sexta-feira, 20 de maio de 2016

Cartas em Tempos - Do sertão


"Caro soldado também sobrevivo feito tu.
De onde venho já nem sei mais o que sobrou.
Minhas lembranças é o que sou.
Minhas batalhas dispensam armas.
Os tiros que matam não são de pólvora e aço.
Os estampidos ressoam das latrinas dos algozes poderosos.
O fogo cruzado é intenso .
Guerra de interesses.
Este sertão, terra de ninguém, é intenção que assim permaneça.
Tão seco quanto a pele esturricada dessa gente.
Gente que vegeta pelos dias e só carrega utopia.
Um dia, quem sabe, Deus também há de vir pra cá.
Olhar pra este lugar e mandar chuva e flores.
Se Ele existe, que escute bem.
Restabeleça a ordem.
E sentencie a cada qual com seu fardo merecido. 
Mas se somos todos filhos Dele, ninguém haverá de ter menos nem mais.
Daqui do sertão, bravo soldado, também sou combatente.
Pelejo com a vida, sem igual.
A lida não é para os fracos. 
Sucumbir aqui é para os fortes que aqui resistem.
É esperança que não se vence e alimenta a quem fica.
Os senhorios, os donos pelo mérito da desgraça alheia, um dia haverão de prestar contas.
Minha fé é nessa gente brava, de poucas palavras e sem estopim, queimada pelo sol e saqueada pelos mandatários.
Viver, isso sim é uma afronta para os coronéis do inferno.
Desejo-lhe paz."
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