sexta-feira, 29 de julho de 2016

Andanças que já fiz história


Nas andanças que já fiz história, muitas ainda teimo em apagar, outras enveredo esforços para que permaneçam na memória. Tanto tempo passou desde aquela partida. Dolorosa partida que se fez entre lágrimas e esperança: o que se deixava e o que se esperava. Era um sonho. A realidade de um sonho tomando forma rumo ao desconhecido. Partimos.

Noite fria e de céu estrelado. Não me recordo a lua. Mas sei que estava lá. Carregamos as mudanças no caminhão. Deitamos sobre os colchões, que dividiam o espaço da carroceria com caixas e móveis de cada um, e ali nos enrolamos em cobertores. Três jovens aventureiros do interior rumo à maturidade exigida pela cidade grande. Um outro amigo nos acompanhou e foi bom. Sua companhia deu-nos ânimo e coragem. Essa travessia foi uma mudança repentina que marcou nossas vidas para sempre.

Entre os dias iniciais que desbravamos naquele inferno de pedras e motores até a saga dos primeiros passos e conquistas, o medo do incerto e a dúvida do que nos aguardava foram sombras que custaram a se dissipar em dias de sol. Nada saíra conforme o planejado mas o tempo cerceou as dúvidas e nos obrigou a continuar. Nossas lágrimas silenciosas explodiam na penumbra de nossas almas. Não desistimos. Superamos.

Conquistamos o mundo, o nosso mundo. Cada qual conseguiu trilhar seu caminho e fez, desfez e refez sua trajetória. O amadurecimento fez-nos adultos, ora sob as fivelas da dor, ora sobre suspiros de amor. Não houve arrependimento, eu sei. Faríamos o mesmo caminho quantas vezes fosse necessário. Sobrevivemos.

Do dia dessa partida ao tempo de agora muita coisa mudou. Muita gente querida e amada partiu. Lembranças eternizadas em nossos corações. E toda vez que me aventuro a retornar até o berço do meu interior, não tem como não lembrar toda a travessia e reviver nostalgicamente e feliz cada suor, cada lágrima e cada passo.

Nem tudo está como deixamos. A casa em que cresci e vivi os melhores anos de minha vida já não existe mais. Um grande galpão foi construído lá. Aquela rua Delfino, palco de muitas peladas, pedaladas, pega-pega, esconde-esconde, mãe-da-rua, polícia e ladrão sempre será como a deixei no antigamente... na minha infância. Por mais que a matéria tenha sido desfeita, basta fechar os olhos e me colocar sentado naquele muro do terraço... Foram muitas primaveras.

Recentemente resolvi doar objetos que carregava como um pedaço vivo de quem já embarcou para os Céus. Desfazer de tais presentes causa uma dor que dilacera a consciência. É como enterrar novamente um pouco mais de quem se eternizou... Inexplicável. Tomei a devida coragem e o fiz. Mantenho apenas o que me é útil. Meu primeiro violão e um triciclo de ferro estão na lista dos que partirão rumo à utilidade de quem precisa mais. Quebrei minhas próprias normas, ou correntes, ou protocolos quando senti a necessidade do desfazer. Acredito que longe do canto em que acumulava poeira na minha casa terá mais brilho e mais alegria.

Aquela casa de número 72 permanece intacta no meu coração. Não se desfaz. Não se perde nem se deteriora com o tempo. Tudo o que tenho de mais precioso está guardado com muito carinho, respeito e saudade. São lembranças que estão além de qualquer objeto. E assim, nesse ciclo que a vida se tece, continuo revirando o baú da minha infância e sempre partindo rumo ao real do sonho. A maturidade que se exige em cada empreitada, hoje se faz na consciência, e a voz dos meus queridos ecoa sempre viva no pé do ouvido.
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