segunda-feira, 23 de maio de 2016

Cartas em Tempos (VIII) - Da rua


"Nada tem sentido.
Manter-se vivo é sacrifício.
O mundo é movido a poder e miséria.
A guerra é o ápice desse contraposto.
Daqui do meu mundo faço minhas próprias batalhas.
Sempre perco, sempre venço.
Sou meu dono, meu algoz.
Nossas vidas, meus caros, estão entrelaçadas.
Estamos interligados pela dor, pelo esperança, pelo futuro...
Hoje é um dia sóbrio.
Porém, frio, cinzento.
As pessoas saem menos de suas tocas.
A movimentação diminui pelas calçadas.
Nem mesmo as pombas aparecem para comer os milhos que os vovozinhos jogam pelas praças.
Vez ou outra nos dão milhos...
As sobras dos finais de semana.
Tem muita fartura.
É bom ser invisível.
Ninguém te atormenta.
Nós aqui é que somos vistos como o estorvo social.
Enfeiamos o cenário.
Principalmente quando estamos em frente a igreja.
Aquele monumento portentoso... com grades ao redor, vitrais de luxo e uma porta enorme...
Lá dentro falam de amor, caridade, paz...
Da porta pra fora quase pisam nossas cabeças...
Somos escórias, eu sei.
E não me importo.
Creio que importo é com os outros aqui.
De onde eu venho já fui soldado. 
Fui empresário, fui filho, fui meretriz, fui infeliz...
Não tenho mais religião.
Deus me livre desse diabo.
E Deus?
Vejo Ele todos os dias na cara surrada dos meus camaradas de vadiagem.
Quero mudar de cenário.
Caro soldado, quero dar novo sentido.
É isso!
Talvez, eu consiga ir para o fronte contigo.
Viver outras guerras..."
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