sexta-feira, 8 de julho de 2016

Convenção nos autos da praça III


A quadra da praça estava vazia. Nenhum dos frequentadores assíduos estava lá para uma disputa de futsal descalço. O motivo é o período de férias. Nas férias não se joga bola na praça que fica próxima a uma escola. O bom é participar de um importante racha em período letivo. Fora disso, as férias devem ser curtidas longe dali. Suspeito que deve ser esse o motivo.

Não havia casais enamorados exalando corações em carinhosas trocas de olhares. O movimento realmente já esteve melhor. Apenas uma meia dúzia inteira de pessoas, entre adultos e crianças, no rol dos aparelhos de ginástica.

Ao centro, de seis bancos de pedra que lá existem, três estavam ocupados por distintos grupos concentrados em sua inconfundível tragada no modesto cigarrinho do capeta, vulgo baseado. Num determinado banco eram dois rapazes e uma moça. Noutro, apenas três camaradas em estado zumbi, que não faziam questão de se atentar ao que ocorria ao redor. No terceiro uma dupla de rapazes, aparentando um cara mais velho e talvez um adolescente, conversavam em gíria e sorriam descontroladamente ao som de um rap.

Num determinado ponto, atrás de um banco de pedra, estão os cativos da praça. Um grupo com cinco ou seis pessoas esparramados em papelões e cobertores, rodeados por mochilas, sacolas plásticas, muita cachaça e pouca comida. Ali os senhores de seu tempo, desertores da sociedade, libertados e dependentes, se reúnem como uma sociedade que não tem outra finalidade além da sobrevivência sem incômodo.

Estive invisível aos olhos de todos. Passei duas vezes, ida e vinda, e tenho certeza que não fui notado. Não havia outra intenção além de observar. Acredito que, principalmente este grupo de senhores que levam a vida ali naquele reduto, sentem e pensam como eu: são invisíveis na praça.

Imaginei assim que a praça é apenas passagem diante de algumas belas paisagens. Passagem, travessia, começo e fim, entrada e saída. É um encurtamento de caminhada com algumas trilhas sinuosas. A maioria dos pedestres alargam as passadas apressadamente para saírem logo daquele lugar. Talvez seja medo dos cativos. Há quem não olhe para os lados e se recusa a enxergar o óbvio. Há também, quem prefira caminhar por fora evitando cruzar com os que estão dentro. Outros o fazem por mera precaução.

O ilustre poeta do sertão, Guimarães Rosa, em um provérbio de "Grande Sertão: Veredas" atesta o meu pensamento quando diz: "O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia." Algumas praças, desertos, casas e corações estão repletos de anseios na saída e na chegada. A importância para a travessia talvez nunca será dada num mundo que impõe apenas metas e não propõe vivências. 
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