na dor que se inflama
No peito de quem ama
Atrevida e bandida
Ousada e ferida
A vida é doída

Vão-se os bons
Os heróis, cedo se vão
"Morreram de overdose!"
cantava o poeta
é quase uma neurose
evidência concreta
o estático permanece
ignorante e inerte

Sentencia-se a si
Desprendendo-se da cela
Não há motivos para rir
É o fim de uma era
É o início da vida
São os mundos em guerra
O que se vê e o que se sente
O que se quer do ser ausente

É a triste partida
Do trem que tira a alma da vida
Embarcação comprometida
Em levá-la para além de toda vida
Não é a morte que finda
Apenas rouba a cena perdida
E oportuniza a uma nova estadia
A quem viveu e morreu,
Renasceu e sobreviveu
Dentro desta cela,
Onde diária é a guerra

A alma se mata
Quando não se encontra com a luz
Do nascente ao poente
Ainda não é o sol esta luz
Na calada da noite
Sombria e fria
É a lua de sangue
Que inspira o trágico
Morrer para si, suicídio da alma
Para viver o fascínio mágico
De libertar-se da morte
E com a morte renascer para a vida